abria o guarda-roupa da menina, acariciava rapidamente os vestidos com suas
mãos ossudas e longas, tocava de leve na escova de cabelo e no pente, que
estavam sobre o mármore do penteador, olhava em torno, via a cama, a
boneca, um triste par de sapatos brancos da menina, que haviam ficado
esquecidos a um canto — e depois saía na ponta dos pés...
Aderbal e a mulher vinham ao Sobrado quase todas as noites. Laurentina
não afastava da filha o olhar tristonho; não falava mas dizia tudo por meio de
fundos suspiros. Ninguém pronunciava o nome da morta, nem fazia a ela a
menor referência. Discutiam o tempo, a safra, a situação política do país...
Babalo escondia sua dor por trás da cortina de fumaça do cigarro. Andava
sensibilizado com a atitude de Rodrigo, que passou a evitá-lo desde o dia da
morte da criança. O genro não queria deixar-se consolar, obstinava-se em não
sentar-se à mesa com o resto da família, à hora das refeições. Comia no
quarto, em horário incerto, e sempre que os amigos, mesmo os mais íntimos,
queriam vê-lo, dava um pretexto qualquer e recusava-se. E, quando os
Carbone visitavam o Sobrado, a situação piorava, pois tanto Santuzza como
Carlo começavam a chorar no momento em que batiam à porta.
O retraimento agressivo de Rodrigo durou boa parte daquele março
mormacento, em cujas tardes de ar parado as cigarras cantavam nas árvores
do quintal e as moscas zumbiam e esvoaçavam nas salas do casarão.
Em muitas daquelas tardes ele entrava no Ford, mandava Bento tocar para
o cemitério e lá ficava horas inteiras, dentro do jazigo da família, ao lado da
sepultura da filha, conversando com ela, baixinho, numa esquisita e triste
felicidade.
Naquelas noites quentes e abafadas, custava-lhe dormir. Revolvia-se no
leito e, quando via que era inútil continuar na tentativa de capturar o sono,
erguia-se, debruçava-se na janela, acendia um cigarro e ficava a olhar para as
árvores da praça e para as estrelas. Não raro saía pelo corredor, como um
fantasma, entrava no quarto da filha, deitava-se na cama e punha-se a chorar
um choro manso e lento, já sem desespero. E muitas vezes era ali que o sono
vinha surpreendê-lo. As piores noites, porém, eram aquelas em que
despertava de repente, com impressão de que alguém lhe havia tocado no
ombro, e então lhe vinha a ideia de que Alicinha àquela hora estava sozinha,
fechada na sepultura. Abandonada, no escuro, com medo, coitadinha!
Certa madrugada despertou com a impressão nítida e perturbadora de que
alguém batia no piano lá embaixo... Alicinha — pensou. Sim, tinha ouvido
alguns compassos de “Le Lac de Como”, a peça preferida da menina. Mas
não! Devia ter sido um sonho. Sentou-se na cama, e ficou um instante com as
mãos na cabeça, ouvindo, atento. O casarão estava agora silencioso. “Tenho