época, sensível, amorosa, frágil. Não tem outras possibilidades na vida senão
escolher entre amar e morrer, pois não sabe fazer mais nada. Simão é já uma
personagem mais prosaica e, por isso, bastante mais humana. Loucamente
apaixonado a princípio, o tempo que passou na cadeia arrefeceu-lhe o
entusiasmo amoroso. Quando lhe deram a escolher entre dez anos de prisão em
Vila Real, onde poderia ser visitado por Teresa, e o degredo ao ar livre na índia,
embora sem oportunidades de a ver, não hesitou: preferiu o ar livre longínquo à
reclusão junto da amada (cfr. caps. 18 e 19).
Mariana é uma personagem diferente, rara. Determina-se no decorrer da obra
para direcções talvez não previstas pelo autor, dedicando-se a um homem que
sabia muito bem estar louco por outra, num amor-vassalagem aparentemente
assexuado. Espécie de confidente e moderadora de impulsos passionais da
fábula trágica que em Amor de Perdição se vislumbra, dá-se ares de mulher-
forte. Dona de casa muito cedo, Mariana começou por ser para Simão uma
espécie de mãe, deslizando logo para a situação de companheira amorosa,
esperando contra toda a esperança unir-se ao infeliz moço que um dia lhe
apareceu ferido em casa (cfr. cap. 18).
Albuquerque e Botelho são caracteres comuns da pequena fidalguia
provinciana, dominados pela raiva e desejo de vingança. João da Cruz é um tipo
bem urdido, espécie de bandido bom, disposto a tudo em prol dos amigos, mas
sem escrúpulos nem remorsos perante o crime útil.
c) O espaço e o tempo.
Na parte introdutória da acção, o espaço dispersa-se por Vila Real, Lisboa,
Cascais, Vila Real outra vez, Lamego, Coimbra e Viseu. Depois começa a
reduzir-se aos arredores de uma cidade provinciana (Viseu), para ir ficando
cada vez mais coarctado: celas do convento e da prisão, beliche de um barco.
Com o tempo sucede quase o mesmo. Sempre cronológico e contínuo, é a
princípio vertiginoso, abarcando quatro décadas em poucas páginas, para se ir
retardando depois cada vez mais na intriga propriamente dita, que abrange três
anos. O ritmo narrativo rápido do capítulo primeiro passa logo a lento até quase
atingir a intemporalidade no fim da obra, projectando-se no pensamento dos
amorosos para além da morte.
d) Ponto de vista do narrador.
O subtítulo da obra — Memórias de uma Família — parece sugerir-nos que
Camilo pretendia, talvez em novelas sucessivas, fazer toda a história dos
Botelhos. A intriga assenta em factos reais: Simão Botelho existiu na realidade e
foi preso (mas por ter ferido um criado de José Cardoso Cerqueira); foi julgado e
o pai intercedeu por ele e foi condenado a degredo para a índia (mas não morreu
na viagem — chegou lá em 7-11-1807); teve um irmão chamado Manuel que
desertou e foi encoberto pelo pai. Todavia como se vê, os factos reais foram
totalmente adulterados na novela. Algumas personagens são pura invenção.
O autor narra na terceira pessoa e, uma vezes, é omnisciente come se estivesse
dentro das personagens e no meio dos acontecimentos; outras vezes, porém,