Guarda-chuva, mais que depressa, se amarrou nele com a correntinha, e ficou toda
empinada, pronta pra entrar em ação. Ele voou pra cima de uma pedra, se jogou no ar, e
começou a dar uma de passarinho, batendo as asas com força pra tomar impulso e subir.
E
subir mais e mais. Quando viu que já estava no alto, ficou tão feliz que caiu na gargalhada.
Ria pra chuchu. Não tinha nem mais força pra bater asa. Começou a perder altura, se
apavorou. Quando eu vi que ele vinha caindo, me apavorei também. E aí (coisa mais
gostosa!) a Guarda-chuva abriu.
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Foi só a Guarda-chuva abrir que o Afonso parou de cair.
Eles vieram descendo bem devagar; parecia até um desenho parado no ar - ela bonita
daquele jeito, ele com o rabo ainda mais despenteado por causa do vento que ia batendo
nas
penas - um desenho bonito mesmo da gente olhar.
O vento levou eles pra lá, eu corri. Mas quando cheguei lá, o vento levou eles pra cá, eu
corri de volta, e aí a gente se encontrou: eles tavam caindo de levinho na areia.
A Guarda-chuva estava tão feliz que nem levantou: ficou com preguiça de tudo. Mas o
Afonso cantou, virou cambalhota, inventou passo de dança, o tempo todo falando:
- Agora sim posso sair pelo mundo, voando bem alto sem perigo de me esborrachar.
Agora
sim posso lutar pela minha idéia. Agora sim vai ser legal. - E de cambalhota em
cambalhota
chegou perto do mar. Veio uma onda e, puf! pegou o Afonso. Ele levou um trambolhão,
quis
levantar, a onda não deixou, ele sumiu.
- Afonso, Afonso!
Veio outra onda. E ficou vindo uma onda atrás da outra, mas nenhuma trazia o Afonso de
volta. Olhei pra areia: a Guarda-chuva nem tinha visto nada, tava até dormindo. Gritei
pelo
Afonso de novo. Mas ele não aparecia. Então entrei no mar de uniforme, sapato, bolsa
amarela e tudo. Furei uma onda, mergulhei fundo, e aí só não fiquei de boca aberta senão
ia
engolir muita água: o folgado do Afonso estava lá na maior calma, batendo papo com uma
porção de peixes, contando a história do Terrível, dizendo que se alguém quisesse
costurar o
pensamento deles, eles não deviam deixar e patatipatatá. Quando me viu disse logo:
- Raquel, imagina que nenhum desses peixes tem nome. Eles chamam os amigos de Ei!
Psiu! Cara!
De repente, pela primeira vez na minha vida, achei Raquel um nome legal; achei que não
precisava de outro nome nenhum. Abri a bolsa, tirei tudo quanto é nome que eu guardava
no
bolso sanfona e dei pro Afonso. Ele foi distribuindo pros peixes: