“Josué é o sexto livro do AT e funciona como uma dobradiça
canônica. De um lado, o livro leva à completude o principal
tema do Pentateuco: a ocupação de Israel da terra prometida
por Deus aos patriarcas; por outro lado, ele marca o começo
de uma narrativa maior, se desdobrando através de 2 Reis,
que reconta a história da vida de Israel na terra. Se
adequando a seu caráter transicional, Josué oferece várias
perspectivas sobre a história que coloca diante do leitor,
criando um conjunto de complexidades exegéticas e
teológicas.”
—L. D. Hawk, DOTHB, 563
Autoria: Funções de Josué no
Pentateuco
✤Guerreiro: Josué liderando Israel contra os Amalequitas (Êxo 17:8–16);
✤Espia: Espia fiel ao lado de Calebe (Núm 13–14);
✤Associado de Moisés: Acompanha Moisés em parte do caminho no
monte Sinai (Êxo 24:13); a descrição da figura de Josué serve para
avançar a narrativa sobre Moisés em Êxo 32:17 e Núm 11:24–29 através
da contraposição de opiniões; descrito como “jovem assistente” (Êxo
33:11) e “ministro” (Êxo 24:13; 33:11; Núm 11:28) de Moisés;
✤Sucessor de Moisés: Duplamente comissionado como sucessor de
Moisés pelo próprio (Núm 27:18–23) e por Yahweh (Deut 31:14–15, 23).
“O Senhor teu Deus passará adiante de ti; ele destruirá
estas nações de diante de ti, para que as possuas; Josué
passará adiante de ti, como o Senhor tem falado.”
דיִ֞מְ'ַי־א+ֽה ָיֶ֗נָפְל רֵ֣בֹע ׀א2֣ה ָיֶ֜ה6ֱא הָ֨והְי
רֵ֣בֹע א2֚ה ַעֻ֗?@הְי םָ֑1ְ'2יִֽו ָיֶ֖נָפְ:ִמ הֶ:ֵ֛אָה םִ֥י?@ַה־תֶא
׃הָֽוהְי רֶ֥GִH רֶ֖'ֲאַJ ָיֶ֔נָפְל
—Deut 31:3
“E sucedeu depois da morte de Moisés, servo do SENHOR,
que o SENHOR falou a Josué, filho de Num, servo de
Moisés, dizendo”
—Jos 1:1
“E depois destas coisas sucedeu que Josué, filho de Num,
servo do Senhor, faleceu, com idade de cento e dez anos.
—Jos 24:29
Autoria: Funções de Josué nos
Livros Históricos
✤Comandante Militar representante de Deus (Jos 6:20; 10:11; 8:3–
23);
✤Liderança conforme o modelo Mosaico: respeitado como
Moisés (Jos 4:14); o cruzar do Jordão emulando o cruzar do mar
vermelho (Jos 4:23); encontro com o comandante do exército
celeste relembrando a sarça ardente (Jos 5:13–15 // Êxo 3:2–5);
intercessor (Jos 7:6–9//Deut 9:25–29); erguer da espada (Jos
8:18–23//Êxo 17:8–13); cumprimento de promessas Mosaicas
(Jos 14:6–15//Deut 1:36; Jos 17:3–4//Num 27:1–11; Jos 20:1–9//
Deut 4:41–43; 19:1–13; Jos 21:1–42// Num 35:1–8).
Autoria: Funções de Josué nos
Livros Históricos
✤Figura Real: Josué é apresentado pelo texto como um
precursor da função ideológica desempenhada pelos
reis posteriores. Esta perspectiva é especialmente
evidente ao se comparar Jos 1:2–9, Deut 17:18–20 e 1Rs
2:1–4;
✤Estudiosos sugerem que a transição de Moisés para
Josué pode ter sido utilizada pelo autor de Crônicas
para modelar a transição entre Davi e Salomão.
Autoria: Funções de Josué nos
Livros Históricos
✤Aquele que obedece e ensina a lei: Constante referência
ao trabalho de Moisés como legislador (Jos 1:7–8, 13;
4:10; 8:30–35; 11:12–15; 22:2; 23:6); ensina o livro da lei
ao povo (Jos 8:30–35); circuncisão e páscoa (Jos 5:2–
12//Êx 4:25); aniquilação dos povos inimigos (Jos 6:17–
18, 21; 8:26; 10:28–40; 11:11–12//Deut 7:1–5; 20:15–18);
✤Profeta: Predição do futuro (Jos 6:26; 23:5), ameaças da
aliança (Jos 23:12–13, 15–16), e mensageiro direto de
Yahweh (“assim diz o Senhor” [Jos 7:13; 24:2–13]).
Autoria, contexto histórico e
datação
✤O uso de expressões e mecanismos literários tais como a expressão “até este dia” (Jos
4:9; 5:9; 6:25; 7:26; 8:28–29; 9:27; 10:27; 13:13; 15:63; 16:10), bem como o relato da morte
de Josué em Jos 24:29–33 parecem indicar algum processo de escrita auxiliar e/ou
distinto da figura de Josué;
✤Tal realidade adiciona mais informação à complexidade do livro de Josué em termos
literários. Ela não é, contudo, única quando os livros históricos como um todo são
tomados em consideração, pois 1–2 Crônicas são pontuados de expressões similares.
Assim, ao invés de concluir que Josué não é o autor do livro que carrega seu nome, a
posição mais segura seria compreender a composição do mesmo como tendo sido
realizada por especialistas/escribas que deram suporte ao autor à luz de várias
outras instâncias em que o mesmo ocorre na BH.
✤Duas questões adicionais, contudo, ajudam a nuançar o caráter autoral do livro: as
datações do Êxodo e da conquista de Canaã; e a natureza da conquista.
A datação do Êxodo e da conquista
de Canaã
✤A informação de que Salomão começou a construir o templo cerca de 480 anos após o
Êxodo (1Rs 6:1) ajuda a fixar a data do Êxodo por volta da metade do 15o século BCE;
✤Outra informação cronológica importante é a fixação da data do ministério do juiz Jefté
por volta de 1100 BCE, o que teria acontecido cerca de um século antes da aparição da
monarquia em Israel. Tal conclusão é baseada no argumento de Jefté contra os Amonitas
de que Israel já estava na terra por 300 anos na ocasião do texto em questão. Se levada a
sério a afirmação de Jefté nos leva a concluir que a conquista da terra de Canaã começou
por volta de 1400 BCE, após os 40 anos de Israel no deserto;
✤Adicionalmente, de acordo com 1Cr 6:33–37, houve pelo menos 18 gerações entre Coré no
tempo do Êxodo e Heman, o músico da corte de Davi. Sendo o período médio de cada
geração de 25 anos, o número total entre estes homens seria de 480 anos entre o Êxodo e
Salomão, o que confirmaria a conquista da terra por volta do ano 1400 BCE;
✤Críticos desta cronologia apontam a falta de artefatos arqueológicos comprovando a data.
“A principal dificuldade em identificar níveis de destruição
com a invasão israelita, contudo, é o texto bíblico em si. A
prática militar de Israel e os relatos de suas conquistas dão
suporte à uma pintura bem diferente, à saber, aquela de
expulsar os habitantes de modo a preservar suas cidades
para o uso dos Israelitas (Deut 6:10–11; 19:1–2). As nações
deveriam ser expulsas e seus santuários destruídos (Êxo
23:23–30; Núm 33:50–56), mas não há menção à destruição de
cidades (Deut 20:10–20 além de Jericó, Ai, e Hazor (Jos 6:24;
8:28; 10:1; 11:13).”
—Longman III & Dillard, An Introduction to the
Old Testament, 124.
A Natureza da Conquista
✤O livro de Josué apresenta a conquista de Canaã como um esforço unificado do povo
sob o comando de um líder único. O todo da narrativa dá a impressão de um texto
aparentemente direto dos eventos históricos que ele reconta;
✤Contudo, o livro apresenta tensões narratológicas em relação à natureza da
conquista, ora descrevendo a mesma como uma total vitória decorrente de um
assalto unificado (11:23; 18:1; 21:43–44), ora como sendo fruto de um processo mais
longo de acordo com os esforços militares de tribos específicas (15:13–19, 63; 16:10;
17:11–13; 19:47; Jz 1);
✤Várias propostas tem sido feitas por estudiosos: 1) Rejeição total da historicidade de
Josué; 2) Um modelo de imigração pacífica; 3) um modelo de uma revolta local; 4)
modelo de colapso de Canaã; 5) Modelo de ciclos de assentamento nomádico; 6) o
texto estes fragmentado e incompleto; e 7) o livro de Josué representa as
complexidades próprias de um momento de transição em Israel.
Estrutura e Contexto
✤O livro se divide em quatro seções específicas: (1) uma introdução
com um a série de discursos (Jos 1:1–18); (2) uma coletânea histórica
relatando uma rápida e completa conquista da terra e seus reis (Jos
2:1–12:24); (3) relatórios e listas associados com a colonização
Israelita da terra (Jos 13:1–21:45); e (4) uma sequência de episódios
finais (Jos 22:1–24:33);
✤Um modelo alternativo de leitura da estrutura de Josué se relaciona
com verbos específicos indicando momentos de significância
teológica atrelados à história do livro: 1) “indo, passando” (‘abar—
1:1–5:12); 2) “tomando” (lâqah—5:13–12:24); 3) “dividindo” (halaq—
13:1–21:45); 4) “adorando” (‘abad—22:1–33).
Estrutura e Conteúdo:
Introdução e série de discursos iniciais (1:1–18)
✤O começo do livro contém discursos com informações temáticas
responsáveis por orientar o leitor em relação à continuidade do
projeto representado pelo livro e a história que os trouxe a este ponto;
✤O primeiro discurso (Jos 1:2–9) ajunta textos relevantes de
Deuteronômio (Jos 1:3–5//Deut 11:24–25; Jos 1:3–5//Deut 11:24–25);
✤A exortação de Josué para que o povo obedeça “este livro da lei” é
uma potencial referência à Deuteronômio e está ligada ao reuso de
frases e estruturas daquele livro nos próximos três discursos
introdutórios de Josué (Jos 1:10–11; 1:12–15; 1:16–18; cf. Deut 3:18–22).
Estrutura e Conteúdo:
A completa conquista da terra (Jos 2:1–12:24)
✤Esta seção contém três agrupamentos de material distintos: (1) histórias associadas com as grandes vitórias
em Jericó, Ai e Gibeão (Jos 2:1–24; 6:1–10:27); (2) um relato expansivo sobre a passagem do Jordão (Jos 3:1–
5:15); e (3) uma junção de diversos relatos de batalha relacionados à vitórias contra os reis do sul (Jos 10:28–
43), do norte (Jos 11:1–23) e de toda a terra (Jos 12:1–24);
✤As três primeiras campanhas militares ocupam a maioria do relato e parecem ser paradigmáticas para todas
as vitórias contra os povos da terra. Elas confirmam a promessa de libertação de Yahweh para libertar e
proteger Israel registrada em Deut 7:22–24;
✤Assim, cada campanha é acompanhada de uma ação miraculosa: (1) queda de muros (Jos 6:15–21); (2)
orientação divina específica (Jos 8:8–29); e (3) chuva de pedras (Jos 10:6–14). Igualmente, cada um dos eventos
é acompanhado de histórias paradigmáticas na forma como Deus lida com erros e acertos humanos em meio
aos eventos complexos da conquista: (1) a salvação de uma prostituta pagã (Jos 2:1–24; 6:22–25); (2) a rebelião
e punição de Acã e sua família (Jos 7:1–26); e (3) a aliança feita por engano com os Gibeonitas (Jos 9:1–27);
✤Cada uma das histórias adjacentes às conquistas em questão contém um enredo comum. Todas se movem da
ação de se esconder para a descoberta, esta geralmente protegida e/ou iniciada por Deus. Aparentemente, as
histórias são intencionalmente combinadas para levantar nuançar a perspectiva de identidade corporativa do
livro de Josué, para informar o leitor o que o Senhor espera de Seu povo durante a tomada da terra.
Estrutura e Conteúdo:
Relatórios e listas da conquista (Jos 13:1–21:45)
✤A terceira seção contém uma descrição de cidades pertencentes a tribos
específicas, bem como narrativas distintivas ilustrando o processo de conquista
dos territórios individuais destas tribos;
✤A seção começa com a informação de que Josué já era de idade avançada,
sinalizando, portanto, a mudança da conquista para a ocupação da terra que a
narrativa vai desenvolver (Jos 13:8–33);
✤O padrão de apresentação das partes respectivas de cada tribo utiliza as frases
“Moisés deu a herança para …” e “esta é a herança de …”.
✤A seção conectada com Judá é expressivamente mais elaborada e particularmente
coerente, dentro da qual a narrativa de Calebe é inserida (Jos 14:6–15; 15:13–19),
demonstrando a conexão direta entre fé e sucesso na teologia do livro.
Estrutura e Conteúdo:
Episódios Finais (Jos 22:1–24:33)
✤Embora a seção anterior pudesse ser tomada como um bom final para o livro, a narrativa
continua demonstrando que alguns problemas específicos do povo precisavam ser abordados.
Portanto, “alguns finais” são propostos pelo livro;
✤O primeiro final ocorre quando Josué libera as tribos de Gade, Rubem, e Manassés e as
cumprimenta por sua fidelidade (Jos 22:1–9). O episódio indica a impendente mudança no
domínio da terra, pois as tribos só poderiam ir para sua terra após o final da conquista (cf. Jos
1:12–18). Contudo, Jos 22:10–34 antecipa as tensões entre as tribos que irão permear as
histórias de Juízes;
✤O segundo final ocorre diante da informação de que Yahweh deu descanso para Israel de seus
inimigos e de que Josué é já avançado em idade (Jos 23:1–3). Josué então tece um discurso
recheado de promessas e indicações de perigo, instando o povo à obedecer (Jos 23:1–28);
✤O terceiro final descreve o fim de Josué, Eleazar e o enterro dos ossos de José em Siquém (Jos
24:29–32).
Mensagem Teológica: Guerra Santa
✤Deuteronômio descreve os princípios da guerra santa sob os
quais Israel deveria guerrear (Deut 7:1–26; 20:1–20; 21:10–14;
25:17–19). O livro de Josué ilustra estes princípios de guerra
santa nos episódios das conquistas de Jericó e Ai (Jos 2; 6; 8;
10; 11) e a falha em seguir estes princípios no ataque inicial
contra Ai e no tratado com os Gibeonitas (Jos 7, 9);
✤A falha em guardar os mandamentos de Deus resulta em
derrota e em julgamento divino contra Acã e sua família (Jos
7//Deut 7:25–26);
Mensagem Teológica: A Terra
✤Deuteronômio ocorre nas bordas da terra prometida,
sendo o testamento e instruções de Moisés para a
tomada da terra (Deut 1:8; 6:10, 18; 7:8). Para o autor do
livro, os capítulos dedicados à distribuição da terra (Jos
13–22) são equivalentes à um hino de louvor a Deus por
conceder a Israel aquilo que prometera. Esta divisão
representa o começo do cumprimento da promessa à
Abraão sobre a concessão de terra. Assim, o desterro
dos Cananitas está inserido no contexto da ordenação
divina da organização territorial entre os homens.
Mensagem Teológica: A Unidade de
Israel
✤O uso de uma expressão particular nos livros de Deuteronômio e
Josué compõe a forte ênfase destes na importância teológica da
unidade de Israel durante a conquista da terra. Assim, a expressão
“todo Israel” interessantemente expressa a união tribal como
fundamental para que o projeto de instalação da promessa divina
entre os homens ocorresse (Deut 5:1, 3; 11:6; 29:10; Jos 3:7, 17; 4:14;
7:23–24; 24:1);
✤Assim, embora a distinção tribal de Israel era fortemente indicativa
de realidades sociais distintivas, a necessidade de coesão identitária
era uma das mais importantes características a serem enfatizadas
durante a conquista da terra.
Mensagem Teológica: A Aliança
✤O livro de Josué está comprometido em demonstrar a vida sob os estatutos do “livro
da lei” (1:8–9). Ele dá ênfase na autoridade da lei de Moisés na história nacional
ilustrando pontos específicos com exemplos em que a lei foi paradigmática (Jos 1:13;
4:10; 8:30–35; 9:24). Assim, Josué lidera o povo em um processo de renovação da
aliança nos montes Gerizim e Ebal (Jos 8) de acordo com a ordem específica de
Moisés (Deut 27:1–8);
✤Mesmo quando os mandamentos de Moisés não são mencionados, eles estão
cuidadosamente conectados com a narrativa do livro. Assim, o episódio com os
Gibeonitas segue diretamente as estipulações de Deut 20:10–11, os corpos de três reis
conquistados são retirados das árvores (Jos 10:27//Deut 21:23), Acã é punido de
acordo com Deut 13 (Jos7:25), as bênçãos e maldições da Aliança são invocadas sobre
o povo (Jos 23:14–16//Deut 28), e a certeza de rebelião que marcou o ministério de
Moisés assim se faz presente na vida de Josué (Jos 24:19–20//Deut 31:15–29).
Exemplo
Exegético
Jos 5:13–15
Delimitação de Perícope: Jos 5:13–
15
✤Uma observação detida da estrutura das narrativas prévias e imediatamente posteriores à Jos 5:13–
15 indicam que o texto está situado entre duas grandes procissões da Arca da Aliança de Deus. A
primeira procissão está relacionada com o a passagem pelo rio Jordão em Jos 3:1–5:12;
✤Uma segunda observação é relativa à mudança brusca de localidade na trama narratológica. Jos
5:10–12 ocorre em Gilgal, próximo dos montes Ebal e Gerizim. Já Jos 5:13–15 ocorre em Jericó.
Igualmente, o foco da narrativa muda do povo na seção anterior para Josué em 5:13–15;
✤De maneira mais específica o início da perícope é relativamente certo, com o emprego da estrutura
advérbio-temporal “ת?֣יְהִֽG, quando aconteceu, quando ocorreu, ao ocorrer, no transcorrer” em 5:13;
✤O fim da perícope, contudo, é debatível, pois a narrativa continua descrevendo os eventos
relacionados com Jericó. Duas são as alternativas: (1) a perícope imediata termina com a frase “Lַעַ֥Nַו
ןֵֽJ ַעֻ֖'?הְי, e Josué assim o fez“ em 5:15, aparentemente indicando uma espécie de cessação na
interação de Josué com o anjo; e (2) a perícope imediata transcorre até 6:5, verso que representa as
instruções divinas dadas diretamente a Josué e possivelmente relacionadas com o encontro com o
Anjo do Senhor nos versos anteriores.
Delimitação de Perícope: Jos 5:13–
15
✤A presente análise toma a primeira alternativa como a mais
plausível, embora a ausência de claros marcadores textuais
entre 5:15 e 6:1 indicando descontinuidade parece sugerir que
o discurso em 6:1–5 é proferido pelo Anjo do Senhor, agora
identificado diretamente com Yahweh em 6:1–5;
✤Assim, a perícope imediata a ser definida é Jos 5:13–15. Este
trecho, contudo, está inserido no contexto maior da tomada de
Jericó, que claramente se encerra em 6:27, com a forte ênfase
na completude da destruição de Jericó: “Então o Senhor
estava com Josué, e sua fama se espalhava por toda a terra.”
Questões de Introdução
✤As questões de introduções gerais são aquelas tratadas acima na
introdução geral ao livro. Portanto, a entrada da terra ocorre por volta
do ano 1400 BCE e os elementos arqueológicos da entrada na terra são
fragmentários;
✤Os principais personagens específicos da história são Josué, e o
príncipe do exército de YHWH. No âmbito mais geral, o povo de
Israel, em específico a classe sacerdotal, estão envolvidos na conquista
ativamente;
✤Topograficamente, a identificação da cidade de Jericó e dos montes
Ebal e Gerizim auxilia na compreensão do hiato geográfico entre 5:12 e
5:13;
Contexto Literário
✤Como visto na delimitação da perícope, a epifania de Jos 5:13–15 liga duas
grandes procissões da arca da aliança, estando, portanto, ligada com a idéia de
que Yahweh acaba de adentrar a terra prometida juntamente com Seu povo;
✤Sequencialmente, entretanto, a perícope segue a purificação ritual do povo de
Israel para a entrada na terra prometida. Em Jos 5:1–9 o povo é todo
circuncidado, em Jos 5:10–11 a primeira páscoa celebrada na terra prometida
ocorre, e em Jos 5:12 o maná para de cair para Israel;
✤O contexto literário da perícope em questão fortemente sugere um ambiente
sacerdotal para os eventos ali relatados. Assim, o povo passa por uma
consagração ritual ao mesmo tempo que deixa o tempo provisório do deserto
para trás. É nesta precisa hora que o príncipe do exército do Senhor aparece
para dar início à próxima fase da história do povo de Deus.
Estrutura Literária
✤Teofania e Instrução para a guerra santa (5:13–6:5)
✤A. Encontro com o guerreiro divino (5:13–14a)
✤(1) Discurso de Josué [questão] (5:13b)
✤(2) Discurso do Príncipe [afirmação] (5:14a)
✤B. Jericó e o lugar santo (5:14b–15)
✤(1) Discurso de Josué [questão] (5:14b)
✤(2) Discurso do Príncipe [afirmação] (5:15)
✤C. Instrução para guerra santa (6:1–5)
Gênero Literário
✤O gênero literário geral é o de “Narrativa Histórica.” O gênero
apresenta características específicas de um texto composto por
diversas vozes. Assim, o autor entremeia as vozes do príncipe, de
Josué e do narrador;
✤Como gênero bem definido na BH, a narrativa histórica se utiliza
de uma linha teológica central para organizar discursos e fatos
históricos, dando a estes uma orientação seletivamente específica.
No caso da passagem em questão, o texto aponta para a natureza
paradigmática da teofania na vida de Josué, clarificando as
intenções sacerdotais de Deus na conquista de Canaã.
Análise Semântico-Sintático-
Gramatical
✤5:13 - “espada desembainhada” = O ato de desembainhar a espada era declaradamente um
convite à batalha (cf. 1 Sam 9:54; 2 Sam 24:9). Esta é a segunda menção à uma espada no livro
de Josué. Na, primeira vez, o termo é utilizado para se referir à facas de pedra utilizadas para
circumcisão (Jos 5:2–3). A troca de referencialidade da palavra pode indicar uma mudança
intencional da vida tribal e nômade para a colonização da terra (Jos 6:21; 8:24; 10:28, 30, 32, 35,
37, 39; 11:10, 11, 12, 14). A imagem do verso é de uma espécie de espelho. Josué está olhando
para um outro guerreiro como ele mesmo. Portanto, sua pergunta segue padrões terrenos e
obedece à uma referencialidade própria dos mesmos;
✤5:14 - “Não!” = A resposta do Anjo à pergunta de Josué é intrigante. A utilização da partícula
“não” parece indicar que o ser divino não responde a pergunta de seu interlocutor humano.
Em realidade, ele nega a pergunta como um todo e o pressuposto de divisão binária de seres
humanos entre amigos ou inimigos. Em outras palavras, “eu não me encaixo nas categorias de
raciocínio binárias suas. Eu sou o Anjo do Senhor.” A resposta do Anjo introduz um novo
elemento na conversa, indicando que a guerra a ser travada não tem caráter humano e não se
trata de uma briga entre amigos e inimigos. A guerra é santa e, portanto, recebe a visita do
Céu;
Análise Semântico-Sintático-
Gramatical
✤5:14a = Ademais, a negativa angelical do verso inversamente se conecta com a
pergunta do verso anterior indicando o propósito mais profundo da teofania,
iluminar a visão de mundo do interlocutor humano através da revelação de
aspectos não compreensíveis através dos sentidos;
✤5:14a - הָ֖והְי־אָֽבְצ־רַL = O uso da expressão “príncipe do exército de Yahweh é
significativa, pois aparentemente alude à outras manifestações teofânicas na
BH em que o Mensageiro do Senhor aparece (Êx 3:1; Núm 22:31; Jz 6:11–12).
Contudo, a expressão “príncipe do exército” é utilizada na BH para indicar
generais e oficiais militares (Gen 21:22–23; Jz 4:7; 1 Sam 17:55; 2 Sam 10:6; 1 Rs
11:15). A utilização do termo em Daniel segue de perto a idéia de que tal
terminologia pode ser empregada em contextos em que a referida guerra
ocupa dimensões maiores/espirituais na trama da BH (Dan 8:11; 10:21; 12:1).
Análise Semântico-Sintático-
Gramatical
✤5:14b - Adoração = O ato de adoração de Josué é uma iniciativa posteriormente vindicada na
narrativa através da expressão “lugar santo,” geralmente utilizada para se referir ao santuário (Êx
29:31; Lev 6:9; Ezek 42:13);
✤5:15 - A resposta do enviado celestial se remete ao chamado de Moisés em Êx 3:5. A possível
identificação do local santo em questão, contudo, é assunto de grande debate entre estudiosos.
Algumas são as possibilidades: (1) santa é toda a terra de Israel; (2) santo é o lugar específico
onde Josué está diante do príncipe celestial; (3) Jericó é santa aos olhos de Deus; e (4) o significado
da passagem não está atrelado à um local específico, mas à experiência de Josué.
✤A presente análise considera que o texto é organizado de maneira ambígua ao citar Êx 3:5
enquanto reorganizando a terminologia específica ali encontrada para comunicar um significado
polissêmico. Assim, Josué recebe uma visita de um mensageiro divino para inaugurar seu
ministério nos moldes da experiência mosaica. Contudo, assim como Moisés, sua obra tem
contornos sacerdotais, pois a santidade do local aonde o príncipe pisa indica que as ações que se
sucedem tem dimensões sacrificais. A arca contornará a cidade, demonstrando que o Senhor dos
exércitos inicia sua obra de expiação da maldade da terra na qual seu povo agora começa a entrar.
Teologia e Mensagem
✤O encontro do Mensageiro celestial com Josué e a conversa que se segue
enfatizam a necessidade de entrega completa no serviço do Senhor. Embora
Josué corretamente tivesse implementado uma reforma ritual no texto
antecedente, Jos 5:13–15 claramente indica que sua visão de mundo binária de
mundo não podia ser projetada sobre o céu. “Não,” começou a falar o
príncipe do exército divino, o céu não se encaixa em nossas categorias
humanas, por isso entrega e comunhão são imprescindíveis;
✤Somente a partir de tal perspectiva renovada da realidade as ações de
conquista territoriais podem ser aceitas por Deus. Como as demais narrativas
mais à frente irão demonstrar, o povo ainda terá de aprender isso a duras
penas. A vida, as ações que a compõem e aqueles que lhes dão origem se
encontram em uma existência sacrifical na figura de Josué aos pés do príncipe
do exército do Senhor.