Emma Jung - anima e animus psicologia analitica

HellenReisMouro 53 views 56 slides Feb 07, 2024
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About This Presentation

Anima e Animus


Slide Content

Ediçllo
Títulodooriginal:
AnimusundAnima
Copyright©1967byRascher &Cie.AG,Zurique.
oprimeironúmero 6.esquerdaindicaaediçlo,oureediçlo,destaobra.Aprimeira
dezena6.direitaindicaoanoemqueestaediçlo.oureediçlofoipublicada.
Ano
Sumário
hernCID 7
Umacontribuiçãoaoproblemadoanimus 11
Introdução :13
1.Formasdemanifestaçãodoanimus 16
2.Arepresentaçãodoanimusatravésdasimagensdoincons-
ciente 40
Aanimacomosernatural 55
4-5-6-7-8-9-10-11-12-13
05-06-07-08-09-10-11
DireitosdetraduçlloparaalInguaportuguesa
adquiridoscomexclusividadepela
EDITORAPENSAMENTO-CULTRIX LTDA.
RuaDr.MárioVicente,368-04270-000-SiloPaulo,SP
Fone:6166-9000-Fax:6166-9008
E-mail:[email protected]
http://www.pensamento-cultrix.com.br
quesereservaapropriedadeliteráriadestatraduçllo.
Impressoemnossasoficinasgráficas.

DeniseG.Ramos
7
PrefácioàEdiçãoBrasileira
Olhosbrilhantes,expressãosorridente,firmeedecidida,
assimapareceEmmaJungnumafototiradaem1911,durante
oCongressodePsicanálisedeWeimar.1EntreSigmundFreud,
OttoRank,LudwigBinswanger,ErnestJones,WilhelmStekel,
LouAndreas-SaloméeomaridoCarlGustavJung,eoutros
mais,Emmadestaca-secomomulherculta,inteligentee
bem-humorada.Anfitriãdegrandesencontrosentremestres
epesquisadoresdepsicanálise,étidacomoresponsávelpelo
climaacolhedoreharmoniosodeinúmerosseminários'edeba­
tes,compensandootemperamentomaisexplosivoeextro­
vertidodomarido.
Mãedecincofilhos,aomesmotempoqueestudavalatim,
grego,matemáticaepsicologia,tornou-seumadasdiretoras
doc.G.JungInstitutedeZürich,ondedavapalestraseexercia
seutrabalhodeanalistaesupervisora.2Seaquestãodeconciliar
trabalhoefamíliaéaindabastanteproblemáticaparaamulher
dehoje,podemosimaginarquãodifícileraparaumamulherdo
iníciodoséculo,numpaísconservador,numaépocaondes6
oshomensvotavam.
EmsuascartasparaFreud,Emmadeixaclarocomose
sentiadiminuídafrenteaopoderdomaridoeressentia-sede
umcertoisolamento.Queixava-sedaspaixõesdasmulheres
porJung,dotratamentomaternalqueoshomenslhedispen­
savam,assimcomodofatodeservistasomentecomomulher
oualunadomestre-pai.3

Naslutasparaserconhecidaporsimesma,doistemas
parecematraí-Iamais:omistériodoSantoGraaleaquestão
dofemininonohomemedomasculinonamulher.Osdois
assuntostransformaram-seemlivro.Oprimeiroresultounovo­
lumeDieGraalslegendeinPsychologischerSicht[Alendado
Graaldopontodevistapsicológico],'"obraque,devidoàsua
morteem1955,foiterminadaporM.-LouisevonFranz;ose­
gundo,Animuseanima,sóagorapublicadoemportuguês,re­
sultoudajunçãodedoistrabalhosseus:EinBeitragzumPro­
blemdesAnimus[UmacontribuiçãOaoproblemadoanimus],
palestrafeitaem1931,eDieAnimaaisNaturwesen[Anima
comosernatural],publicadooriginalmenteem1955.
Parecequenuncaestiveramtãoconfusosquantoagoraos
padrõesculturaismasculinosefemininos,masaclarezaeobje~
tividadecomqueaautoradescrevecentenasdeimagenscomas
quaisserevestemosgênerosdaespéciehumanasãodeinesti­
mávelvalornoprocessodetransformaçãopeloqualahuma­
nidadepassahoje.
Atravessamosumacriseaguda,comumquestionamento
crescentesobreoqueéserhomemeoque
ésermulher,sobre
desempenhodepapéisefunçãosocial.Tabuselimitessãodia­
riamenterompidosporalgunssegmentosdasociedade,enquan­
tooutrosseaferramapadrõesmedievais.Nestecrescimento
acelerado,toma-seimprescindívelquenosreportemosàsnos­
sasraízesafimdemantermosoeixodaconsciênciacoma
natureza.
Semseperdernamultiplicidadedasformasedoconteúdo,
Emmaextraiaessênciadosmitos,lendasecontosdefadasda
Antiguidadeatéaeramoderna.Emborapertençampredomi­
nantemente
àculturaeuropéia,ashistóriasesímbolosporela
utilizadospodemcomfacilidadeencontrarparalelonamito­
logiabrasileira.
Aclassificaçãodoanimusemquatroestágiostomou-se
ummodeloadotadopelapsicologiaanalítica,porpermitircom­
preendertantoasdefasagensentreodesenvolvimentointe-
(*)EditoraPensamento,SãoPaulo,1989.
8
lectualeafetivocomopreverasetapasdecrescimentodaper­
sonalidade.Bastanteatual,também,ésuaênfaseemabordara
animacomoumserdanatureza,atitudequevemaoencontro
dosmaisrecentesmovimentosecológicosenaturalistas.Oho­
memconscientedesuaanimamantémumvínculoderespeito
eamorparacomaterra.
Finalmente,Emmademonstraquesomenteaconscienti­
zaçãodenossasprojeçõespodeliberarooutrodenossopró­
prioinconscienteesombra,permitindoumarelaçãoplena,har­
moniosaesaudávelcomomundoeconoscomesmos.
SãoPaulo,7demarçode1990.
Referênciasbibliográficas
1.McGuire,William(org.)-
TheFreud/JungLetters. Princeton
UniversityPress,Princeton,1974,p.445.
2.vanderPost,Laurens-
Jungandstoryofourtime. Penguin
Books.Londres,1988.
3.McGuire,William(org.).op.citop.457.
9

UMACONTRIBUIÇÃO AOPROBLEMA DOANIMUS
ConferênciafeitanoClubedosPsicólogosdeZurique,emnovembrode1931.
PublicadaemWirklichkeitderSeele[ARealidadedaAlma]deC.G.Jung.Aplicações
eprogressodanovaPsicologia[EnsaiosPsicológicosIV]'Rascher,Zurique1934.No­
vasediçõesem1939e1947.

-
Introdução
Na
concepção
natural
primitiva
a
alma
não
é
bem
u:
unidade,
e
sim
um
complexo
múltiplo
indeterminado.
E~
fato
expressa-se
nas
representações,
encontradas
entre
t
dos
os
povos,
de
espíritos
ou
almas
que
habitam
as
pessOG
seja
por
terem
se
introduzido
antes
ou
durante
o
nascimel
to
ou
por
terem
se
apoderado
do
indivíduo
em
alguftla
01.
tra
ocasião
posterior
para
nele
exibir
sua
atividade.
As
V{
zes
eles
são
considerados
espíritos
dos
antepassados
ou
d;
tribo,
outras,
como
os
assim
chamados
espíritos
da
mata:
que
embora
pertençam
a
determinada
pessoa,
são
pensados
como
habitando
animais.
1
Em
nossas
crenças
populares,
em
mitos
e
contos
de
fadas,
os
gigantes
e
anões
bons
e
maus,
fadas
e
magos,
e
freqüentemente
também
os
espíritos
dos
mortos
e
às
vezes
de
animais
têm
um
significado
semelhante.
Estas
representações
originam-se
na
experiência
dire­
ta
conhecida
de
cada
um
de
que
às
vezes
somos
tomados
por
estados
e
emoções
que
despertam
em
nós
impulsos,
senti­
mentos,
pensamentos
e
imagens
que
nos
parecem
totalmen­
te
estranhos.
Freqüentemente,
tais
emoções
são
diametral­
mente
opostas
aos
nossos
pontos
de
vista
ou
intenções,
de
tal
forma
que
dão
a
impressão
de
se
tratar
de
manifestações
de
um
ser
com
existência
própria,
diferente
de
nós.
Quando
Paulo
diz:
"O
bem
que
eu
quero,
este
eu
não
faço,
mas
o
mal
que
eu
não
quero,
este
eu
faço"
,2
est:l
l>V
pressando
a
mesma
experiência.
011
"l>;~
, ou seja, aquela que €s vezes

nosfaznotaremnósumavontadeestranha,quefazocon­
tráriodaquiloquenósqueremosouaprovamos.Nãoéne­
cessariamenteomaloquefazessaoutravontade,poisela
podequereromelhor,sendosentidaentãocomoumsersu­
periordirigenteouinspirador,comoespíritoprotetorou
gênionosentidodoDaimonionsocrático.Freqüentemente
tambémnãosetratadealgobomoumau,massimplesmen­
tedeumOutrodiferente,quesurpreendentementefazse
valerporsimesmo,comvontadeeopiniãopróprias,dando
aimpressãodequeseestátomadooupossuídoporespíri­
tosestranhos.
Aexperiênciadiretaquetambéméconcedidaatodos,
representadapelaatividadedosonhoedafantasia,éuma
outrafontedessasrepresentações.
Depoisqueoracionalismocientíficoesqueceuosigni­
ficadodessascoisaseaconsciênciadoeuseapossoudato­
talidadedapsique,novamentevolta-searequererdapsico­
logiamédicamodernaconcepçõesquetêmumparentesco
surpreendentecomasconcepçõesprimitivasmencionadas
acima.Naverdade,teve-sequeassumirqueoeuconsciente
éapenasumaspectodapsique;poiscertasaparições,espe­
cialmentenavidaanímicaanormal,praticamentenãopodem
seresclarecidasdeoutramaneiraquenãosejaaexistência
deregiõesdaalmaexternasàconsciênciadoeu,equenão
apenasossonhos,masmuitasoutrasapariçõesesintomas
devemseratribuídosaosconteúdoseatividadesaíexisten­
tes.Essasáreasdaalmaexternasàconsciênciasãoreunidas
sobadenominaçãode"Inconsciente".Pesquisadorescomo
Janet,Flournoy,Breuer,Freudeoutrosapresentarampro­
vasdaexistênciadesseinconscientepsíquico.
Mesmoaconstataçãodequeháuminconscientenão
basta,poisesseconceitoexpressa,antesdemaisnada,só
algoindeterminadoenegativo.Porissoopróximopassofoi
pesquisardequemodoesseinconscientefoicriadoeoque
continha.
OstrabalhosdeC.G.Jungtratamdeformaespecial­
menteaprofundadadapesquisadaestruturadoinconsciente
14
edeseusconteúdos.Enquantoateoriafreudianavêoincons­
cienteunicamentecomoumdepósitoparatudoaquiloque
àpersonalidadeconscientepareceincômodoouindesejável,
ouaindainútil,Jungdiferenciauminconscientepessoalde
umimpessoaloucoletivo.Oinconscientepessoalcontém
"todasasaquisiçõesdaexistênciapessoaL..,tudoaquilo,
portanto,quefoiesquecido,reprimido,epercebido,pen­
sadoesentidosubliminarmente.Aoladodessesconteúdos
inconscientespessoaishá,todavia,outrosconteúdosquenão
seoriginamdeconteúdospessoais,esimtotalmentedaspos­
sibilidadesherdadasdofuncionamentopsíquico,ouseja,
daestruturacerebralherdada.Estessãooscontextosmito­
lógicos,osmotivoseimagensquepodemsurgirnovamente
aqualquermomentoeemtodapartesemtradiçãohistóri­
caoumigração".3
Oprosseguimentodapesquisaresultouemqueésobre­
tudoumcertonúmerodeimagensoufigurastípicasqueemer­
gemcomfreqüênciaeportodaparte,comoporexemplo
asfigurasdoherói,domonstro,domago,dabruxa,dopai,
damãe,dovelhosábio,dacriançaetc.,etc.Jungchamaessas
figurasde"imagensprimordiaisouarquétipos",
4poiselas
representamformasquesetornaramidéiasbemuniversais
eatemporais.
Dentreessesarquétiposhásobretudodoisinvestidos
degrandesignificado,pois,pertencendoporumladoàper­
sonalidade,eporoutroestandoenraizadosnoinconsciente
coletivo,elesconstroemumaespéciedeelodeligaçãoou
ponteentreopessoaleoimpessoal,bemcomoentreocons­
cienteeoinconsciente.Estasduasfiguras-umaémascu­
lina,aoutrafeminina-foramdenominadasde
animuse
animaporJung.sEleentendeaíumcomplexofuncional
quesecomportadeformacompensatóriaemrelação
àper­
sonalidadeexterna,decertomodoumapersonalidadein­
ternaqueapresentaaquelaspropriedadesquefaltamàper­
sonalidadeexterna,conscienteemanifesta.Sãocaracterís­
ticasfemininasnohomememasculinasnamulherquenor­
malmenteestãosemprepresentesemdeterminadamedida,
15

masquesãoincômodasparaaadaptaçãoexternaouparao
idealexistente,nãoencontrandoespaçoalgumnoservoltado
paraoexterior.
Ocaráterdessasduasfigurasnãoé,entretanto,deter­
minadoapenaspelarespectivaestruturaçãonosexoopos­
to,sendocondicionadoaindapelas'experiênciasquecada
umtrazemsidotratocomindivíduosdosexoopostono
decursodesuavidaeatravésdaimagemcoletivaqueoho­
memtemdamulhereamulherdohomem.Estestrêsfato­
rescondensam-senumagrandezaquenãoéapenasimagem
nemsomenteexperiência,esimmuitomaisumaespéciede
essênciacujaaçãosedirigenãoàsdemaisfunçõesanímicas,
masquesecomportaativamenteequeintervémnavidain­
dividualmaisoumenoscomoumestranho,àsvezespresta­
tivo,masàsvezestambémincômodoeatémesmodestru­
tivo.Tem-seportantotodososmotivosparaselidarcom
estagrandezaeesclarecersuamaneiradeatuação.
Seeuaseguirrepresentoafiguradoanimusesuasfor­
masdemanifestaçãocomosefossemrealidades,devocha­
maraatençãodoleitorparaofatodequeestamostratan­
doderealidadespsíquicas,6quesãoincomensuráveisemrelação
àsrealidadesconcretas,masnemporissomenosatuantes.
Otrabalhoapresentadorepresentaatentativadecon­
siderardeterminadosaspectosdoanimussementretantorei­
vindicarumaabrangênciatotaldessefenômenoimensamen­
tecomplexo.Trata-senãoapenaspuraesimplesmentede
umagrandezadadaimutável,mastambémdeumprocesso
espiritual.Aquieumelimitoatratardasformasdemani­
festaçãodoanimusemsuarelaçãocomoindivíduoecom
aconsciência.
1.FormasdeManifestaçãodoAnimus
Eu,portanto,partodahipótesedequeoanimusrefe­
re-seaumser
masculino,cujorastropodeserseguidoeque
deveserrepresentado.
16
Comosecaracterizaentãoosermasculino?Goethefaz
comqueFausto,ocupadoemtraduziroevangelhosegundo
João,~eperguntesenapassagem"noprincípioeraoverbo"
nãoficariamelhor"noprincípioeraaforça"ou"osenti­
do",paraescreverfinalmente"noprincípioeraoato".Com
estasquatroexpressões,quedeveriamtraduziro"logos"
grego,pareceestarrepresentadadefatoaquintessênciado
sermasculino.Hánelasaomesmotempoumaseqüênciade
graus,ecadaumdestesgraustemseurepresentantenavi­
da,bemcomonodesenvolvimentodoanimus.Oprimeiro
graucorrespondeà
força,seguindo-seo ato,overboe,final­
mente,comoúltimograu,o
sentido.Emlugardeforça,de
qualquerforma,seriamelhordizerforça
dirigida,ouseja,
vontade,poisaforçapuraaindanãoéhumanaetambémnão
éespiritual.Estaquadruplicidadepelaqualoprincípiodo
10­
gosédescritotem,comopodemosver,umelementoda cons­
ciência
comocondiçãoprévia.Semesta,nemvontade,ato,
verboousentidopodeserrepresentado.Assimcomoháho­
mensquesedestacampelaforçafísicaeháhomensdeação,
depalavraseháoshomenssensuais,assimtambémestádi­
vididaaimagemdoanimus,quecorrespondeaorespectivo
grauouaptidãodamulher.Estaimagemé,porumlado,pro­
jetadaemumhomemrealsemelhanteaela,queatravésde­
lacorrespondeaopapeldoanimus,eporoutroelaaparece
comofiguraoníricaoudefantasia,efinalmente,jáquere­
presentaumarealidadeanímicaviva,elapode,apartirdeden­
tro,emprestarumadeterminadacoloraçãoatodoocompor­
tamento.Paramulheresprimitivasoujovens,ouparaopri­
mitivoqueháemcadamulher,háumrepresentantedoanimus
quesedestacapelaforçafísicaepelaagilidade;daíostípi­
cosheróisdaslendasouosatuaisídolosdoesporte,
cowboys,
toureiros,pilotosetc.Paraasexigentes,eleéumtipoque
executaatos,nosentidodequedirigesuaforçaparaalgo
quevaleapena;écomumqueaquiastransiçõessejamflui­
das,poisforçaeatocondicionamumaooutro.Oshomens
do
verboouatémesmodo sentidocaracterizamentãomui­
topropriamenteadireçãoespiritual,poisverboesentido
17

correspondemprincipalmenteàsfaculdadesespirituais.Aqui
há,portanto,oanimusnosentidomaisrestrito,compreen­
didocomolíderespiritualecomoaptidãoespiritualdamu­
lher.Nestegrau,elepodemuitobemtomar-seacimadetu­
doproblemático,eporissoteremosquenosdeterneleo
maislongamentepossível.
Encontramososgrausdavalentiaedaaçãoprojetados
nafiguradoherói.Entretanto,hátambémmulheresnasquais
essaespéciedemasculinidadeestáregistradaeatuantedema­
neiraharmônicacomoserfeminino.Estassãoasmulheres
ativas,enérgicas,corajosaseatuantes.Aoladodestasencon­
tramostambémaquelasemqueaintegraçãonãodeucerto
eondeaposturamasculinasufocouereprimiuafeminina;
estassãoasmulheres-homenssuperenérgicas,inescrupulosas
ebrutais,asXantipas,quesãonãoapenasativasmasatémes­
moviolentas.Emmuitasmulheresessamasculinidadeprimi­
tivaencontraexpressãotambémnavidaamorosa:seuerotis­
motementãoumcaráteragressivomasculino,nãosendo
condicionadoaosentimentonemligadoaele,comoéoca­
sonormalmentecomasmulheres,funcionandoentretanto
parasi,semestarassociadoàtotalidadedapersonalidade.
Issoacontecepreponderantementecomoshomens.
Entretanto,pode-semuitobemsuporque,emgrande
parte,asformasmaisprimitivasdamasculinidadejáforam
assimiladaspelamulher.Falando-sedemaneirageral,elashá
muitoencontraramsuautilizaçãonavidafeminina,poisjá
faztempoqueexistemmulherescujaforçadevontade,ob­
jetividade,atividadeecapacidadedeatuaçãoserviramcomo
forçasúteisemsuasvidas,vividasporoutroladodeforma
completamentefeminina.Oproblemadamulheratualme
pareceestarmuitomaisnaposturaemrelaçãoaologosdo
animus,emrelaçãoaoespiritual-masculinonosentidoestri­
to,quepareceportantoserumaabsolutaexpansãodacons­
ciência,umamaiorconsciênciaemtodososcampos,umda­
doeumaexigênciainevitáveisdenossotempo.Expressão
destefatoéque,aoladodasdescobertaseinvençõesdos
últimoscinqüentaanos,surgiutambémomovimentofemi-
nista,alutapelaigualdadededireitossociaisemrelaçãoao
homem.Apiorexcrescênciadesseesforço-opedantismo_
pareceestarhojesuperada.Amulheraprendeuareconhe­
cerquenãopodeserigualaohomem,queelaantesdemais
nadaémulheredevesê-Io.Permaneceentretantoofatode
queumadeterminadaquantidadedeespíritomasculinoama­
dureceunaconsciênciadasmulheresedeveencontrarem
suaspersonalidadesseulugaresuaatuação.Conhecerestas
grandezas,ordená-Iasparaquepossamagiradequadamente
éumaparteimportantedoproblemadoanimus.
Ouve-sedevezemquandoopontodevistadequenão
serianecessárioàmulherocupar-secomcoisasespirituaisou
intelectuais;issoseriaapenasumaimitaçãoestúpidadoho­
memouamegalomaniadeuminstintodeconcorrênciatrai­
dor.Aindaqueissocertamentesejaverdadeemmuitosca­
sos,especialmentequantoàsmanifestaçõesnoiníciodomo­
vimento,mesmoassimnãosefazjustiçaàcausacomessaex­
plicação.Não
éasoberbaouaarrogânciaquenosleva,com
perversidadeatrevida,aquererserigualaDeus-istoé,co­
moohomem-,nem,comoaEvaumavez,nosfascinaa
belezadofrutodaárvoredoconhecimento,ounosencoraja
aserpenteaprová-Io,masécomosetivéssemosrecebido
umaordem:nósestamosdiantedanecessidadedemorder
essamaçã,querelanospareçaapetitosaounão,diantedo
fatodequeacabouoparaísodasubmissãoànaturezae
à
inconsciênciaondemuitasadorariampermanecer.
Eassimestãoascoisasemúltimainstância,aindaque
algumasuperestruturapossalançaroutraluz.Ecomosetra­
tadeumpontodetransiçãotãosignificativo,nãosedeve
ficaradmiradocomtentativasfrustradas,exagerosecarica­
turasgrotescas,etampoucodeixar-sedesanimarporisso.
Seoproblemanãoéabordado,seamulhernãocumpresu­
ficientementeaexigênciadotomar-seconscienteoudaati­
vidadeespiritual,entãooanimustoma-seautônomoene­
gativo,eagedemaneiradestrutivasobreopróprioindivíduo
bemcomosobresuasrelaçõescomoutraspessoas.Issopo­
deserexplicadodasegui~emaneira:quandoanecessidade
18 19

defunçãoespiritualnãoéassumidapelaconsciência,então
alibidodeterminadaparaissocainoinconscienteeláati­
vaoarquétipodoanimus.Atravésdestalibidoqueescapou
paraoinconscienteaquelafiguratorna-seautônomaetão
poderosaquepodesubjugaroeuconscientee,finalmente,
dominartodaapersonalidade.Devoacrescentaraquique
discordodaconcepçãodequenabasedoindivíduoexistem
determinadasidéiasqueeleteriaquerealizar,comoporexem­
plooovoouasemente,quejácontêmemsiaidéiadoser
quedeledevesurgir.Porissoeufalodeumaquantidadede
libidoqueestádestinadaàsfunçõesespirituais,prontapara
fazê-Io,equedeveriaserutilizadaparaisso.Paraexpressá-Io
comumaimagemtiradadaeconomia:semelhanteaoorça­
mentodeumlarouumempreendimento,estãoprevistas
determinadasquantiasparadeterminadosobjetivos.Além
disso,detemposemtempossãoliberadasquantiasdedesti­
naçõesanteriores,ouporquenãosãomaisnecessáriasláou
entãoporquenãopodemmaisserutilizadas.Esteéhojeo
casoparaamulherdemuitospontosdevistadiferentes:pri­
meiroela,principalmenteseforprotestante,freqüentemen­
tenãoencontramaisnareligiãodarespectivaigreja,quean­
tespodiasatisfazerconsideravelmentesuasnecessidadeses­
pirituaiseintelectuais,essasatisfação.Antesoanimusde
umacertamaneirapodiaserrelegadoaoAlém,juntocomsua
problemática-oDeuspaternalbíblicosignificaparamui­
tasumaspectometafísicoesobre-humanodaimagemdo
animus-eenquantoaespiritualidadepodeseexpressarnas
formasgeraisdareligiãooconflitoéevitado.Agoraqueisso
nãofuncionamais,surgeonossoproblemapropriamentedito.
Euvejoumaoutrarazãonacircunstânciadeque,com
apossibilidadedecontroledenatalidade,umasignificativa
quantidadedelibidoficalivre.Duvidoqueatémesmoapró­
priamulherpossaavaliarcorretamentequãograndeéessa
quantidade,queatéentãoerautilizadaparaaconstantepre­
paraçãointerioreestavaconsolidada.
Aterceirarazãoestánosavançosdatecnologia,quetira
damulhertantacoisaqueantes,utilizandoseuengenhoe
20
espíritocriativo,eladestinavaàsuaproduçãooumanuten­
ção.
Ondeelaantesacendiaofogodalareirae,comisso,
cumpriaoatoprometeico,hojeelaligaogásouocomu­
tadorelétricoenãotemnemidéiadoqueperdecomessas
inovaçõespráticasequeconseqüênciasessaperdalhetraz.
Poistudooquenãoémaisfeitoàmodaantigaseráfeito
deumnovomodo,eissonãoéassimtãosimples.Hámui­
tasmulheresque,quandoestãoemumasituaçãoemque
sedeparamcomasexigênciasespirituais,pensam:"Eupre­
feririatermaisfilhosainda!",paradessamaneiraescaparaessa
exigênciaincômodaeamedrontadora,oupelomenosadiá-Ia.
Mas,maiscedooumaistarde,éprecisoadequar-separacum­
priressaexigência,poisodesgastebiológicodiminuinatu­
raleprogressivamentenasegundametadedavida,defor­
maqueumaadaptaçãotorna-sedequalquermaneirainevitável,
casonãosequeiraadquirirumaneuroseoualgumaoutra
enfermidade.Alémdisso,nãoésomentealibidoquesetornou
livrequenosimpõeanovatarefa,mastambém,etantoquanto,
ajácitadaleidoKairos,domomentotemporaldequehós
dependemosequenãopodemosevitaraindaquesuascondições
sejamobscurasparanós.Enossaépocapareceexigiraexpansão
daconsciênciadeformageral.Temos,portanto,napsicologiaa
descobertaeapesquisadoinconsciente;nafísica,comprovam­
seapariçõesefenômenostaiscomo,porexemplo,raiose
vibraçõesqueatéentãonãoeramperceptíveis,sendoportanto
inconscientes;sãoencontradosnovosmundoscomasleisqueos
regem,taiscomoodoátomo,otelégrafo,otelefone,orádioe
outrosinstrumentostecnicamenteaperfeiçoadosdetodotipo,
quetrazemparapertodenósoqueestádistante,ampliando
dessaformaoâmbitodepercepçãodosnossossentidosporto­
dooplaneta,ealémdele.Emtudoisso,expressa-seaam­
pliaçãoeailuminaçãodaconsciência.Prosseguirnabusca
dascausaseobjetivosdessefenômenonoslevarialongede­
mais;euomencionoapenascomofatorqueparticipado
condicionamentodoproblemaqueétãoagudoparaamulher
atual,oproblemadoanimus.
21

Trata-se,portanto,deumatransferênciadalibidopara
novosrumos;nóssabemosquetodaaculturaestáapoiada
sobreessastransferências,eacapacidadeparataléquedi­
ferenciaohomemdoanimal.Estefenômeno,entretanto,
tambémestáligadoàsmaioresdificuldades;naverdade,ele
atuaquasecomoumaculpaouumcrime,comodemonstram
osmitosdopecadooriginaledoroubodofogoporProme­
teu,ecomosepodeexperimentá-Ionaprópriavida.Nãoé
issoaindamaisadmirável,poistrata-seaídeumaabertura
ouatémesmodeumdesviodopercursonatural,umempreen­
dimentoperigosoeapaixonante!Porissotambémessepro­
cessosempreesteveestreitamenteligadoàsnoçõeseritos
religiosos.Sim,omistérioreligioso,comsuavivênciadamor­
teeressurreiçãosimbólicas,significabastantefreqüentemen­
teomaravilhosoemisteriosoprocessodametamorfose.
Comosedepreendedosmitos,dopecadooriginalno
paraísoedoroubodofogoporPrometeujámencionados,
éologos,istoé,ainteligência,portantoaconsciência,que
destacaohomemdanatureza.Esseprocesso,entretanto,
coloca-onumaposiçãotrágicaentreoanimaleDeus.Atra­
vésdesseprocessoeledeixadeserofilhodamãenatureza:
eleéexpulsodoParaíso,mastambémnãoénenhumdeus,
poisestáirremediavelmentepresoaoseucorpoeàssuasleis
naturais,comoPrometeuacorrentadoàrocha.Esseestarpen­
duradooubalançardecáparaláentreoespíritoeanature­
zaéumsofrimentohámuitoconhecidodohomem,enquan­
toamulhersórecentementecomeçaasentiresseconflito.
Ecomesseconflito,queandademãosdadascomumacons­
ciênciacrescente,chegamosnovamenteaoproblemadoani­
mus,quenofimsempreacabanaoposiçãonaturezaeespí­
ritoesuaunificação.
Comovivenciamosesseproblema?Comovivenciamos
esseprincípioespiritual?
Aprincípioelevemaonossoencontrodefora,vemao
encontrodacriançaquasesemprenopaiouemalgumho­
memquetenhaassumidoolugardopai,emaistardetalvez
numprofessor,numirmãomaisvelho,nomarido,numami-
22
goefinalmentetambémnosdocumentosobjetivosdoes­
pírito,naIgreja,noEstadoenasociedadeeemsuasinsti­
tuições,nascriaçõesdaciênciaedaarte.Emgeral,oaces­
soaestaobjetivaçãodoespiritualnãoépossívelàmulher
demaneiradireta,maselaaencontraprimeiroatravésde
umhomem,queéparaelaguiaemediador.Esteguiaoume­
diadortorna-seentãotambémportadorourepresentante
daimagemdoanimus;emoutraspalavras,oanimusépro­
jetadonele.Atéondeestaprojeçãoébemsucedida,istoé,
atéondeaimagemcorrespondeaoseuportador,nãoexis­
tepropriamenteumconflito.Aocontrário,deumacerta
maneiraestasituaçãopareceatéperfeita.Especialmentequan­
doohomematravésdoqualoespiritualétransmitidoéao
mesmotempovivenciadocomopessoa,ouseja,quandose
temumarelaçãohumanapositivacomele.Quandoessapro­
jeçãoseestabelecedeformaduradouratemosentãoaquiloque
sepoderiachamardeumarelaçãoideal;idealporquesem
conflitos,ondesepermaneceentretantoinconsciente.Contudo,
hojeemdia,nãoémaispossívelsertãoinconsciente,eeuacho
queissopodeserprovadopelofatodequemuitas,quandonão
amaioriadasmulheresquecrêemestarfelizesesatisfeitasem
umadessasrelaçõesperfeitascomoanimussãoaomesmo
tempoatormentadasporsintomasnervososoufísicos.São
muitofreqüentesosestadosdemedo,deinsôniaedenervosis­
mogeral,oumalesfísicostaiscomodoresdecabeça,perturba­
çõesdavisãoeàsvezestambémafecçõespulmonares.Conheço
doiscasosemqueomalpulmonarsurgiunumaépocaemqueo
problemadoanimushaviasetornadoagudo,sendocuradoapós
estetersidoreconhecidoe
tratado.7(Talvezosórgãosrespirató­
rioseoespíritoestejamrelacionadosemumcontextosingular
talcomoéexpressonapalavraanimaoupneuma,equivalentesa
hálito,ventoouespírito.Talveztambémosórgãosrespiratórios
reajamcomumasensibilidadeespecialquantoaosprocessosdo
espírito.
Éprovávelquequalqueroutroórgãopossaseratingido
damesmamaneira.Trata-senaverdadedelibidoquenão
encontranenhumaaplicaçãoadequadaeque,portanto,repri­
midaemsimesma,atacaalgumpontofraco.)
23

Entretanto,taltransferênciatotaldaimagemdoani­
muscria,alémdaaparentesatisfaçãoeperfeição,também
umaespéciedeligaçãoforçadacomohomememquestão
eumadependênciadelequefreqüentementechegaaserin­
suportável.Esteestadodefascinaçãoedecondicionamen­
toabsolutoaooutroéconhecidocomo"transferência",que
nãoéoutracoisaqueaprojeção.Projeção,entretanto,não
significaapenasatransferênciadeumaimagemparauma
outrapessoa,mascomaimagemtornam-secostumeirastam­
bémasatividadesqueaelacorrespondem,imaginadaspara
aoutrapessoa,comoporexemploumhomemaoqualétrans­
feridaaimagemdoanimusequeaomesmotempotemde
assumirtodasaquelasfunçõesquepermanecerampoucode­
senvolvidasnamulheremquestão,sejaafunçãoouativida­
dedopensamentoouaresponsabilidadeemrelaçãoaoex­
terior.Amulheremquemohomemprojetasuaanimade­
vesentiroucriarrelaçõesporele,eessecomportamentosim­
bi6ticoé,naminhaopinião,averdadeirarazãoparaadepen­
dênciaforçadaeocondicionalismoquesurgenessescasos.
Muitasvezes,entretanto,umestadodeprojeçãoperfei­
toefeliznãoduramuito,especialmentequandosetemuma
relaçãopróximacomapessoaemquestão.Nestecaso,éfre­
qüentequeempoucotempoaincongruênciaentreaimagem
eseuportadorsetornevisível.Umarquétipo,talcomooé
oanimus,nuncacoincidecomumapessoaindividual,tanto
menosquantomaisindividualforapessoa.Naverdadeain­
dividualidade
éocontráriodoarquétipo,poisoindividual
éexatamenteaquiloquedealgumaformanãoétípico,esim
talvezamisturaúnicaeoriginaldetraçostípicos.
Quandoestadiferençaentreaimagemeseuportador
seinstaura,nós,muitoconfusosedecepcionados,nosdamos
contadequeohomemquepareciaincorporaraimagemdo
animusdeformaalgumalhecorresponde,comportando-se
constantementedemaneiramuitodiferentedaquejulgaría­
mosconveniente.Talvezaprincípiohajaumesforçopara
enganar-seasimesmoaesserespeito,emuitasvezesissodá
certocomrelativafacilidadegraçasaumahabilidadedeadap-
24
taçãoquesedeveaumacapacidadedediferenciaçãopou­
coapurada.Freqüentementetambémtenta-secomastúcia
fazerdohomemaquiloqueeledeveriarepresentar.Nãoape­
nasatravésdoexercíciodepressãooucoaçãoconsciente,
oqueacontecemuitomaisvezeséqueinconscientemente
levemosnossoparceiroaumcomportamentoarquetípico,
istoé,umcomportamentodeanimus,atravésdonossopró­
priocomportamento.Omesmovalenaturalmenteparao
homem.Tambémelegostariadevernamulheraimagem
quetememsi,eatravésdestedesejo,queatuacomouma
sugestão,podelevá-Iaanãoviverasimesma,fazendo-ator­
nar-seumafiguradeanima.Issoeacircunstânciadequeani­
maeanimusdeterminamumaooutro,istoé,queumama­
nifestaçãodeanimaevocaoanimusevice-versa,comoque.
põe-seemandamentoumcírculoviciosodifícildeinterrom­
per,forma-seumadaspiorescomplicaçõesnorelacionamen­
toentrehomememulher.
Masquandosedescobriuaincongruênciaentrepessoa
efigurajáseestáemmeioaoconflito,enãorestaoutracoi­
saafazerqueefetuaradiferenciaçãoentreaimagem
inter­
na
eapessoa externa.Comissochegamosaoproblemado
animusemseusentidomaispróprio,aqueledoscomponen­
tesmasculino-espirituaispróprios.Parece-mequeocompor­
tamentoemrelaçãoaestes,seuconhecimento,oconflito
comeles,suaincorporaçãonotododapersonalidade,for­
mamocernedestequetalvezsejaoproblemamaisimpor­
tantedemuitasmulheresatuais.Ofatodetratar-sedeum
complexo,deumórgãoquepertenceàindividualidadeeque
estádestinadoaofuncio.namento,explicaqueoanimusatraia
alibidoparasiatéatingirumadimensãoimponente,atétor­
nar-seumafiguraautônoma.
Édesepresumirquetodososórgãosoucomplexos
orgânicostenhamumatendência,umapossibilidadeeuma
disposiçãoquevisaseufuncionamento,equequandouma
quantidadeinsuficientedelibidofluiparaoórgãoemques­
tão,issosemanifesta,resultandoemperturbações,ouseja,
nosurgimentodesintomas.Conseqüentemente,dadauma
25

figuradeanimusforte,umaassimchamada"maniadeani­
mus",euconcluiriaqueapessoaatingidadámuitopouca
atençãoàquiloquenelaémasculino-espiritual,àestrutura­
çãodoseulogos,equeelaounãooeducoueaplicouounãoo
fezdamaneiracorreta.Issotalvezpareçaparadoxal,poispare­
ceacontecerapartirdoexterior,comoseofemininonão
fosselevadosuficientementeemconta,poisocomportamen­
todessasmulheresnospareceexcessivamentemasculino,
sentindo-sefaltadafeminilidade.Masamasculinidadede
queaparentementeseéportadormeparecemaisumsinal
dequealgomasculino,namulher,requermaisatenção.Atra­
vésdaapariçãoautocráticadessamasculinidade,ofeminino
primárioédequalquerformadominadoereprimido,mas
sópoderetomaraseulugarapropriadoatravésdeumdes­
vioquepassapeloconflitocomomasculino,oanimus.
Aparentemente,nãobastaagirintelectualmente,dema­
neirapráticaemasculina,comosepodeveremmuitasmu­
lheresque,porexemplo,completamumcursosuperiore
exercemumaprofissãointelectualmasculina,equeainda
assimnãochegaramabomtermocomseuanimus.Umatal
.educaçãoemaneiradevivermasculinaspodemmuitobem
darcertocombasenumaidentificaçãocomoanimus,com
oqueofemininoéentretantoafastado.Oquesepretende
propriamenteéa
espiritualidadefeminina, ologosdamu­
lherordenadonoserenavidadamulher,detalformaque
seestabeleçaumaaçãoconjuntaharmônicaequeumadas
partesnãosejarelegadaaumavidanassombras.
Umaprimeiraetapanocaminhoparaissosignifica,co­
mofoidito,aretiradadaprojeção,emqueesta
éreconhe­
cidacomotaledesligadadeseuobjeto;portanto,umpri­
meiroatodadiferenciaçãoque,parecendotãosimples,re­
presentaaindaassimumencargopesadoemuitasvezesuma
renúnciadolorosa.Atravésdestaretiradadaprojeção,reco­
nhecemosquenãotemosquelidarcomalgoqueestáfora
denós,mascomumagrandezainterior,enosvemosdian­
tedatarefadeaprenderaconheceranaturezaeaatuação
dessagrandeza,deste"homememnós",paradepoispoder-
26
mosnovamentediferenciá-Iodenósmesmas.Quandonão
sefazisso,tornamo-nosiguaisaoanimusousomospossuí­
dasporele,umestadoqueproduzosefeitosmaisfunestos.
Poisquandoofemininoéassimdominadopeloanimuse
forçadoparaosegundorlano,surgemfacilmentedepres­
sões,insatisfaçãogeral,perdadasensaçãodevida,sintomas
compreensíveisparaofatodequeumametadedapersona­
lidadetemsuavidaquaseroubadapelausurpaçãodoanimus.
Alémdisso,oanimuscoloca-sedemaneiraperturba­
doraentrenóseasoutraspessoaseavidaemgeral.Émui­
todifícilreconheceremnósmesmasessamania,eissoémais
difícilquantomaiorelaé.
Éportantodegrandeutilidade
observarcomoseageemrelaçãoàsoutraspessoase,emcon­
seqüência,examinarsuasreações,seelaspossivelmentefo­
ramevocadasporumaidentificaçãodeanimusinconsciente.
Essaorientaçãoporoutraspessoasconstituiumaajudaines­
timávelnocansativoprocessodediferenciaçãoeordenação
doanimus,quefreqüentementeésuperioràsenergiasindi­
viduais;acreditomesmoque,semarelaçãocomumapessoa
porquemsepodesempreorientarnovamente,épraticamen­
teimpossívellivrar-sedocercodemoníacoexercidopeloani­
mus.Oqueacontecequandoseestánumestadodeidenti­
dadecomoanimuséquenóspensamos,dizemosoufaze­
mosalgo,convencidosdequesomosnós,quandonareali­
dadeéoanimusquefalaatravésdenóssemquetenhamos
consciênciadele.Muitasvezes,émuitodifícilatémesmo
perceberqueumpensamentoouopiniãoéditadopeloani­
musenãoalgodequeestejamosconvictos,poiseledispõe
deumaespéciedeautoridadeepoderdesugestãodiretos,
violentos.Aautoridadeeleretiradesuafiliaçãoaoespíri­
toemgeral;opoderdesugestão,noentanto,éretiradoda
própriapassividadedepensamentodamulheredafaltade
críticacorrespondente.Estasopiniõesouconcepçõesmen­
cionadas,apresentadasemgeralcomgrande
aplomb,sãouma
manifestaçãoespecialmentecaracterísticadoanimus.Carac­
terísticasporque,correspondentementeaoprincípiodologos,
sãoconcepçõesouverdadesdevalidadegeral,quenaverda-
27

desãocorretasemsimesmas,masquenãocorrespondem
aocasodado,jáqueoindividualeoespecialdeumasitua­
çãonãosãoaílevadosemconta.Estaespéciedejulgamen­
toprontoeválidoparaqualquercasoéutilizadocompro­
priedadeapenasnaciência(e,nela,sobretudonamatemá­
tica,ondedoisedoissempredãoquatro),aocontráriodo
queacontecenavida;poisnestaouoobjetododiscursoou
seutratamentoécorrompido,ouaindaaprópriapessoaemi­
teumjulgamentoestabelecidosemlevaremconsideração
seusprópriossentimentos.
Essetipodepensamentosemsentidoocorredequal­
querformatambémnoshomens,porexemplo,quandoé
idênticoàrazãoouaoprincípiodologosenãopensaelemes­
mo,masdeixaque"isso"pense.Éclaroquetaishomens
sãoespecialmenteapropriadosparaincorporaroanimusde
umamulher.Nãoposso,entretanto,aprofundar-meneste
pontojáqueaquiestoutratandoexclusivamentedosfenô­
menosdoanimusfeminino.
Umadasexpressõesmaisimportantesdoanimusé,por­
tanto,ojulgamento.Elesecomportacompensamentosem
geraldamesmamaneiraquecomjulgamentos,ouseja,eles
importunamapessoaapartirdedentrocomoalgopronto
eporassimdizerirrefutável.Ou,quandoseoriginamnoex­
terior,elessãoadotadosporquedealgumaformaparecerr
iluminadoresouatraentes.Masemgeral,poroutroladc,
amulhernãosesentelevadaaadotarouatémesmoart­
fletirsobreestespensamentosparapodercompreendê-Ios.
Acapacidadedediferenciaçãopoucodesenvolvidaleva
aqueseacolhacomomesmorespeitoecomamesmaad­
miraçãopensamentosválidoseoutrossemvaloralgum,
poistudooquedealgumamaneiralembraoespíritoim­
põe-seeexercesobreelaumafascinaçãosinistra.Daíosu­
cessodemuitoscharlatães,quecomumaespéciedepseu­
do-espíritoobtêmresultadossurpreendentes!Poroutro
lado,noentanto,acapacidadedediferenciaçãodeficien­
tetemtambémseuladobom:eledeixaamulhersempre­
conceitos,deformaqueelamuitasvezessabedescobrire
28
apreciarvaloresespirituaismaisrapidamentequeohomem,
cujacríticadesenvolvidaotornadesconfiadoepreconceituo­
so,precisandoportantodemaistempoatéreconhecerum
valorquepessoasmenospreconceituosasjátinhamreconhe­
cidocomotalhámuitotempo.
Opensamentoprópriodamulher(eumerefiroaquià
mulheremgeral,sabendoquehámuitasmulheresquehá
muitoultrapassaramesseestágio,tendojádesenvolvidoex­
tensamentetantoseupensamentoquantoseuserespiritual)
épreponderantementepráticoeaplicado,aquiloquesecha­
maumacompreensãohumanasaudável,emgeraldirigidaao
queestápróximoeaopessoal.Atéaíeleestáfuncionando
adequadamentenolugarquelhecabe,nãopertencendopro­
priamenteàquiloqueentendemosseroanimusemseusenso
estrito.Elesetornatalsomentequandoaenergiaespiritual
nãoémaisdirigidaapenasaodomíniodavidacotidiana,pro­
curandoalémdissoumoutrocampodeação.
Emgeralpode-sedizerqueoespiritualdamulher,tal
comoseapresenta,éumcaráterpoucodesenvolvido,in­
fantilouprimitivo:curiosidadeemvezdedesejodeconhe­
cimento,preconceitoemlugardejulgamento,imaginação
ousonhoemvezdepensamento,desejoemvezdevonta-
de.
Ondeohomemtratadeproblemas,amulherconten-
ta-secomadivinhações;ondeelealcançasabedoriae·conhe­
cimento,amulhersesatisfazcomcrençasousuperstições,
oufazsuposições.Trata-sedeestágioselementaresquepo­
demsercomprovadosnoespíritoinfantiletambémnoespí­
ritoprimitivo.Éassimqueacuriosidadeseapresentaàscrian­
çaseàspessoasprimitivas,bemcomoospapéisdesempenha­
dospelacrençaepelasuperstição.NoEddaháumacompe­
tiçãodeenigmasentreoerranteOdineseuanfitrião,lem­
brando'umtempoemqueoespíritohumanoseexercitava
comenigmas,comoofemininoofazhojedeformaprepon­
derante.Temostambémrelatossemelhantesdomundome­
diev,aleclássico.Eumelembrodoenigmadaesfingeoudo
deEdipo,nassutilezasdossofistaseescolásticos.
29

o"pensamentoilusório" (Wunschdenken,wishfulthink­
ing)correspondeigualmenteaumdeterminadoestágiode
desenvolvimentoespiritual.Eleéencontradoemtemasde
contosdefadas,eaífreqüentementecomoalgojápassado
quandoahistóriadecorre"naépocaemqueterdesejosainda
ajudava".Ousodamagia,quandosedesejaalgoaalguém,
tambémestánabasedessamesmarepresentação.Emsua"Mi­
tologiaAlemã",Grimmapontaarelaçãoentredesejo,repre­
sentaçãoepensamento:
"UmantigonomenórdicodeWotanpareceserOski
ouDesejo.(AsValquíriassãotambémchamadasdedonze­
Iasdodesejo.)Odin,erranteedeusdovento,senhordoexér­
citodosespíritosedescobridordasrunas,éumespírito-deus
típico,emboraumafiguraprimitiva,aindarústica.8Como
tal,eleésenhordodesejo,istoé,nãoapenasdoadordetudo
oqueébomeperfeito,queestácompreendidonodesejo,
podendotambémprovocar,criaratravésdodesejo.Grimm
interpreta:odesejoéaenergiaquemede,molda,dá,cria,
formaaenergiaimaginativa,pensantee,portanto,também
imaginação,idéia,in:lagem,forma.9Eemoutrolugarelediz:
"Significativamente,odesejoemsânscritochama-se
manoratha,
rodadosentido...o desejomovimentaarodadopensamen­
tO."10
Umtaldeusdoespíritoedoventoéentãocomparável
aoanimusfemininoemseuaspectosobrenatural,divino­
nóstambémoencontramoscomformasemelhanteemso­
nhosefantasias-,eestecaráterdedesejoéprópriodopen­
samentofeminino.Quandosetempresentequeaenergia
representativanãorepresentapoucoparaaspessoas,jáque
semprequesequerpode-secriarumaimagemespiritualde
algumacoisa,arealidade,aindaqueimaterial,nãodeveser
negada,eentãosecompreendecomoéqueimaginação,pen­
samento,desejoecriaçãoforamequiparados.Especialmen­
tenumestadorelativamenteinconsciente,ondeasrealida­
desexternaeinternanãoestãonitidamenteseparadas,trans­
bordandoumanaoutra,émuitopossívelqueumarealidade
espiritual,istoé,algoimaginadoouumpensamento,sejacon-
30
sideradodemaneiradiretacomorealeconcreto.Entreos
primitivostambémseencontraestaequiparaçãoentrerea­
lidadeexternaconcretaerealidadeespiritualinterior.Em
seusescritos,Lévy-Bruhllldáváriosexemplosdisso.Falar
maisarespeitoaquinoslevariaentretantolongedemais.A
mesmamanifestaçãoencontra-setambémdemaneiramui­
toclaranaposturaespiritualfeminina!
Fica-sesutpresoaosedescobrir,quandoseobservamais
atentamente,comquefreqüêncianospassapelacabeçaque
algosecomportaassimeassado,ouquealguéminteressa­
doemnósfazissoouaquilo,fezouvaifazer;esemnem
mesmopensararespeito,confrontandoaidéiacomareali­
dade,jáestamosconvencidasdequeéassim,oupelomenos
estamosinclinadasaaceitarapuraimaginaçãocomoverda­
deiraeadotararealidadecorrespondente.Outrascriações
dafantasiatambémsãofacilmenteconsideradasverdadei­
rasepodemàsvezesatémesmoapareceremformaconcreta.
Umadasatividadesdoanimusmaisdifíceisdeidenti­
ficarocorrenesseterreno,nomeadamenteoestabelecimen­
todeumaimagemdedesejodesimesmo.Oanimussabe
muitobemcomodesenvolverumaimagemetorná-Iacrível,
deformaquemostra-seaquiloquesegostariadeser,como
porexemplo"aamanteideal","acomoventecriançainde­
fesa","aservidoraabnegada","aextraordinariamenteori­
ginal","aquenaverdadenasceuparaalgomelhor"etc.etc.
Naturalmente,essaatividadelheconferepodersobreapessoa
atéopontoemquesesejaforçadoousedecidaespontanea­
mentesacrificaraimagemrepresentadaever-secomoreal­
menteseé.
Aatividadeespiritualfemininatambémsemanifesta
commuitafreqüênciaemcismasorientadasemgeralretros­
pectivamente:queaprópriapessoa,ououtras,deveriater
feitotudodemaneiradiferente,ecomo;ourelaçõescausais
sãoconstruídascomosefossemumaobrigação.Gostamos
dechamaraissode"pensar",maséclaroquesetratade
umaformadeatividadeespiritualnotavelmentepróxima,
eimprodutiva,quenaverdadelevasomenteàautomortifi-
31

cação.Tambémaquiestánovamentecaracterizadaadefi­
ciêncianoqueserefere
àdiferenciaçãoentrearealidadee
aquiloqueéapenaspensadoouimaginado.
Poder-se-iadizertambémqueopensamentofeminino,
atéondenãoatuadeformapráticacomocompreensãohu­
manasaudável,nãoéumpensamentopropriamentedito,
esimmaissonho,imaginação,desejoereceio.Atravésda
diferenciaçãoespiritualprimitivaentreimaginaçãoereali­
dadepode-seentãoesclarecerempartetambémopodere
aautoridadedofenômenodoanimus:porquenaverdade
oespiritual,istoé,aquiloqueérepresentado,possuiaomes­
motempoumcaráterderealidadeimediato,eporissotam­
bémoqueoanimusdizpareceserimediatamenteverdadeiro.
Comissochegamos
àmagiadapalavra.
Damesmaformaquealgoimaginado,umpensamen­
to,apalavratambémagecomorealidadeparaoespíritonão
diferenciado.Nossomitobíblicodacriação,porexemplo,
ondeomundosurgequandoocriadorpronunciaapalavra,
éumdocumentodessetipo.Oanimus,portanto,também
temopodermágicodapalavra,eassimoshomensqueatuam
pelapalavrapodem,nobomenomausentido,exercergran­
depodersobreamulher.Estariaeufalandodemaisquan­
dodouaentenderqueamagiadapalavra,aartedaconver­
sa,éoquemaisinfalivelmenteprendeamulheraohomem,
seduzindo-a?
Dequalquerforma,nãoésomenteamulherqueestá
sujeita
àmagiadapalavra,mastrata-sedeumfenômenode
ocorrênciageral:asrunassagradasdaantiguidade,osman­
tras,fórmulasdeoraçãoedemagiadetodosostipos,che­
gandoatéàsexpressõestécnicasetópicasdenossotempo
-todoselesatestamopodermágicodoespíritotornado
palavra.
Masemgeral
émaisprovávelqueamulhersesubme­
taaesseefeitomágicoqueumhomemdenívelcorrespon­
dente.Estetempornaturezaoimpulsodecompreenderas
coisascomasquaislida;comoexemplodisso,osmeninos
pequenosadoramdesmontarseusbrinquedosparasaberqual
32
suaaparênciapordentroousabercomofunciona.Esseim­
pulsoémuitomenospronunciadonamulher.Elapode,por
exemplo,manejarmuitobeminstrumentosoumáquinassem
quelheocorraquererestudaroucompreendersuaconstru­
ção.Porissotambémumapalavraquelhesoesignificativa
podeseimporsemqueelanaverdadeentendaexatamen­
teoseusentido,enquantoohomembuscaantesosignificado.
Apresentar-senãocomoforma,
mascomopalavra (lo­
gossignifica,afinal,palavra)
éumaformademanifestação
especialmentecaracterísticadoanimus;istoé,como
uma
voz
quecomentaoucompartilhadarepreensãoaocompor­
tamentosejaqualforasituaçãoemqueseencontre.Mui­
tasvezes,éexclusivamentesobessaformaqueoanimusé
percebidopelaprimeiravezcomoalgodiferentedoeu,mui­
toantesquetenhasecristalizadoemumaconfiguraçãopes­
soal.Atéondepudeobservar,essavozmanifesta-seprinci­
palmenteemduastonalidades;numaavaliação
crítica,em
geralnegativa,
dequalqueremoção,numapesquisaminu­
ciosadetodososmotivoseintençõesquenaturalmentesem­
preprovocasentimentosdeinferioridadeecostumasufocar
cadainiciativa,cadadesejoaindaemgérmen.Comovaria­
ção,atéagorafizeram-seelogiosexagerados,eoresultado
dessejulgamentoextremoéqueseoscilaentreaconsciência
detotalnulidadeeumelevadosentimentodevaloredesi
mesmo.
Asegundatonalidademovimenta-semaisoumenosex­
clusivamentenoestabelecimentodemandamentoseproibi­
çõesouemditarconcepçõesemgeralválidas.Pareceque
aquisãoexpressosdoisladosimportantesdafunçãodo
10­
gos:porumlado,adiscriminação,ojulgamentoeoreconhe­
cimento;poroutro,aabstraçãoeoestabelecimentodeleis
gerais.Poder-se-iadizer,talvez,queondeoprimeirotipo
defuncionamentopredominaafiguradoanimusaparece
como
umapessoa,enquantoela,quandoosegundotipopre­
domina,surgecomo
vários,umaespéciede"conselho".Dis­
criminaçãoejulgamentocorrespondemmaisaumindivíduo,
enquantooestabelecimentoeabstraçãodeleis,quetêmpor
33

pressupostoacomparaçãoeaconcordânciademuitos,écon­
venientementeexpressoporumamaioria.
Oqueentretantosereferepropriamenteàquiloqueé
criativonoespíritoéreconhecidamentealgomuitoraronamu­
lher.Hámuitasmulheresquejádesenvolveramextensamen­
tesuacapacidadedepensamentoediferenciação,suacríti­
ca,masmuitopoucassãoespiritualmentecriativascomoo
homem.Dizemasmáslínguasqueamulherpossuitãopou­
cotalentoparaainvençãoqueseohomemnãotivessedes­
cobertoacolherelaestariamexendoasopaatéhojecomum
pau.
Ocriativonamulherexpressa-sebastantemaisnavida
queemobras,nãoapenasemsuafunçãobiológicacomomãe,
masnaconfiguraçãodavidacomoumtodo,sejaemseupa­
peldecompanheiradohomem,emsuaatividadecomoedu­
cadoradacriança,comodona-de-casaousobqualqueroutra
forma.Aconfiguraçãoderelaçõespertencepreferencialmen­
teàconfiguraçãodavida,eestaéaáreaapropriadaparaa
energiacriativafeminina.
Nosprodutosdoinconsciente,emsonhos,fantasias
ousimplesmenteempensamentosquesenosapresentam,
encontramostambémnoentantoomomento doespiri­
tual-criativo,istoé,estesprodutoscontêmfreqüentemente
idéias,verdadesdenaturezapuramenteobjetiva,absoluta­
menteimpessoal.Atransmissãodetaisconhecimentosecon­
teúdosémuitoapropriadamenteafunçãodoanimussupe­
rior.
Encontra-secomfreqüênciaemsonhos,especialmen­
tedemulheresquetêmumpensamentomal-desenvolvido
ouumaeducaçãopobre,símboloscientíficosabstratosque
praticamentenãopodemmaisserentendidoscomopessoais,
representandodiagnósticosouidéiasobjetivasquesãomais
surpreendentesparaaprópriamulherqueossonhaquepa­
raqualqueroutrapessoa.Assim,euseideumamulherpara
quemopensamentoéa"funçãoinferior",
12masemcujos
sonhosoassuntomaisfreqüentesãoquestõesdeastrono­
miaefísicaeinstrumentostécnicosdetodotipo.Umaou-
34
tramulher,deumtipototalmenteirracional,desenhavaco­
morepresentaçãodeconteúdosinconscientesapenasfigu­
rasestritamentegeométricas,formasextremamenteseme­
lhantesacristais,comosepodeencontraremlivrosescola­
resdegeometriaoudemineralogia.Eaindaemoutrasoani­
mustransmitevisõesdemundoedevidaquefogemmuito
deseupensamentoconsciente,ecujaqualidadecriativanão
podesernegada.
Entretanto,naáreaemqueaatividadecriativadamu­
lherémaisostensiva,naqueladasrelaçõeshumanas,ocria­
tivoémenosfrutodoespíritonosentidodelogos,sendo
muitomaisprodutodosentimento,deparcomaintuição
ouasensibilidade.Aqui,aocontrário,oanimuspodeser
diretamenteperigoso,quandoeleinterferecomointelecto
emlugardesentimentonasrelaçõese,dessamaneira,asdi­
ficultaouimpossibilita.Acontecemuitofreqüentemente
que,emvezdeseapreenderasituaçãoouooutroatravés
dosentimentoeencará-Iosdemaneiracorrespondente,se
imaginaalgosobreeleseéaessafantasiaquesetemdereagir
deformahumana;podeserumaatitudemuitocorreta,bem
intencionadaesensata,masquenãofunciona,oufunciona
damaneiraerrada,porserapenasobjetivaefactualmente
correta,porqueoparceiroouarelaçãonãorequernaquel~
momentoconhecimentoouobjetividade,esimintuição.E
muitocomumacontecerde,comosentimentodeseestar
agindomuitovalorosamente,adotar-seumadessasatitudes
pragmáticasecomissoarruinartotalmenteumasituação.
Aincapacidadedesecompreenderqueconhecimento,ra­
zãoepragmatismonãotêmsentidoemdeterminadosluga­
rescostumasersurpreendente.Eusópossoexplicarissopelo
fatodequeseestáacostumadoaencararogêneromasculi­
noemsimesmocomoalgodemaiorvalor,superioraofe­
minino,detalformaqueseacreditaqueumaposturamas­
culino-pragmáticaseria,emqualquercaso,melhorqueuma
feminina-pessoal.Issodizrespeitoespecialmenteàsmulhe­
resquejáalcançaramumadeterminadaconscientizaçãoe
valoraçãodaquiloqueélógico-racional.
35

Chegamosaquiaumadiferençamuitoimportanteen­
treoproblemadoanimusdamulhereoproblemadaani­
madohomem,que,segundomeparece,mereceanossaaten­
ção.
Quandoohomemdescobresuaanimaetemdebrigar
comela,eleprecisaaceitaralgoqueparaeleatéentãotinha
poucovalor-nestecaso,nãofazmuitadiferençaqueafi­
guradaanima,sejaelaimagemoupessoa,ajademaneira
fascinante,atraente,eportantovaliosa.Muitasvezesofemi­
ninoemsiteveatéagoraemnossomundo,quandocompa­
radoaomasculino,ovalordealgoinferior,esomenteago­
racomeça-seasefazerjustiçaaele.Expressõescomo"ape­
nasumagarota"ou"umamoçanãofazumacoisadessas",
umcomportamentoqueorepresentacomodesprezívelein­
ferior,sãobastantecaracterísticos.Tambémnasnossasleis,
nasquaisatépoucotempoatráseemmuitoslugaresatého­
jeohomemdeclaradamenteprecedeamulher,temmaisdi­
reitos,éseututoretc.,essaconcepçãoerauniversalmente
dominante.Emconseqüência,ohomem,quandoestabelece
relaçõescomsuaanima,temigualmentequedescerdope­
destalemqueestá,temquevencerumaresistência,superar
seuorgulho,quandoelereconhece"asenhora",segundo
Spitteler,ou"she-that-must-be-obeyed",comoachamaRyder
Haggard.Comamulherédiferente.Nãosechamaoanimus
de"he-that-must-be-obeyed",antespelocontrário,poisins­
tintivamenteédemasiadoóbvioparaamulherobedeceràau­
toridadedoanimus,outambémdohomem,comsubserviên­
ciadeescrava.Aconcepçãodequeomasculinotememsi
maisvalorqueofemininoestáemseusangue,pormaisque
elaconscientementepensedeoutramaneira,econtribuimui­
toparaacentuaropoderdoanimus.Oquetemosquesupe­
raremrelaçãoaoanimusnãoéoorgulho,massimafalta
deautoconfiançaearesistênciadaindolência.Paranós,não
écomosetivéssemosquesubiramontanha(anãoserquan­
doseéidênticaaoanimus),mascomosetivéssemosquepro­
varnossovalor,oquefreqüentementerequercoragemoufor­
çadevontade.Paranósécomosefosseumapetulânciaquan-
36
doopomosnossasprópriasconvicçõesincompetentesaos
julgamentosdoanimusedohomem,quereivindicamvali­
dadeuniversal;emuitasvezesnãoépoucooquecustaani­
mar-seaumataligualdadeespiritualaparentementeatrevi­
da,poisaípode-sefacilmentesermalcompreendidaoujul­
gadaerradamente.Massemesseatodeinsurreição,ainda
quesetenhaquesofrerasconseqüências,amulhernunca
selibertarádopoderdotirano.Vistodefora,eleparecemui­
tasvezesserexatamenteocontrário,poiscomdemasiada
freqüênciasurgeumasegurançaarrogante,um
aplombque
nãoadmiteabsolutamentenada,enota-semenosatimidez
eafaltadeconvicçãoemsimesma.Naverdade,essaatitu­
deobstinadaeconfiante,ouatémesmocombativa,deveria
serconfrontadacomoanimuseàsvezesébemissooque
pretende,masemgeralelaéosinaldeumaidentidademais
oumenoscompleta.
NãosomossomentenósnaEuropaquesofremosdes­
secultoaoshomensquesemdúvidaaindasobrevive,oume­
lhor,dessasupervalorizaçãodomasculino.TambémnaAmé­
rica,ondesecostumafalardeumcultoàmulher,acoisano
fundonãoédiferente.Umamédicaamericanacomgrande
experiênciamedissequetodasassuaspacientessofremcom
ainferioridadedoprópriosexo,equeelaantesdemaisna­
daprecisavainsistircomtodasparaqueconcedessemaofe­
mininoovalorquelheédevido.
Emcontrapartida,sãopouquíssimososhomensquetêm
poucaconsideraçãoparacomoprópriosexo;aocontrário,
emgeralelesseorgulhamdele.Moçasquegostariamdeser
rapazeshámuitas,masumrapazquegostariadeseruma
meninaévistocomoalgoquasedepravado.
Apartirdesseestadodecoisas,oposicionamentoda
mulheremrelaçãoaoanimusresultanaturalmentemuito
diferentedoqueoposicionamentodohomememrelação
àanima.Emuitasmanifestaçõesligadasaisso,queohomem
nãopodecompreendercomoparalelasàsuavivênciadaanimae
vice-versa,devemseratribuídasaopontodevistadeque,sobes­
teaspecto,astarefasdohomemedamulhersãodiferentes.
37

Semdúvida,hásacrifíciostambémparaamulher.Pa­
raela,tornar-seconscientesignificaaperdadeumpoder
especificamentefeminino.Comasuainconsciênciaegraças
aelaamulherexerceumefeitomágicosobreohomem,uma
magiaquelheconferepodersobreele.Eporsentirissoins­
tintivamenteenãoquererperderessepoder,elamuitasve­
zesopõe-secomtenacidade
àconscientização,mesmoque
oespiritualcomotalpareça-lhealtamentedesejável.Muitas
mulheresmantêm-seporassimdizerartificialmenteincons­
cientessomenteparanãoterquefazeressesacrifício.Masé
precisodizer,noentanto,quenissomuitasvezesamulher
étambémcorroboradapelohomem,poismuitoshomens
encontramprazerexatamentenainconsciênciadamulher
ecolocamtodososobstáculospossíveisemseucaminhoru­
moaumamaiorconsciência,quepareceaelesincômodae
desnecessária.
Umoutropontoquecostumapassardespercebidoe
queeutambémgostariademencionaragoraestána
função
doanimusemrelaçãoàanima.Aconcepçãocorrenteéque
animuseanimasãoagentesmediadoresentreosconteúdos
inconscienteseaconsciência,ecomissoquer-sedizerque
ambostrabalhamexatamentedamesmamaneira.Issopro­
cededeumamaneirageral,masmepareceimportanteapon­
tartambémadiferençadepapéisdoanimusedaanima.O
papeldetransmitirconteúdosinconscientes,nosentidode
torná-Iosvisíveis,recaiacimadetudosobreaanima.Elaaju­
danapercepçãodecoisasquedeoutramaneirapermane­
cemnoescuro.Háumacondiçãopréviaparaisso:trata-se
deumaespéciedeescurecimentodaconsciência,portanto
dainstalaçãodeumaconsciênciamaisfeminina,queéme­
nospenetranteeclaraqueamasculina,masquenumâm­
bitomaisamplopercebecoisasaindavagas.Odomvisioná­
riodamulher,suacapacidadedeintuiçãoéconhecidohá
eras.Seusolhosmaisdesfocadospermitem-lhepressentir
oescuroeveroqueestáoculto.Essavisão,apercepçãoda­
quiloquenãopodeservistodeoutramaneira,torna-sepos­
sívelaohomematravésdaanima.
38
Noanimus,entretanto,atônicanãoseencontranaper­
cepçãopuraesimples-comofoidito,issojáfoiconcedido
aoespíritofemininodesdesempre-,massim,deacordo
comoserdologos,no
conhecimentoeespecialmentena
compreensão.Oqueoanimustematransmitirémaiso sen­
tido
quea imagem.
Seriaumerroacreditarquealguémempregouseuani­
musquandoessealguémabandona-seàsuafantasiapassiva.
Nãosedeveesquecerquedarcordaàsuaatividadedefan­
tasiaéanormaparaamulher,nãorepresentandoistoqual­
querrealização;acontecimentosouimagensirracionaiscu­
josentidonãosecompreendeparecemparaelaalgototal­
mentenatural,enquanto,paraohomem,lidarcomissoé
umarealização,significandoumaespéciedesacrifícioda
ratio,umsaltodaluzparaaescuridão,doclaroparao
opaco.Paraohomeméumesforçoadmitirquetodosos
conteúdosaparentementeincompreensíveisoumesmosem
sentidopoderiamtervalor;alémdisso,aposturapassiva,
exigidapelacontemplação,correspondenotodomenos
à
naturezaativadohomem.Paraamulherissonãoédifícil.
Elanãotemnenhumapremeditaçãocontraoirracional,não
temanecessidadedeimediatamenteencontrarumsentido
paratudo,nemaversãopelopassivosuportartudoisso.Pa­
raaquelasmulheresparaasquaisoinconscientenãoseabre
facilmente,queencontramdificuldadeemteracessoaseus
conteúdos,oanimuspodetornar-semaisumempecilhoque
umaajudaquandoqueranalisarecompreenderdeimediato
cadaimagemque.emergeantesmesmoqueelapudesseser
percebida.Oanimusdeveexibirsuagenuínaeficáciasomen­
tedepoisqueessesconteúdostiverempenetradonacons­
ciência,tendojátalvezatémesmotomadoforma.Nestemo­
mento,suaassistênciaéentãoinestimável,poiseleajudapa­
raquesechegueàcompreensãoeaosentido.
Épossível,entretanto,quealguémsejanotificadode
umsentidodiretamenteapartirdoinconsciente,deforma
quenãosãosímbolosouimagensqueseapresentam,mas
umconhecimentoprontoexpressoempalavras.Estaé,na
39

verdade,umamanifestaçãomuitocaracterísticadoanimus;
muitasvezesodifíciléapenasdescobrirsenocasosetrata
deumdossignificadosconhecidos,válidosuniversalmente,
eportantocoletivos,oudeumainteligênciareal,eportan­
tocondicionadaaoindivíduo.Paraqueissofiqueclaro,re­
quer-senovamenteapreciaçãocríticaconscienteeumadi­
ferenciaçãoclaraentreaprópriapessoaeoanimus.
2.ARepresentaçãodoAnimusatravésdasImagens
doInconsciente
Depoisdetertentadomostraratéaquicomooanimus
semanifestaparaoexteriorenaconsciência,eugostariaa
seguirdediscorrersobrecomoasimagensdoinconsciente
orepresentam,comoeleapareceemsonhosefantasias.Apren­
deraconhecerestaforma,mantercomelaconversasediscus­
sõesocasionais,sãoumimportantepassoadiantenocami­
nhoparaadiferenciação.Surgeaquiumanovadificuldade,
ondesetratadoreconhecimentodoanimuscomoimagem
oufigura.Estaconsisteemsua
multiplicidadedeformas.
Nósouvimosdehomensqueaanimaquasesempresurgecom
formasbastantedeterminadas,acontecendoissodeforma
maisoumenossemelhantecomtodososhomens:comomãe
ouamada,irmãoufilha,senhoraouescrava,sacerdotisaou
bruxa;comosrespectivossinaiscontraditórios,deumser
claroeescuro,prestimosoepernicioso,elevadoebaixo.
Namulher,pelocontrário,emergeouumaquantida­
dedehomens,umbandodepais,umconselhoouumtri­
bunalouaindaumaassembléiadehomenssábios,ouentão
umartistatransformistaquepodeassumirqualquerforma
equefazusoabundantedessacapacidade.
Esclareçoessadiferençaparamimmesmadaseguinte
maneira:ohomemtemaexperiênciadamulhernaverda­
deapenasnaspersonificaçõescitadasacima,comomulher
ouamante,irmãoufilha,senhoraouservidora,etc.;naver­
dade,portanto,sempredeumamaneiraqueserelacionacom
40
ele.Estassãoasformassobasquaissuaexistênciasedeu
desdesempre.Avidadohomem,aocontrário,assumiufor­
masvariadas,jáquesuatarefabiológicalhedeixoutempo
paramuitasoutrascoisas.Noqueserefereàsvariadasáreas
deatividadesmasculinas,oanimuspodesurgircomorepre­
sentanteoumestredequalquertipodepoderousaber.Éca­
racterísticodafiguradaanimaquetodasassuasformassejam
aomesmotempoformasderelacionamento.(Mesmoquan­
doelaaparececomosacerdotisaoubruxa,estaseencontra
sempreemumarelaçãoespecialcomohomem,cujaanima
elaincorpora,deformaqueelaoulheconfiaumsegredo
ouoenfeitiça.)Eumelembroda
ShedeRiderHaggard,onde
atémesmoarelaçãoespecialéapresentadacomomilenar.
Nafiguradoanimus,poroutrolado,tal
relaçãonão
temquesernecessariamenterepresentada.Deformacorres­
pondenteàorientaçãopráticadohomem,característicado
princípiodolagos,essafigurapodeaparecerdeformapu­
ramenteobjetivaeabsolutamentenãorelacionada,como
sábio,juiz,artista,piloto,mecânico,etc.Enãoéraroque
elasurjasimplesmentecomoo
estranho.Talvezjustamen­
teestaformasejaespecialmentecaracterística,poisparaa
almapuramentefemininaoespíritosignificao
estranho,o
desconhecido.
Parece-mequeacapacidadedeassumirformasdiver­
saséumapropriedadedoespíritoqueexpressaalgoseme­
lhanteàmobilidade,istoé,apropriedadedepercorrergran­
desdistânciasemumcurtoespaçodetempo,queopensa­
mentotememcomumcomaluzecomoqualoidealdo
pensamentodequefalamosacimaestárelacionado.Oani­
mus,portanto,aparecefreqüentementecomopiloto,mo­
torista,esquiadoroudançarino,quandojustamenteessale­
'vezaevelocidadedevemseracentuadas.Asduasproprie­
dades,a
capacidadedemetamorfose earapidez,'podemser
encontradasemmuitosmitosecontosdefadascomopro­
priedadesdeumdeusoudeummago:Wotan,senhordos
ventosechefedahordadosespíritos,queeujámencionei,
Loki,oflamejante,eMercúriocomossapatosaladosrepre-
41

sentamesteaspectodologos,quesemovimentacomviva­
::idade,imaterial,quedeumacertamaneiraéapenasdinâ­
micasempropriedadesfixasequeexpressapossibilidade
:leforma,sendoaomesmotempoumespírito,que"flutua
paraondequer".
Oanimussurgepersonificadoemsonhosefantasias
sobretudonaformadeumhomemreal:comopai,amante,
lrmão,professor,juiz,sábio,comomago,artista,filósofo,
erudito,engenheiro,monge,especialmentejesuíta,ouco­
mocomerciante,piloto,motoristaetc.etc.,emsuma,intei­
ramentecomoumhomemcaracterizadodealgumamanei­
raporcapacidadesespirituaisouporoutrasqualidadesmas­
culinas.Issopodeocorrernosentidopositivo,comopaipres­
tativoebemintencionado,comoamanteencantador,amigo
compreensivo,lídersuperior,ouentãocomotiranoviolen­
toesemconsideração,admoestador,pregadormoralejuiz
damoral,eentãonovamentecomosedutoreexplorador
efreqüentementetambém,atravésdeumamisturadeilu­
sionismointelectualequestionamentohumano,umfascinan­
tepseudo-herói.Eleétambémrepresentadoàsvezescomo
umrapaz,ofilhoouumjovemamigo,nestecasoquasesem­
prequandoocomponentemasculinodamulheréentendido
especialmentecomoemdesenvolvimento.Emmuitasmu­
lheres,comojáfoidito,eleaparecedepreferênciadeforma
múltipla,comoumconselhoquedecidesobretudooque
acontece,quetransmiteprescriçõeseproibiçõesouexpres­
saconcepçõesdevalidadeuniversal.13Seeleaparecemais
comoindivíduoquetrocademáscarasoucomomuitosao
mesmotempo,podedependerdasituaçãoemqueamulher
emquestãoseencontraeeventualmentetambémdafasede
desenvolvimentodomomento.Eunãopossotrataraquide
todasasvariadasformasdeapariçãopessoaisdoanimus,eme
contento,nestemomento,comumasériedesonhosefanta­
sias,emmostrarcomoeleseapresentaaoolhointerior,co­
moeleapareceàluzdomundodossonhos.Sãoexemplos
nosquaisocaráterarquetípicoestáespecialmentenítidoe
quecontêmaomesmotempoindíciosdeumdesenvolvimento.
Osurgimentodessasfigurasinstituiu-senamulherem
questãonumaépocaemqueaatividadeespiritualindepen­
dentetornou-seumproblemaeafiguradoanimuscomeçou
adesligar-sedapessoaemqueforaprojetada.
Surgiuentãoemsonhoummonstrocomcabeçadeave
cujocorpoeraconstituídoapenasdeumabolhaquepodia
assumiraformaquequisesse:delesabia-sequeantestinha
seapossadodohomemsobrequemoanimusforaprojeta­
do,equeeraprecisoocultar-sedele,poiselegostavadede­
vorarpessoas,masquenãoasmatava,precisandoelascon­
tinuaraviveremseuinterior.
Aformadebolhaindicaalgoqueaindaseencontranum
estágioinicial-somenteacabeça,comoórgãocaracterísti­
codoanimus,estádiferenciada,elogocomoacabeçadeum
seraéreo-,alémdissoqualquerformapodesurgir,eavora­
cidadeapontaparaumanecessidadedeexpansãoedesenvol­
vimentodessagrandezaaindaindiferenciada.Aproprieda­
dedavoracidadeéiluminadaporumprovérbioqueestáno
KandogyaUpanishad,quetratadanaturezadeBrahma:"O
ventoé,naverdade,oquearrebata,poisquandoofogose
apaga,eleentranovento,equandooSolsepõe,eleentra
novento,equandoaLuasepõe,elaentranovento,equan­
doaságuassecam,elasentramnovento,poisoventoarre­
bataatodoseles.
Éassimcomreferênciaàdivindade.
"Agoraemrelaçãoasimesmo.Arespiraçãoéaquear­
rebata,poisquandosedorme,entãoaconversaentranares­
piração,narespiraçãooolho,narespiraçãooouvido,nares­
piraçãoomanas,poisarespiraçãoarrebataatodoseles.Es­
tesdoissão,portanto,osdoisarrebatadores.Oventoentre
osdeuses,arespiraçãoentreasbrisasdavida.
"14
AoladodesseserdeArcomcabeçadepássarosurge
umaespéciedeespíritodofogo',umserelementar,consti­
tuídoapenasdechamasequeseencontraemconstantemo­
vimento,equeéchamadodefilhoda"mãeinferior".Esta
figuramaterna,emvezdeumamãecelesteeluminosa,in­
corporaofemininoprimordialcomopesado,ligadoàter­
ra,versadoemmagia,umpoderàsvezesprestativo,àsvezes
43

sinistrocomoumabruxaemuitasvezesatémesmodestru­
tivo.Seufilhoseria,portanto,umespíritodofogotelúrico,
quelembraoLogiouLokidamitologianórdica,oqual(se­
gundoGrimm)érepresentadoporumgigantedotadodepo­
dercriativo,mastambémaomesmotempocomoumvilão
astutoesedutor,doqualsurgiuposteriormenteodemônio
cristão.Namitologiagrega,elecorrespondeaHefestos,o
deusdofogoterrestre,masqueemsuaatividadedeferrei­
roapontaparaumfogodomesticado,enquantonoLoginór­
dicoestáincorporadamaisaforçadanaturezaelementar,·
semdireção.Comofilhodamãeinferior,esteespíritodo
fogoterrestreestápróximodamulhereéseuconhecido.
Elesemanifestademaneirapositivaematividadespráticas,
sobretudonamanipulaçãodamatériaetambémemsuaela­
boraçãoartística,edemaneiranegativaemestadosdeten­
sãoouemexplosõesdeafeto,emuitasvezesdeumamanei­
raduvidosaefatalcomoaliadodofemininoprimordial,co­
moinstigadorouenergiaauxiliardaquiloquegeralmenteé
conhecidosobadenominaçãode"artediabólica"edefei­
tiçofeminino.Seriapossívelcaracterizá-Iocomologosbai­
xoouinferior,emoposiçãoaumlogossuperior,elevado,
queestáesboçadonoserdeArcomcabeçadeaveecorres­
pondeaodeusdoventoeaoespíritoWotanouaoguiade
almas,Hermes,damitologia,quenãodescendemdamãe
inferior,pertencendosimaumpaidistanteedesconhecido.
Omotivodamudançadeformaretomaemumsonho
subseqüente,ondeémostradaumaimagemcomotítulo
"Vr­
go,odragãomágico".Nelaestárepresentadoumserseme­
lhanteaumaserpenteouumdragãocomumameninaque
seencontraemseupoder.Odragãotemacapacidadedese
expandiremtodasasdireções,deformaqueameninanão
temnenhumapossibilidadedeescapardoalcancedomons­
tro,jáqueaqualquermovimentodameninaeleseestica
paraoladocorrespondenteimpossibilitandoassimafuga.
Ameninaéumafiguraquesempreserepeteemtodos
estessonhosefantasias,quepodeserconcebidacomoalma
maisoumenosnosentidodeindividualidadeinconsciente.
44
Nanossaimagemonírica,elaestáapenasesboçadacomouma
sombra,comtraçosfaciaisirreconhecíveis,masaindaassim
totalmenteempoderdodragão.Cadaumdeseusmovimen­
toséobservadoemedidoporele.Nãopareceserpossível
livrar-sedessasituação.
Mostra-senoentantoumdesenvolvimentodosonho
naseguintefantasia:umartistamágicoexibesuasbailarinas
paraumpríncipeindiano.Estas,hipnotizadaspelomago,
dançamumadançademetamorfoses,emqueelas,tirando
umvéuapósoutroemcoloridaalternância,simulamoraani­
mais,orapessoas.Mas,apesardeestaremhipnotizadaspelo
mago,opríncipeexerceumefeitomisteriososobreelas.En­
trandomaisemaisemêxtaseenãoprestandomaisatenção
àsordensdomagoparaqueparemdedançar,elascontinuam
dançandoatéque,finalmente,comoumúltimovéu,elasse
livramdeseuinvólucrocorpóreoecaemaochãocomoes­
queletos.Osrestossãoenterrados,dotúmulocresceuma
floredestasurgenovamenteumamulherbranca.
Trata-sedomesmomotivo:ameninaempoderdoma­
go,cujasordenselatemdeobedecerpornãoteroutraop­
ção.Nafiguradorei,entretanto,surgeumadversáriodoma­
go,queimpõelimitesaoseupodersobreameninaeatua
comoseesta,emvezdeagirsobordens,comoantes,dan­
çasseapartirdeentãoporsimesma.Agoraametamorfose,
antesapenasrepresentada,torna-serealidade,emqueabai­
larinamorreetornaaaparecerdaterrasobumaformamo­
dificadaetransfigurada.
Aquiédeespecialimportânciaaduplicaçãodafigura
doanimus,queporumladoaparececomomagoeporou­
trocomopríncipe.Nomagoestárepresentadoopodermá­
gico.possuídopelaformainferiordoanimus,quelevaame­
ninaaassumirformasdiferentesoumudardeforma,enquan­
toopríncipe,comojádizaprópriapalavra,incorporaum
princípiosuperior,queefetuaumametamorfoseverdadeira
enãoapenasrepresentada.Guiareacompanharmudançase
transformaçõesdaalmacomoumverdadeiropsichopompoé
umafunçãoimportantedoanimussuperior,istoé,suprapessoal.
45

osonhoseguintedáumaoutravariaçãodomesmote­
ma:ameninatemumamadofantástico,quemoranaLua
equecadavezvemnobarcodaLuaNovaparareceberum
sacrifíciodesangue,queameninalheleva.Noentretempo,
ameninavivelivrecomoumapessoaentrepessoas,masquan­
doaLuaNovaseaproximaoespíritoatransformanumani­
malferoze,seguindoumimpulsoirresistível,elaprecisasu­
biraaltitudessolitáriaseláoferecerosacrifícioaoseuama­
do.MasoespíritodaLuatransformaestaoferenda,defor­
maqueessemesmoespíritosetornaoanimaldosacrifício,
quedevoraasimesmoeserenova,transformando-seosan­
guederramadonumaestruturasemelhanteaumvegetal,em
quenascemfloresefolhasmulticoloridas.
Emoutraspalavras:atravésdosanguerecebido,istoé,
dalibidoquefluiparaele,oprincípioespiritualperdeoca­
ráterperigosamenteurgenteedestrutivoetorna-seumavi­
daprópria,umaatividadeemsi.
OmesmoprincípioapareceaindacomooBarbaAzul,
umabemconhecidaformadoanimusretiradadaliteratura,
istoé,dohomemqueseduzmulherese,demaneiramiste­
riosaecomintençõestambémmisteriosas,asmata.
Nonossocaso,elecaracteristicamentetemonomede
Amandus.Eleatraiameninaàsuacasa,dá-lhevinhopara
beberedepoisalevaaumaposentosubterrâneoparama­
tá-Ia.Quandoelesepreparaparafazê-Ia,ameninaétoma­
daporumaespéciedeembriaguez.Numsúbitocapricho
deamor,elaabraçaoassassino,queéassimimediatamen­
tedestituídodetodooseupoder,e,comapromessadeno
futuroficaraoseuladocomoespíritoprestativo,dissolve-se
noar.
Assimcomoaurgênciaespiritualdonoivolunardesa­
parececomosacrifíciodesangue,aquiseupoderédestruí­
dopeloamor,peloabraçodadonotemidomonstro.
Vejonessasfantasiasindíciosdeumaimportantefor­
mademanifestaçãoarquetípicadoanimus,paraasquaiste­
mosigualmenteparalelosmitológicos,ejustamentenomi­
toecultodeDioniso.
46
Oentusiasmoextáticodequeeramtomadasasdança­
rinasdanossaprimeirafantasia,equeésuperadopelame­
ninanahistóriadoBarbaAzul-Amandus,éumaaparição
característicadocultodionisíaco.Nelesãoprincipalmente
mulheresqueservemaodeusequesãotomadaspeloseu
espírito.Roscher
1SsalientasercaracterísticoqueDioniso
sejaservidopormulheres,divergindodapráticausualem
queodeuséatendidoporpessoasdeseuprópriosexo.
NahistóriadoespíritodaLua,énaoferendadesan­
gueenatransformaçãodameninanumanimalquepodem
serencontradosparaleloscomocultodeDioniso.Neste,
animaisvivoseramsacrificadosoudestroçadospelasmulhe­
resenfurecidas,nesteúltimocasoumdelírioselvageminfli­
gidopelodeus.Asfestasdionisíacasdiferenciam-setambém
docultoaosdeusesolímpicospelofatodequeocorriamà
noiteemmontanhaseflorestas,comoosanguederramado
aoespíritodaLuaemnossafantasiatemdeocorrerànoi­
teemumamontanha.
Nessecontexto,deve-semencionaraindaalgumasfi­
gurasliteráriasbemconhecidas,comoporexemploadoHo­
landêsVoador,ocaçadorderatosdeHamelin,oaguadei­
rooureidoselfosdascançõespopulares,quecomsuasme­
lodiasatraíammoçasaseusreinosaquáticosounafloresta.
Também"oestranho"na"MulherdoLago"deIbsenéuma
dessasfigurasemversãomoderna.
Afiguradocaçadorderatosdeveserobservadamais
depertocomorepresentantecaracterísticodestaformado
animus.Ahistóriadocaçadorderatoséconhecida:comsua
melodia,eleatrairatosdetodososcantos,detalformaque
elestêmquesegui-Ia;masnãosomenteosratos,também
ascriançasdacidade,quenãoquisgratificá-Iaporseus
serviços,sãoirresistivelmenteatraídasporele,quefazcom
quedesapareçamemsuamontanha.Pensa-seaíemOrfeu,
quetocavasualiradeformatãoprodigiosaquehomense
animaistinhamdesegui-Ia.Esteseratraídoirresistivelmen­
teeserlevadoaalgumlugardistantedesconhecido,água,
floresta,umamontanha,é,segundomeparece,umfenôme-
47

nodeanimustípico,aindaquedifícildeseresclarecido,já
queele,aocontráriodasoutrasnaturezasdoanimus,não
leva
àconsciência,masaoinconsciente,comodeixaentre­
verodesaparecimentonanaturezaounomundoinferior.
OespinhodesonodeOdinfazpartedomesmofenômeno;
quandoalguémeratocadoporele,mergulhavanumsonho
profundo.
Napeçadeteatroinglesa"Mary-Rose",deJamesM.
Barrie,estemotivoestárepresentadodeformabastanteim­
pressionante:Mary-Roseacompanhouseumaridoaumapes­
caria.Emumapequenailha,chamadadetheislandthatwants
tobevisited,eladeveesperá-Io.Enquantoespera,elaouve
chamarempeloseunome,segueavozedesapareceparanun­
camaisvoltar.Vinteanosdepoiselaretoma,exatamente
comoeraantes,quandohaviadesaparecido,eacreditando
terpassadoapenasalgumashorasnailha,quandoevidente­
menteforamanos.
Oqueestáilustradoporessedesaparecimentonana­
turezaounomundoinferior,ouemsertocadopeloespinho
dosono,manifesta-senavidaquotidianaemque,comose
irresistivelmenteatraídadealgumlugar,alibidodesaparece
daconsciênciaedosusosdavidaindoparaumoutromun­
do,emgeraltotalmentedesconhecido.Omundonoqual
sedesaparecenestescasosouéummundodefantasiaou
decontosdefadasmaisoumenosconsciente,noqualascoi­
sassãocomosedeseja,ouentãoestáestruturadocomoum
refúgioparacompensarasagrurasdomundoexterior.Mas
muitasvezesdescobre-setambémnesteslugaresdistantes
eprofundosquenadaquepertençaaelepenetranaconsciên­
ciaemvigília,etambémquedepoisquesevoltaasinãose
podedizeroqueaconteceunesseentretempo.
Sesequisessecaracterizarmaisprecisamenteotipode
espíritoqueatuanessasaparições,poder-se-iacompará-Io
aoespíritodamúsica.Aatraçãoeoarrebatamentosãotam­
bémcommuitafreqüência,comonocasodahistóriadoca­
çadorderatos,efetuadosatravésdamúsica.Amúsica,por­
tanto,podeserentendidacomoumaobjetivaçãodoespírito,
I
F quenemexpressaconhecimentonosentidousual,lógico-in­
telectual,nemserealizamaterialmente,massignificauma
representaçãomanifestadoscontextosmaisprofundoseda
maisinabalávelregularidade.Nestesentido,amúsicaéespí­
rito,eespíritoquelevaalugaresescuroseremotos,nãomais
acessíveis
àconsciência,ecujosconteúdospraticamentenão
podemmaisserconcebidoscompalavras-massimatra­
vésdenúmeros,porestranhoquepareça-etambémao
mesmotempoesobretudoatravésdesentimentoesensibi­
lidade.Estefatoaparentementeparadoxalmostraqueamú­
sicatemcondiçõesdepermitiroacessoaprofundezasonde
oespíritoeanaturezasãoaindaounovamenteum,epor
issoelaseconstituinumadasformasprincipaisemaispri­
mitivasnaqualamulherviveoespíritodemodoabsoluto.
Daítambémoimportantepapelqueadançaeamúsicaco­
moformasdeexpressãorepresentamparaamulher.Adan­
çaritualestáclaramentebaseadaemconteúdosespirituais.
Oarrebatamentoparaessasregiõescósmico-musicaisdistan­
tesdaconsciência,queéobradesseespírito,constituiuma
contrapartida
àmentalidadeconscientedamulher,voltada
poroutroladoparaoqueestámaispróximoeparaomais
pessoal.Masdeformaalgumatrata-sedeumaexperiência
inofensiva,aindainequívocapois,porumlado,elapodesig­
nificarsimplesmentetornar-seinconsciente,oquenãopas­
sadeummergulhonumaespéciedeestadodesono,crepus­
cular,umretrocesso
ànatureza,queequivaleaumaregres­
sãoaumnívelinconscienteanteriorequeporissonãotem
valor,podendoseratémesmoperigoso.Poroutrolado,no
entanto,elepodesignificarumaexperiênciareligiosagenuí­
na,tendoentãonaturalmenteumvalorinestimável.
Alémdasfigurasmencionadas,quemostramoanimus
emumaspectosinistro,perigoso,háaindaumafigurade
outrotipo:nocasoquesesegueéumanjocomcabeçade
pedraqueabrigaemsuamãoumpássaroazul,opássaroda
alma.Essafunção,adeprotetordaalma,vemnovamente
aoencontrodaqueladoguiadealmas,aformadoanimus
superior,transpessoal.Estaformasuperiordoanimustam-

bémnãosedeixatransformaremumafunçãosubordinada
àconsciência,permanecendoumagrandezasobrepostaque
querserreconhecidaerespeitadacomotal.Nafantasiadas
dançarinasacimamencionadaesteprincípiomasculino-espi­
ritualsuperiorestáincorporadonafiguradopríncipe.Tra­
ta-se,portanto,deumsoberano,nãonosentidodeumma­
go,masnosentidodeumespíritosuperior,quenãotrazem
sinadadetelúricoenoturno,equenãoéfilhodamãein­
ferior,masorepresentante,oenviadodeumpaidistantee
desconhecido,umpoderluminososuprapessoal.
Todasestasfigurastêmocaráterde
arquétipos16(daí
osparalelosmitológicos)esãoconseqüentementemaisim­
pessoaisousuprapessoaismesmoque,aindaquetambémes­
tejamvoltadosparaumladodoindivíduoeestejamemre­
laçãocomele.Alémdeles,surgetambémoanimuspessoal
oupertencenteaoindivíduo,istoé,aquiloqueémasculino
ouespiritualquecorrespondeàprópriaaptidãodamulher
quesedesenvolvenumafunçãoouatitudeconscienteque
podeserclassificadonotododapersonalidade,nosonho
comoumhomemligadoàquesonha,sejaporlaçosdesen­
timentooudesangue,sejaporalgumaatividade.Pode-se
reconheceraqui,novamente,asformas"superior"e"infe­
rior",respectivamentecomcaracterísticaspositivasoune­
gativas.Àsvezeseleéumamigoouirmãohámuitoprocu­
radoouesperado,umprofessorqueainstrui,umsacerdo­
tequeexecutacomelaumadançaritualouumpintorque
deveretratá-Ia.Eentãonovamenteumtrabalhadorchama­
do"Ernst"*vemmoraremsuacasa,eumascensoristacha­
mado"Constantin"entraaseuserviço.Àsvezeselatem
queseatercomumrapazinhomalcriadoerebelde,tem
quetercuidadocomumjesuítatenebrosooucomercian­
tesmefistofélicosencomendam-lhetodotipodecoisasmag­
níficas.
Umserindependente,masqueapenasraramenteemer-
ge,éafigurado"Estranho".Emgeral,apesardesuaestra-
*
ernst=sério(N.T.).
50
nheza,esteconhecidodesconhecidotrazumamensagemou
umaordemcomoenviadododistantepríncipedaluz.
Comotempo,asfigurasaquidescritastornam-sefor­
masconfiáveis,comoéocasocompessoasdomundoex­
teriordequemseestápróximoouaquemseencontracom
freqüência,eaprende-seacompreenderporquecadavezapa­
receumaououtra.Pode-seconversarcomeles,recorreraos
seusconselhosouàsuaajuda,tendo-seentretantofreqüen­
tementedesedefenderdesuasintervençõesinoportunase
desezangarcomsuarebeldia.Edeve-seestarsempremui­
tovigilanteparaqueessasformasdeapariçãodoanimusnão
tentemtomaropoderedominarapersonalidade.
Adiferenciaçãoentresimesmoeoanimuseanítida
delimitaçãodeseuâmbitodepodersãodeextraordinária
importância;poissomenteporestemeiotorna-sepossível
livrar-sedesuaidentificaçãoepossessãocomsuasconseqüên­
ciasfunestas.Aconscientizaçãoerealizaçãodopróprio
seI!
caminhademãosdadascomestadiferenciação,quesetorna
daíparadianteumainstânciadecisiva.
Atéondeoanimuséumagrandezasuperindividual,
istoé,umespíritouniversal,quepoderelacionar-seconos­
cocomoguiadealmasegênioprestativomasnãopodetor­
nar-sesubordinadoànossaconsciência.Masacoisaédife­
rentecomaqueleserquequerseracolhidocomoirmão,ami­
go,filhoouservidor.Aele,porseulado,correspondeata­
refadeconseguirumlugaremnossavidaeemnossaperso­
nalidadee,comaenergiaquelheéinata,iniciaralgo.
Namaioriadasvezes,disposiçõescomo,porexemplo,
denossospassatempos,jáderamindicaçõesdadireçãoem
queestaenergiapodeatuar.Eentãotambémossonhosmui­
tasvezesmostramcaminhos.Segundoascaracterísticasindi­
viduaisdecadaum,serãoestudos,livros,determinadasdis­
ciplinasetc.,oualgumaatividadeartísticaoudeorganização.
Masserásempreumtipodeatividadefactualobjetiva,cor­
respondenteaosermasculinoqueoanimusrepresenta.A
disposiçãoaquinecessáriadesequererfazeralgumacoisa
enãodequererumapessoaépenosonamulheremuitas
51

vezessópodeseralcançadacomesforço.Maselaéjustamen­
tedeespecialimportância,poiscasocontrárioasexigências
aqueoanimustemdireitoequecorrespondemàsuaíndo­
lebrotamemoutroslugarese,comafalsaobjetividadejá
mencionada,estendem-separaondenãopodemserutiliza­
das,agindo,pelocontrário,damaneiraerrada.
Comexceçãodeatividadesespecíficasdessetipo,o
animuspodeedeveajudartambémnoconhecimentoenum
mododeverascoisasesituaçõesimpessoal,objetivoeracio­
nal,issodeumamaneirageral,oqueparaamulher,com
seuinteresseautomáticoemuitasvezesdemasiadosubjeti­
vo,significaumaaquisiçãovaliosaequelheémuitoútiltam­
bémemsuaáreadeatuaçãomaisprópria,adasrelações.As­
sim,porexemplo,esseseucomponentemasculinoaajuda
acompreenderohomeme-istoéespecialmentesalienta­
doaqui-oanimus,atuandodemaneiraautônomacomsua
inapropriada"objetividade",oquetantoperturbaasre­
laçõeshumanas,émuitoimportantetambémjustamente
pelasuaprosperidade,pelacapacidadedecolocar-sedemo­
doimpessoaleobjetivo.
Contudo,nãoéapenasnas
atividadesespirituais oumas­
culinasqueaenergiadoanimuspodeagir;elasobretudopos­
sibilitatambémaformaçãodeuma
atitudeespiritual, que
libertadalimitaçãoeacanhamentonaquiloqueéintimamen­
tepessoal.Queconfiança,queajudaeleproporcionaquan­
do,pornecessidadespessoais,queremoselevar-nosapensa­
mentosesentimentossuprapessoais,parecendoopróprio
sofrimentomesquinhoefútilquandocomparadoaeles!
Parasealcançartalatitudeepodercumprirastarefas
queseapresentaménecessáriosobretudodisciplina,quepa­
raamulher,comseuseraindamuitoligadoànatureza,é
bastantemaisdifícilqueparaohomem.Correspondentemen­
te,oanimusétambémumespíritoquenãosedeixaatrelar
aumacarroçacomoumcavalomanso;comdemasiadafre­
qüênciaeletemocaráterdeumserelementarqueouper­
manecenumaletargiaplúmbeaouperturbaeconfundecom
suaexuberânciaflamejanteouentãonoslevaconsigovoan-
52
docomovento.Aquiénecessanaumacondutarigorosae
implacável,quedomaoqueévolúvelesemdireçãoefor­
çaàobediênciaeaotrabalhoconseqüente.
Dequalquerforma,paraagrandepartedasmulheres
atuaisocaminhoéoutro,asaber,paraaquelasqueseacos­
tumaramàdisciplinaeaumaatitudeobjetivaatravésdeum
cursosuperior,deumaatividadeartística,deorganização
oualgumaoutraatividadeprofissionalantesmesmoqueo
problemadoanimuscomotalsetornasseconscientepara
elas.Comaaptidãocorrespondente,issoébastantepossí­
velemrazãodeumaidentificaçãocomoanimus.Masaté
ondeeupudever,parataismulheressermulhernumaati­
vidadeprofissionalbem-sucedidaacabaconstituindo-seum
problema.Emgeralnaformadeinsatisfação,danecessida­
dedevalorespessoaisenãomeramentefactuais,denature­
zaefeminilidadeemgeral;muitasvezestambémdeforma
queelaseenvolveemrelaçõesdifíceissemquerer,oupor
acasooudestinocaiemsituaçõestipicamentefemininasnas
quaiselanãosabequeatitudetomar.Demaneirasemelhan­
teaohomememrelação
àanima,tambémamulhersede­
paracomadificuldadedesacrificarumacondiçãohumana
decertomodosuperior,umaformaqualquerdesuperiori­
dade,precisandoaceitarumaqueémenosvalorizada,ade
fraca,passiva,semobjetividadeeilógica,ligadaànatureza,
emsuma,feminina.Mas,emúltimainstância,osdiversos
caminhosalmejamomesmoalvo,esejaqualforoescolhi­
do,osperigosedificuldadessãoosmesmos.Tambémaque­
lamulherparaquemodesenvolvimentoespiritualeaativi­
dadeobjetivaestãoemsegundoplano,depara-secomope­
rigodeserengolidapeloanimus,oqueequivaleatornar-se
idênticaaele.Porisso,édamaiorimportânciaquesete­
nhaumcontrapesoquepossamanteropoderdoinconscien­
teemxequeequemantenhaoeuligado
àterrae àvida.Nós
oencontramos,emprimeirolugar,atravésdeumacrescente
conscientizaçãoedeumconstanteefortalecidosentimen­
todaprópriaindividualidade;emsegundolugar,atravésde
umtrabalhonoqualasenergiasespirituaispossamserapli-
53

cadase,emterceiro- lastnotleast- narelaçãocomou­
traspessoas,queconstituioapoioeopontodeorientação
dohumanodiantedosobre-humanooudoextra-humano
doanirnus.Aquia
relaçãodemulherparamulher também
assumegrandesignificado.Pudeobservarcomomuitasmu­
lheres,paralelamenteaoproblemadoanirnusquesetorna­
vaagudo,começavamaseinteressarcadavezmaispormu­
lheresesentiamqueorelacionamentocommulherestorna­
va-seumanecessidadesemprecrescente.Talvezestesejao
começodasolidariedadefeminina,cujafaltaétãosentida,
equesomentesetornarápossívelatravésdaconscientiza­
çãodeumperigopresenteparatodas.Aprenderavalorizar
eacentuarosvaloresfemininoséacondiçãopréviaparaque
nóscomo
nósmesmas possamosresistiraopoderosoprin­
cípiomasculinoemseusdoisaspectos,internoeexterno,
quequandoconsegueodomínioabsolutoameaçaocampo
primordialmenteprópriodamulher,aáreaemqueelapo­
deproduziroquetemdemaispróprioemelhor,colocan­
doemperigosuaprópriavida.
Quandoseconseguesediferenciardoanirnuseseafir­
maremrelaçãoaele,emvezdesedeixardevorarporele,
entãoeledeixaráderepresentarapenasumperigÇ>,tornan­
do-seaocontrárioumaenergiacriativa;enósprecisamos
delapois,pormaisestranhoqueissopossaparecer,somen­
teincorporandoessesermasculinodaalma,paraqueeleaí
exerçaafunçãoquelhecabe,serápossívelserrealmentemu­
lhernoseusentidomaiselevadoe,jáqueaomesmotempo
somosautênticas,tambémcumprirnossoprópriodestino
humano.
54
AANIMACOMOSERNATURAL
[Publicadoem:StudienzurAnalytischenPsychologieC.G.Jungs.Publi­
caçãocomemorativaao809aniversáriodeC.G.Jung.Vol.11:BeitrãgezurKul­
turgeschichte.PublicadopeloInstitutoC.G.Jung,Zurique,Rascher,Zurique
1955.]

Arepresentaçãodossereselementaresquehabitama
água,oar,aterra,ofogo,osanimaiseasplantas
éantiquís­
simaedifundidaemtodooplaneta,comotestemunhama
mitologiaeoscontosdefadas,ofolcloreeapoesia.Estes
nãoapenasapresentamumasurpreendentesemelhançaen­
tresimastambémcomasfigurasdossonhosefantasiasdo
homemmoderno;conclui-sedaíqueessasrepresentações
devemterporbasefatoresmaisoumenosconstantespara
queseexpressemsempreeportodapartedemaneiraseme­
lhante.
Comodemonstrouapesquisadapsicologiaprofunda,
asimagensefigurasquegeramacapacidadedapsiquede
criarespontaneamentemitosatuantesdeveserentendida
nãoapenascomocópiasetransposiçõesdeapariçõesexter­
nas,mastambémcomoexpressãoderealidadespsíquicas
internas,de·formaqueelaspossamservistascomoumaes­
péciedeauto-representaçãodapsique.Énatural,portanto,
queseapliqueestepontodevistaàsrepresentaçõesmencio­
nadasacima.Aseguir,investigaremosseecomoafigurada
animaseencaixanisso.Nãomeépossívelexporaquium
panoramacompletodoassunto;euapenasintroduzoalguns
exemplostípicos,emesmoassimsóexaminarei'maisporme­
norizadamenteaquelascaracterísticasquepareceremmais
importantesparaomeuquestionamento.Dosincontáveis
seresdanatureza,taiscomogigantes,anões,elfosetc.,eu
sóleveiemconsideraçãoalgumasdevidoaoseusexofemi­
ninoeque,estandorelacionadascomumhomem,podiam
serconsideradaspersonificaçõesdaanima.Sabe-sequeesta
representaocomponentefemininodapersonalidadedoho­
mem,masaomesmotempoaimagemdoserfemininoque
estedemodogeraltrazemsi;emoutraspalavras,oarquéti­
podofeminino.
57

Éprecisoquesejapossívelreconhecertraçosnitidamen­
tefemininosnasformasemqueafiguradaanimapodeser
considerada.Aestasdedicaremosespecialatençãonaespe­
rançade,atravésdelas,atingirumavisãoaprofundadadana­
turezadaanima.Dentretodosossereslevadosemcontapa­
ratalconsideração,osmaisapropriadossãoaquelesconhe­
cidosdeváriaslendasecontosdefadas,taiscomoninfas,
virgenstransformadasemcisnes,ondinasefadas.Normal­
mente,elassãodeumabelezaarrebatadora,masapenasmeio­
-humanas,tendoumrabodepeixe,comoassereias,oume­
tamorfoseando-seemave,comoasquesetransformamem
cisnes.Freqüentementeelassurgemd~formamúltipla,es­
pecialmenteemnúmerodetrês,assimcomooanimusindi­
ferenciadotambémgostadeaparecerdeformamúltipla.
Estesseres,ouporseremprovocantesoupeloseucan­
to,atraemohomemaseureino(sereias,Loreley,etc.),on­
deeledesapareceparasempre;ouentão,.oqueéumtraço
muitosignificativo,elasprocuramprenderohomempelo
amorparavivercomeleemseumundo.Maselassemprees­
tãoligadasaalgosinistro,aumtabuquenãopodeserultra­
passado.
Umafiguraprimordial,quasemísticaasermencionada
éadavirgemquesetransformaemcisne.Elagozadegran­
deantiguidadeeestádifundidaemtodoomundo.Muito
provavelmente,aversãoliteráriamaisantigadestemotivo
éanarraçãodo
PururavasedoUrvasi,transmitidaporum
dosmaisantigostextosvédicos,o
Rg-Veda, 1edeformamais
extensaeclarano
Satapathabrâmana,2queeureproduzo
aquideformaalgoabreviada:
Aninfa(Apsaras)3UrvasiamavaPururavas.Elacasou-se
comelesobacondiçãodequeeleaabraçassetrêsvezespor
dia,masnuncativesserelaçõescomelacontrasuavontade
ejamaisaparecessenudiantedela.Depoisdetervividocom
elemuitosanoselaficougrávida.Entãoosgandarvosacha­
ramqueUrvasijáhaviapermanecidoportemposuficiente
entreoshomensepuseram-seapensarnumamaneiradepro­
vocarseuretorno.Ora,haviaumaovelhacomdoisfilhotes
58
presaaoleitodeUrvasi;osgandarvosroubaram-nosdurante
anoite."Elesroubaramosmeusqueridos",queixou-seela,
··comosenãohouvesseumhomemouumheróiameula­
do!"QuandoPururavasouviuisso,puloudacamanucomo
estavaparaperseguirosladrões.Nesseinstanteosgandar­
vosproduziramumraio,deformaqueUrvasiviuseumari­
docomosefossediaclaro.Comisso,portanto,umadas
condiçõesestabelecidasporelafoidesobedecida,eemcon­
seqüência,quandoPururavasretomou,elahaviadesaparecido.
Desesperado,elepassouapercorreropaísnaesperan­
çadereencontrarUrvasÍ.Umdiaelechegouaumlagodeló­
tusnoqualavesaquáticasnadavam.Tratava-seentretanto
deApsaras,eaquelaqueeleprocuravaencontrava-seentre
elas.AoverPururava,elasemostrouaeleemformahuma­
na;eleentãoareconheceueimplorou-lheparaquelhefalas­
se:"Fique,cruel,econversemos.Segredosnãoreveladosnão
nostrarãoalegriaalguma."Elarespondeu:"Oquetenho
euparaconversarcomvocê?Eumedesvanecicomoaau­
roraesoutãodifícildeagarrarcomoovento.Voltepara
casa,Pururavas;vocênãofeznadadoqueeumandei;para
vocêeusoumuitodifícildeagarrar,volteparacasa."Puru­
ravas:"Entãoseuamigoiráembora,paralongeeparanun­
camaisvoltar;elesaltaráparaamorte,ouoslobosselvagens
odevorarão."Urvasi,aisso:"Nãotenhapressa,nãomorra,
nãodeixequeoslobosselvagensodevorem.Nãofiquetão
preocupado!Nãoexistenenhumtipodeamizadecommu­
lheres,seuscoraçõessãocomoosdashiena~.Nãofiqueper­
turbadoevolteparacasa.Enquantocaminheientreosmor­
tais,eucomiadiariamenteumpouquinhodegordurados
sacrifícios,eagoraeuestoucheia."
Elaentretantotevecompaixãoedisseaelequeretor­
nasseemumano.Entãoelaseriadeleporumanoite,een­
tãotambémnasceriaoseufilho.Quando,d,ecorridoopra­
zoestabelecido,elevoltouaomesmolugar,havialáumpa­
láciodourado.Ordenaram-lhequeentrasse,esuaesposafoi
levadaatéele.Namanhãseguinte,osgandarvospermitiram-lhe
concretizarumdesejoe,seguindooconselhodeUrvasi,ele
59

pediupermissãoparatornar-seumdeles,oquelhefoicon­
cedido.Paraqueissopudesseacontecer,eleteriaantesque
trazerumaoferenda.Paraestefimosgandarvoslhederam
umapanelacomfogo.Eleatomou,etambémaseufilho,
quenoentretempohavianascido,levando-oàsuaaldeia.
Eleentãosaiuembuscadamadeiraapropriadaparaofogo
sacrificiale,depoisdetê-Ioacendidosegundoamaneirapres­
critapelosgandarvos,tornou-seumdeles.
Estalendaantiquíssimajádenunciaalgunstraçostípi­
cos,queserepetemtambémnasversõesposterioressurgi­
dasemoutroslugares.Umdessestraçoséquealigaçãocom
umdessesseresestáatadaaumacondiçãoespecífica,cujo
nãocumprimentotemconseqüênciasfatais.Adenossanar­
rativaéadequePururavanãopodiaservistonuporUrvasi.
Proibiçãosemelhantepodeserencontradanafamosahistória
deAmorePsiquê,4sóqueláéaocontrário,jáqueéaPsi­
quêqueavisãodeseumarido
divinoestáproibida,enquan­
toUrvasinãoquervero
homemPururavanu,istoé,como
eleé.Adesobediênciaàproibição,aindaquenãointencio­
nal,temporconseqüênciaoretornodaninfaaoseuelemen­
to.Quandoeladizqueestácheiadapoucagordurasacrifi­
cialqueelacomeuduranteotempoemqueestevecomPu­
rurava,parecequererdizercomissoquearealidadehuma­
nanãoaagrada,equandoretomaaseumundotraztambém
omaridoatrásdesi.Fala-seentretantodeumfilho,quea
desaparecidaUrvasideuàluz,equePururavalevaparacasa,
deformaqueaparentementedesualigaçãocriou-sealgoque
temseulugarnoâmbitohumano,masnãoseficasabendo
nadamaisarespeito.5
NarelaçãoentrePururavaeaninfacelestechamaespe­
cialmenteaatençãoadiferençadeseucomportamento:en­
quantoelesequeixadaperdada·amadacomsentimentos
humanos,pro,;;uraencontrá-Ianovamente,querfalarcom
ela,pelaspalavrasdelafalaoserdanatureza,semalma,quejul­
gaasimesmoquandodizqueasmulherestêmcoraçãodehiena.
Noqueserefereaosignificadodamulher-cisne,aesco­
laqueconcebiaasimagensdamitologiacomopersonificação
60
deforçasefenômenosdanaturezavianelaanévoaqueflu­
tuaacimadaáguaque,elevando-se,transforma-seemnuvens
queentão,comocisnesemvôo,cortamocéu.Mesmoquan­
doseconsideraessasfigurasdopontodevistapsicológico,
acomparaçãocomnévoaenuvensnãodeixadeserapropria­
da,poisosassimchamadosconteúdosinconscientes,atéon­
denãosãooupraticamentenãosãoconscientes,nãotêm
formafixadefinida,podendomudarindefinidamente,passar
deumaparaoutraetransformar-se.Elassomentesetornam
clarasenitidamentereconhecíveisquandoemergemdoin­
conscienteesãoapreendidaspelaconsciência;dequalquer
modo,sóentãopode-sedizeralgodefinidosobreelas.Não
sedevepensarqueoinconscientenãopassadeumespaço
realcomconteúdosrigidamentedelimitados,quaseconcre­
tos;issoésomenteumarepresentaçãoauxiliar,paratornar
inteligíveloquenãoéexplícito.Emvisõeshipnogógicasou
representaçõesdeconteúdosdoinconsciente,figurasseme­
lhantesanuvensocorremfreqüentementecomoestágioini­
cialdealgoquemaistardeassumeformadefinida.Goethe
aludeaalgosemelhantequandodeixaqueMefisto,emsua
descriçãodoReinodaMãe,digaaFausto:
Fogedoquesurgiu
Dariquezadeimagensdesfeitas!
Diverte-tecomoquejánãoexiste,
Comooscortejosdenuvensqueomovimentodesfaz;
Agitaachave,mantém-naàdistância.
Doqueestáditoacima,pode-semuitobemconcluir
queofemininorepresentadopelaninfaUrvasiéaindato­
talmentenebulosoeincorpóreo,jáqueviveuporlongotem­
ponoâmbitohumano,istoé,naconsciênciadesperta,epo­
deriaterserealizado.Emsuaspalavras:"Desaparecicomo
aauroraesoudifícildeagarrarcomoovento",ésugerida
igualmenteanaturezainsubstancial,aérea,doseuser;este
corresponde,naverdade,aumespíritodanatureza,dando
aquinoentantoaimpressãodeumairrealidadeonírica.
61

Alendairlandesa"OSonhodeOenghus", 6atribuída
aoséculo
VIII,temumcarátermuitosemelhante:
Oenghus,elemesmopertencenteaumaraçamítica,
viuemsonhoumameninadeextraordináriabelezaentrar
emseusaposentos;masquandoeletentousegurá-Iapelamão,
eladesapareceu.Nanoiteseguinteameninavoltou,dessa
vezcomumaharpa,naqualtocouparaeledamaneiramais
prodigiosa.Eassimsepassoutodoumano,eOenghusficou
doentedesaudade.Ummédicoconheciaseumal,eporisso
ameninafoiprocuradaportodoopaís,jáque-segundoa
declaraçãodomédico-estavadestinadaaOenghus.Final­
mente,constatou-sequeelaeraafilhadeumreidosElfos
equetinhaocostumedesetransformarnumcisneacada
doisanos.Paraencontrá-Ia,Oenghustinhadeestaremcer­
tolagonumdiadeterminado.Quandochegoulá,eleviut-rês
vezescinqüentacisnessobreaágua,ligadosemparesporcor­
rentesdeprata.Oenghuschamoupelonomedaamadade
seussonhos,queoreconheceueestavadispostaachegarà
margemseeleprometessedeixá-Iaretomaràágua.Eleas­
sentiu,eelafoiatéele;elesseabraçarameadormeceram
sobaformadedoiscisnes.Elesnadaramtrê~vezesaoredor
dolagoparaqueassimacondiçãoimpostaporelasecum­
prisse,eentãovoaram(paraacasadopaideOenghus),e
lácantaramtãomaravilhosamentequetodososqueoses­
cutaramcaíramnumsonodemoradoqueduroutrêsdias.
Apartirdeentão,amulher-cisneficoucomOcnghus.
Nestanarrativa,ocaráteroníricoestáexpressodema­
neiraespecialmenteclara.Acircunstânciadequeaamada
aindadesconhecidadeleaparecepelaprimeiravezdurante
osono,queela,comoestáditodemaneiraexpressiva,está
destinadaaeleequesemelaelenãopodeviverindica,sem
dúvidaalguma,aanima-comosuaoutrametade.Eleacon­
quistaaocumpriracondiçãoimpostaporeladeixando-a
voltar
àáguaaomenosporumcertotempo,transforman­
do-seelemesmoemcisne.Emoutraspalavras:eletentaen­
contrá-Ianoelementodela,noseunível,comoqueelase
tornasuapermanentemente,umcomportamentoasercom-
62
provadotambémnarelaçãocomaanima.Ocantoencan­
tadordosdoiscisneséaexpressãodequeosdoisseresopos­
toseque,entretanto,pertencemumaooutroforamunidos
numaconsonânciaharmônica,formandoumaunidade.
Umaformamítico-arcaicamuitodiferentedamulher-cis­
neéaValquírianórdica.Estatemessenomeporque,estan­
doaserviçodeOdin,acolheosguerreiroscaídosembatalha
paralevá-IosaoWalhalla.7Entretanto,suafunçãoétambém
adeconcederavitóriaouaderrota,comoqueficaclaro
umparentescocomasNomas,quetecemecortamofiodo
destino.QuandonoWalhallapassaochifreondesebebeao
herói,cumpreporoutroladosuafunçãousualdeservido­
ra.Entretanto,oferecerumabebidaéaomesmotempoum
gestosignificativo,queexpressarelaçãoesolidariedade,een­
contra-sefreqüentementeomotivoemqueumafigurade
animaofereceaohomemumataça,sejacomumabebidade
amor,deencantamento,demetamorfoseoudemorte.As
Valquíriassãochamadastambémdemoçasdedesejo(Wunsch­
mãdchen).8Àsvezes,comoBrünhilde,elassãoamantesou
esposasdegrandesheróis,aquemprotegemeajudamdu­
ranteabatalha.
Nestesseressemidivinospode-semuitobemvisualizar
umaformaarquetípicadaanima,ejustamenteumaanima
quecorrespondeaumhomemselvagemeamantedaluta.
Diz-setambémportantodasValquíriasquesuagrandepai­
xãoéaluta.Elasaomesmotempo,comoéocasotambém
comaanima,personificamodesejoeaambiçãodohomem,
eatéondeestaestávoltadaparaaluta,aquiloqueneleéfe­
mininosurgesempreemumaformaguerreira.Normalmente
asValquíriassãopensadascomoamazonas,maselastambém
podem"cortaroareaágua"eassumiraformadecisne.9
UmadasmaisantigascançõesdoEdda,10acançãode
Wolund(Wieland)éintroduzidaporummotivodemulher­
-cisne:
Dosulvoavammoças
PelaflorestadeMyrkwid
63

Asmulheres-cisne
Incitandoàbatalha;
Paradescansar
Elaspousaramnapraia
TecendoparaosfIlhosdosul
Linhospreciosos.ll
Acançãonaverdadenãoodiz,masapenasdáaenten­
derqueWõlundeseusirmãos,comoaconteceemoutrasnar­
rativassemelhantes,roubaramasroupasdecisnedasmoças,
deformaqueelastiveramqueficarcomeles.Cadaumdos
trêsirmãostomouumamoçaparasie
Assimpousadaselas
Passaramseteinvernos
Masooitavo
Viveramcomsaudade.
Nonono,porém,
Anecessidadeasseparou.
Asmoçasdesejavam
VoarporMyrkwid,
Asmulheres-cisne
Queriamincitaràbatalha.
Eelasvoaramparalonge,seguidaspordoisdosirmãos,que
queriamprocurarasdesaparecidas,enquantoWõlund,fun­
dindoanéisdeouro,ficouesperandopeloretornodosseus.
Acontinuaçãodacançãonãodizmaisnada·arespeito,
decorrendonumaoutralinhanarrativa.
Énotávelaquiqueasmoçassintamumairresistívelsau­
dadedalutae,aovoarparalonge,atraiamosirmãosatrás
desi.Emlinguagempsicológica,diríamosqueasaudade.o
desejodenovosempreendimentos,torna-seperceptívelpri­
meironofeminino-inconsciente.Antesdechegarclaramen­
teàconsciência,odesejodealgonovo,deoutracoisa,ma­
nifesta-seemgeralnaformadeummovimentodaalma,co­
moemoçãoabafadaeumadisposiçãoinexplicáve1.Quando
64
estas,comonacançãodeWielandeemmuitasoutraslen­
das,ganhamexpressãoatravésdeumserfeminino,issoquer
dizerqueosmovimentosemocionaisqueocorremnoincons­
cientesãotransmitidosàconsciênciapelafeminilidadedo
homem,pelaanima,queaspercebe.
Oprocessoprovocaumimpulsoouequivaleaumain­
tuição,quedescobrenovaspossibilidadeselevaohomem
asegui-Iasecompreendê-Ias.Quandoamulher-cisnedeseja
incitaràbatalha,elacomissodesempenhaopapelcaracte­
rísticoparaaanimade
femmeinspiratrice- noentanto,num
estágioprimitivo,emquea"obra"àqualohomeméins­
piradoéprincipalmentealuta.
NapoesiacortesãdaIdadeMédia,gosta-sedeserepre­
sentaramulhernessepapel,masdeumamaneiramaisrefi­
nada:ocavaleirolutanotorneioporsuadama-eleusaum
símbolodela,porexemplo,umlençoemseuelmo-,suapre­
sençaoexcitaeaumentaasuacorag~m,elalheentregao
prêmiodavitória,quemuitasvezesconsisteemseuamor.
Masfreqüentementeela,demaneirasinistra,exigedeseu
cavaleiro.tarefassemsentidoousobrenaturaiscomoprova
desuadevoção.12
Diz-sequeocondeGuilhermeIXdePoitiers,quetem
famadetersidooprimeiro
troubadour,mandouquepin­
tassemoretratodesuaamadaemseuescudo.Éinteressan­
teacompanharexatamentenessaliteraturacomoainspiração
aospoucosvaiserelacionandocomoutrascoisasalémdaluta.
Onome
SenhoraAventiure mostra,dequalquerfor­
ma,queapropriedadetãomasculinado
desejodeaventu­
ras
erapersonificadacomoumserfeminino.
Umaoutraparticularidadedamulher-cisneéadeser
anunciadorado futuro.13Aodecidirasortedabatalha,14pre­
parandoassimodestinovindouro,asValquíriassãoiguais
àsNornas.Estasporsuavez-seusnomessãoUrd,Werdandi
eSkuld-aparecemcomopersonificaçãodoprocessona­
turaldavida,desereperecer.
Naáreacéltica,omesmocaráter,bemconhecidotam­
bémdoscontosdefadas,éatribuídojustamenteaelas,as
65

fadas,cujonomerelaciona-secom [atum,1Sequeigualmen­
tecostumamapareceremnúmerodetrês.
Émuitofreqüen­
tequeobemfeitopelasduasprimeirassejanovamenteanu­
ladopelaterceira,umtraçoqueigualmentelembraasNor-
nasouasParcas.
AcançãodosNibelungos16contacomoosNibelungos,
queviajavamparaencontrar-secomoreiEtzel,chegaram
aoDanúbiocomsuaságuasagitadas,eHagenseadiantou
paraprocurarumpontoemquepudessematravessar.Láele
ouviuumburburinhonaágua,eaoaproximar-seviu"wisiu
wip"(mulheressábias),quesebanhavamemumabelafon­
tenatural.Elerastejouatélá,apanhousuasroupaseases­
condeu.Seeleasdevolvesse,disseentãoumadasmulheres,
elasoinformariamsobreoqueaconteceriaaelesdurante
aviagem.
Elasnadavamcomoasavesflutuandosobreacorrente.
Eentãooqueelaslhecontaramdeixou-ocontente:
Porqueeleacreditoudefatonoqueelasestavamlhedizendo.1?
Aquitambémasmulheressábiassemelhantesaavesaquáti­
cassurgemcomoanunciadorasdeacontecimentosfuturos.
Sabe-sequeospovosgermânicosatribuíamàmulher
odomdapredição,graçasaoqueelaeratidaemgrandees­
tima,atémesmoadorada.OpróprioOdindeixouqueuma
vidente,Vala,lheanunciasseofuturo.Tácito
18menciona
umaadivinha,Veleda,quegozavadegrandeautoridadeem
suatribo,osbructeros,equesobVespasianofoilevadaa
Romacomoprisioneira,eJúlioCésarcontaqueentreosger­
manoseracostume
"utmatres[amiliaseorumsortibuset
vaticinationibusdec1ararent,utrumproeliumcommittiex
usuesset,necne".19
Entreosgregoseromanos,aPítiaeasSibilasdesem-
penhavamessafunção.
Parecequetaisconcepçõesperduraramporlongotem-
po,comosedepreendedeumahistóriasobreCarlosMagno,
narradaporGrimm20segundoummanuscritodeLeyden
66
doséculoXIII.Alendapretendeesclareceronomedaci­
dadedeAachen.21EladizqueCarlosmantinhaláumamu­
lher,
"quandammulierem[atatam,sivequandam[atam,que
alionominenimpha,veldea,veladriades(dryas)appelatur",
22
mantinharelaçõescomele,eelaviviaquandoeleestavacom
ela,emorria.quandoeledelaseafastava.Umdia,quandoele
sedeleitavacomela,umraiodesolcaiuemsuaboca,eCar­
losviuentãoquesobresualínguahaviaumgrãodourado.
Elemandouqueestefosseretirado,comoqueaninfamor­
reuenãomaisretomouàvida.
EssaninfalembraamisteriosaAeliaLaeliaCrispis,de
queC.G.Jungtratouemseuensaiointitulado"OEnigma
deBolonha".23
Quandonosperguntamosporqueéqueodomdavisão
eaartedaadivinhaçãosãoatribuídosespecialmenteàmulher,
pode-seresponderqueestaemgeralestámaisabertaemrela­
çãoaoinconscientequeohomem.Receptividadeéumaati­
tudefeminina,eexigeestar-seabertoevazio,eporissoJung24a
qualificacomoomaiorsegredodofeminino.Alémdisso,a
mentalidadefemininaémenosavessaaoirracionalqueacons­
ciênciaracionalmenteorientadadohomem,quetematen­
dênciadenegartudooquenãoérazoável,equeporestara­
zãofreqüentementesefechaaoinconsciente.Platão,2Sno
Fedro,jácriticavaoposicionamentoexcessivamenteracio­
nal-especialmenteemsetratandodeamor-evalorizao
irracional,sim,a
loucura,atéondeestapossaserumdomdi­
vino.Elemencionaváriasdesuasformas:
1.Asabedoriaoraculartransmitidapela
Pítia,quepor
exemplodavaconselhosparaobemdoEstado.Alémdisso,
eleobserva:"PoisapitonisaemDelfoseassacerdotisasem
DodonaprestaramanossaHélademuitosebelosserviços
emocasiõesespeciaisepúblicasemestadodeloucura,mas
emestadoconsciente,nenhumouquasenenhumserviço."
2.OdomproféticodasSibilas,quepreviamofuturo.
3.O
enthousiasmosdespertadopelasMusas.
Pítia,SibilaseMusassãoseresfemininosquepodem
sercolocadosladoaladocomasvidentesnórdicasmencio-
67

nadasacima,esuasdeclaraçõessãodeumtipoirracional,
razãopelaqualpareceloucuraquandoencaradassobo
pontodevistadarazãooudologos.Essasaptidõesnãosão
própriasapenasdasmulheres;sempreexistiramvidentese
profetashomens,maselesosãoemvirtudedeumaatitude
feminino-receptiva,queostornareceptivosainspiraçõesori­
ginadasalémdaconsciência.
Aanima,sendoofemininonohomem,possuijustamen­
teessareceptividadeefaltadepreconceitoemrelaçãoaoir­
racional,eporessarazãoelaéqualificadademensageiraen­
treoinconscienteeaconsciência.Estecomportamentofe­
mininodesempenhaumpapelimportanteespecialmenteem
homenscriativos;nãoé
àtoaquesefaladaconcepçãode
umaobra,deseunascimentooudagestaçãodeumpensa­
mento.
Omotivodamulher-cisnesurgeaindaemincontáveis
contosdefadas?6Introduzimosumdelesaquicomoexem­
plo,"Ocaçadoreamulher-cisne".Conta-sequeumguar­
da-caça,aoseguirorastrodeumacorça,chegouaumlago
justamentequandotrêscisnesnelepousavam.Logoemse­
guidaeramtrêsmoçasquesebanhavamnolago.Algumtem­
podepoiselasseergueramnovamentedaáguae,comocis­
nes,voaramparalonge.Asmoçasnãolhesaíamdacabeça,
eeledecidiucasar-secomumadelas.Eassimtrêsdiasde­
poiselevoltouaolagoeencontrouláasbanhistas.Sorratei­
ramente,elerastejouatélá,apanhouaroupadecisnedamais
jovemealevouconsigo.Elasuplicouparaqueadevolvesse,
maselesefezdesurdoealevouconsigoparacasa,eamo­
çatevequesegui-Ioatélá.Elafoibemrecebidapelagente
doguarda-caçaeconsentiuemcasar-secomele.Masarou­
padecisneesteadeuàsuamãe,queaguardouemumaar­
ca.Apósteremvividofelizesumcomooutropormuitos
anos,umdia,arrumandoacasa,amãeencontrouapeque­
naarcaeaabriu.Assimqueajovemmulherviusuaroupa
decisne,atirou-serapidamentesobreelaedizendo:"Quem
quisermevernovamenteteráqueiratéamontanhadevi­
dro,queseencontranocampobranco",27levantouvôoe
68
foiembora.Desolado,ocaçadorpassouaprocurá-Ia,eapós
vencermuitasdificuldadesencontrou-agraçasàajudadeani­
maisprestativos,libertando-a,jáque,comodescobriu,ela
eraumaprincesaencantada.
Reproduziestecontomaisoumenosextensivamente
porqueelecontémummotivonovoemuitoimportante,
aqueledasalvação.Acircunstânciadanecessidadedesalva­
çãorelativaaofatodeestarencantadoouenfeitiçadoindi­
caqueafiguradocisnenãoéumestadooriginal,tendosur­
gidosecundariamente,comoumaroupaqueocultaumaprin­
cesa.Portrásdaformaanimal,oculta-seportantoumsersu­
periorquevaleapenasalvareque,nofim,seuneaoherói.
Aprincesaasersalva,queapareceemtantoscontos
defadas,indicanitidamenteaanima.Quando,noentanto,
ocontodáaentenderqueaprincesaestavaláantesdocis­
ne,alude-secomissoaumestadooriginalanteriordeuni­
dadeetotalidadequefoisuspensoatravésdeum"encanta­
mento"eprecisaserrestabelecido.Aconcepçãodequeum
estadooriginaldeperfeiçãofoidestruído,oupelocompor­
tamentoculposodapessoaoudevidoàinvejadosdeuses,é
umaidéiaantiquíssima,queestánabasedemuitasreligiões
esistemasfilosóficos.Opecadooriginalbíblico,oserpri­
mordialinicialmenteunoedepoisdivididoemduasmeta­
desdePIatãoe,maisdistante,asophiadagnosiscontidana
matériasãotestemunhosdisso.
Expressopsicologicamente,seriaoseguinte:atotalida­
deoriginalqueaindaéprópriadacriançaédestruídaouda­
nificadapelasexigênciasdavidaepelocrescentedesenvol­
vimentodaconsciência.Assim,porexemplo,duranteode­
senvolvimentodaconsciênciadoeumasculina,oladofemi­
ninoédeixadoparatrás,permanecendoassimnum"estado
natural".Omesmoacontececomadiferenciaçãodasfun­
çõespsicológicas;aassimchamadafunçãoinferiorficoupa­
ratráse,conseqüentemente,indiferenciadaeinconsciente.
Porissoelatambémestáusualmenteligadaàsempreincons­
cienteanima.Asalvaçãoconsistenoreconhecimentoeinte­
graçãodesteselementosinconscientesdaalma.
69

ocontodefadas"Ovéuroubado"28apresentaoma­
terialnumaversãonova,doperíodoromântico,eestáloca­
lizadonoassimchamadoCampodosCisnes,nasMontanhas
deBronze,ondehaveriaumafontequeconfeririabelezaa
quemnelasebanhasse.29Ocontocontémostraçostípicos
jámencionados,sóqueaqui,emvezdaroupadecisne,éo
véu(eumanel)dabanhistaqueéfurtado,comoqueelaé
obrigadaaficar.Ocavaleiroalevaconsigoparacasa,onde
ocasamentodevesercelebrado;eletambémtemumamãe
aquemdáovéuparaqueoguarde.Quando,nodiadoca­
samento,anoivalamentanãooterconsigo,amãeotraz,
eaocolocarovéueacoroasobreacabeça,anoivaimedia­
tamentetransforma-seemcisneefogevoandopelajanela.
Ocontoépordemaislongoparaqueentremosemmais
detalhesaqui-somentequeneletambémsedáaentender
quenovamenteéamãedohomemqueaparentemente,com
boasintenções,devolvearoupadecisneànoiva,provocan­
doassimsuapartida.
Quandoaseparaçãodocasaléprovocadapelamaneirade
agirdamãe,pode-seinferirdaíumarivalidadeveladaentremãe
eanima,casoencontradocommuitafreqüêncianarealidade.
Poroutrolado,estetraçopoderiatambémserentendidocomo
umatendênciada"GrandeMãe",istoé,oinconsciente,de
chamaraquelesquelhepertencemdevoltaparasi.
Aascendênciarealdamulher-cisnesug~ridapelacoroa
caracteriza-acomoumserdeumtiposuperior,oquedeve
serrelacionadocomoaspecto
sobre-humano,divino,daani­
ma.Emmuitoscontosdefadasémaisnaturalcompreender
afiguradaprincesaencantadaapartirdapsicologiafemini­
na;nessecaso,elaérepr'esentadapelapersonalidadesuperior
damulheroupeloseupróprio
self30
Tambémafiguradaave,comoumacriaturadoar,sim­
bolizanãoapenasaquiloqueosernaturaltemdesemelhan­
teaosanimaismascontém,alémdisso,umaalusãoàssuas
possibilidadesespirituaislatentes.
Umserelementarquegozadeumapopularidadeelon­
gevidademuitoespeciaiséa
ninfa,dequetrataramcontos
70
defadas,lendasecançõespopularesdetodasasépocas,e
cujafiguraconhecemosatravésdeincontáveisreproduções.
Elaaindaservedetema
31apoetasmodernoseaparececom
freqüênciaemsonhosefantasias.
Umadenominaçãoantigadestesseresaquáticosdeque
gostavammuitoospoetasdoséculoXIIIéMerminne32ou
Merfei.Devidoaosdonsque,comoasmulheres-cisne,pos­
suem,taiscomoadivinhaçãoeseuconhecimentodascoisas
naturais,elastambémsãochamadasde
wisiuwfp. Emge­
ral,noentanto,aoladodestaespécie,outroselementos,co­
moveremos,aparecemmaisemprimeiroplano,principal­
menteodeEros.Esteencontra-seemconsonânciacomaque­
lefenômenodeépocaconhecidocomoamorcavalheiresco.
Elefoiaexpressãodeumanovaatitudeemrelaçãoàmulher
eaErosqueseiniciavanaépoca,istoé,nosséculosXIIe
XIII,econstituiacontrapartidacavalheirescaaocultivodo
logospraticadonosmosteiros.Estamaiorvalorizaçãoda
mu­
lhernãopodiasercausadaemúltimaanáliseporumaevi­
dênciamaisnítidadaanimaeporumaatividademaisacen­
tuadadamesma,oqueapoesiadessaépocaparececompro­
var.
33
Comoessencialmentefeminina,aanima,comoamu­
lher,édeterminadapreponderantementeporEros,istoé,
peloprincípioda
ligação,darelação,enquantoohomem
emgeraldevemaisao
princípiodolagos, quediferenciae
ordena,ouseja,àrazão.
Eassimas
Merminneesuascompanheirassempreman­
têmumarelaçãoamorosacomumhomemoutentamcriar
uma,oquealiásconstituiumadasânsiasfemininasfunda­
mentais.Destepontodevistaelassediferenciamdasmu­
lheres-cisne,quequasesemprenãoprocuramarelaçãopor
simesmas,masquecaemempoderdohomematravésdo
roubodesuaroupadeplumas,ouseja,pelaastúcia.Corres­
pondentemente,elasdepoisambicionavamfugir
àprimeira
oportUnidade.Relaçõesdessetiposãopreponderantemen­
tedenaturezaimpulsivaesente-seafaltadoelementoaní­
micooudeumsentidoqueultrapasseoinstintivo.Dadaa
71

circunstânciadequeohomemdominaamulherdeforma
maisoumenosviolenta,sobressaiumestágiototalmentepri­
mitivodeseucomportamentoerótico.Nãoé,portanto,sem
fundamentoquandoosernaturalaeleligadoexigequeoho­
memnãolhefaçanenhumaviolência,nãolhebataounão
recriminecompalavrascontundentes.
Lendasdefadasaquáticasedeninfasestãolargamen­
tedifundidas,especialmentenasregiõescompopulaçõescél­
ticas.Emmuitoslugares,sobretudonoPaísdeGales,naEs­
cóciaenaIrlanda,elasestãoligadasadeterminadaslocali­
dadesefamíliaseempartepermaneceramvivasatéostem­
posmaisrecentes.
Comoumexemplodentremuitos,citoaquiumades­
saslendasdoPaísdeGales,quefoianotadaporJohnRhys,34
umconhecidocolecionadoreconhecedordofolclorecelta.
Osacontecimentosdescritosteriamocorridoporvol­
tadofinaldoséculoXIInumaaldeiadeCaermarthenshire,
noPaísdeGales.Láviviaumaviúvacomseufilho.Quando
esteumaveztomavacontadogadonasmontanhas,chegou
aumlagoonde,paraseuespanto,viuumamoçadeincom­
parávelbelezasentadasobreasuperfíciedaágua.Elaesta­
vaocupadaempentearocabeloencaracoladocomumpen­
te,eaágualheserviadeespelho.Derepente,elaviuora­
paz,queaolhavafixamenteeque,paraatraí-Iaàmargem,
estendeu-lheumpedaçodepão.Elaseaproximoudelemas,
recusandoopãoporsermuitoduro,mergulhouquandoele
tentouagarrá-Ia.Decepcionado,elevoltouparacasa,mas
mesmoassimvoltouaolagonodiaseguinte,ondedessavez,
seguindooconselhodesuamãe,elelheofereceupãosem
assar,masaindaassimsemsucesso.Somentequando,noter­
ceirodia,eletentoucompãomeioassadoelasemostrou
dispostaaaceitá-loeatémesmooestimulouasegurar-lhe
amão.Apósalgumaconversa,elaconsentiuemtornar-se
suamulher,acrescentandonoentantoque,seelebatesse
nelatrêsvezessemmotivos,elaodeixariaparasempre.Ele
maisquedepressaaceitouessacondição,comoqueelator­
nouadesaparecernaágua.Imediatamenteaseguiremergi-
72
ramduasmoçasbelíssimasacompanhandoumimponente
homemgrisalhoqueseapresentoucomoopaidanoivae
lhedissequeconcordavacomoenlace,desdequeeleesco­
lhesseentreasduasamoçacorreta.Issonãoeraassimtão
fácil,poiselaspareciamserperfeitamenteiguais,maseleafi­
nalreconheceusuaamadapelamaneiracomoestahaviaata­
doassandálias.Comodote,opaiprometeuaelatantasva­
cas,cabrasecavalosquantoselapudessecontardeumsó
fôlego,equandoelaofez,osanimaissurgiramdaágua.O
casalentãoestabeleceuseularnumafazendavizinha,onde
elesviveramfelizeseemboasituação,etiveramtrêsfilhos.
Umdia,elesforamconvidadosparaumbatizado.A
mulhernãotinhavontadealgumadeir,masavontadedo
homemprevaleceu.Comoelahesitasseemirbuscarocava­
lonopasto,elegolpeou-lhelevementeoombrocomaslu­
vas,aoqueelareplicoulembrando-lhedoacordoqueha­
viamfeito.
Emoutraoportunidade,quandodeviamparticiparde
umcasamento,elaapareceuemlágrimasemmeioaosfeli­
zesconvidados.Quandoohomem,dando-lhetapinhasnos
ombros,perguntou-lhepelomotivo,elarespondeu:"Agora
équecomeçamasdificuldadesparaestecasal,eparavocê
também,poisestajáéasegundavezquemebate."Algum
tempodepois,aconteceudeelesestarememumenterroe
deela,aocontráriodolutogeral,seracometidadeumdes­
medidoacessoderiso,oquenaturalmentefoipenosopara
oseumarido,deformaqueelelhebateueaadvertiupara
quenãorissedaquelamaneira.Eladissequetinharidopor­
queaspessoas,quandomorrem,naturalmenteselivramde
suaspreocupaçõese,levantando-se,deixouacasacomas
palavras:"Essafoiaúltimapancada;nossocontratotermi­
nou.Adeus!"
Apósterreunidoseusanimaisnopátio,elaretomou
aolagoe,juntocomtodoorebanho,desapareceuemsuas
águas.
Ahistórianãodizoqueaconteceuaoinconsolávelma­
rido,masquantoaosfilhos,dizqueelesiamcomfreqüência
73

75
Naprimeiratratava-sedeumbatizadodoqualelanão
tinhavontadealgumadeparticipar,oquequerdizerque,
comoserpagão,umacerimôniacristãlhecausarepugnân­
cia.Segundoaconcepçãodaépoca,osseresélficoste­
miamtudooqueeracristão;istoquerdizerqueelesforam
expulsospelapregaçãodosmissionárioscristãoseretoma­
ramaointeriordaTerra(àassimchamadaCavernadasFa­
das).
Nasegundaocasião,amulherirrompeemlágrimasdu-
ranteumacomemoraçãofestivaenaterceiraelaperturba
oambientetristecomgargalhadasincontidas:elacompor­
ta-se,assim,d~maneirainconveniente.Suasmanifestações
nãoestãodeacordocomasituação,aindaquepareçamplau­
síveisaelamesma.Issoindicaqueaquiestásendoexpresso
algoindiferenciado.Ésabidoqueoscomponentesdaper­
sonalidadequeforamreprimidosoupermaneceramincons­
cientespersistemnumaformaprimitiva,nãodiferenciada
que,quandosemanifestamtalequalparaoexterior,são
inadequados.Apariçõessemelhantespodemserobservadas
aqualquermomento,oupodemosencontrá-Iaspessoalmen­
te.Aninfa,quandovivenaágua,istoé,noinconsciente,re­
presentaofemininonumestadosemi-humanoepraticamen­
teinconsciente.Atéopontoemqueamesmaestácasada
comumhomem,pode-sepresumirqueelarepresentasua
animainconsciente,natural,juntocomosentimentoindi­
ferenciado,jáqueasinfraçõescometidasporelaocorrem
noâmbitodeste.Dequalquerforma,deve-senotarquenão
setratadeumsentimentoindiv!dual,mascoletivo,comoqual
elaaindanãoseacostumou.Eumfatobemconhecidoque
sempreseprovocaescândalocomaspartesinconscientes
dapersonalidade(anima,animus,sombra)oucomsuasfun­
çõesinferiores,oquetemporconseqüênciaqueelas,por
perturbadoras,sãosemprenovamentereprimidas.Odesa­
parecimentodaninfaemseuelementodescrevejustamen­
teaqueleprocessoemqueumconteúdodoinconscientevem
àsuperfície,masestátãopoucocoordenadocomoeucons­
cientequetornaamergulharàmenoroportunidade.Que74
àmargemdolagoequemuitasvezessuamãesemostrava
aeleslá.Eelachegouatémesmoaparticiparaseufilhomais
velhoqueeleestavadestinadoaserumbenfeitordahuma­
nidade,jáqueiriacurardoenças.Paraestefim,eladeuaele
umsacocominstruçõesmedicinaiseprometeuaparecersem­
prequeeleprecisassedeseusconselhos.Defato,elaapare­
ceumuitasvezeseinstruiuseufilhosobreasplantasmedi­
cinaiseseuspoderes,deformaqueeste,atravésdeseusco­
nhecimentosedaartedacura,alcançougranderenome.
Osúltimosdescendentesdessafamíliademédicoste­
riammorridoem1719e1739.
Nestahistóriatrata-se,portanto,nãoapenasdeuma
relaçãoinstintivo-erótica,masaquiamulheraquáticatraz
aohomemprosperidadeetransmiteaofilhoconhecimen­
tossobreplantasmedicinais,conhecimentosqueelaeviden­
tementedeveasuaíntimaligaçãocomanatureza.
Rhysreproduzaindainúmeraslendassemelhantes,que
emtodososcasosestãoligadasapessoasdeterminadas,cuja
ascendênciasempreasremeteaessasfadasaquáticaseque
dissoseorgulham.Ostabusnãosãosempreosmesmos;às
vezesacoisaédetalformaqueohomemnãopodetocar
emsuamulherélficacomferro,3souqueelenãopodedizer
umapalavrainamistosamaisquetrêsvezes,alémdeoutras
condições.Odescumprimentodascondiçõesestipuladasocorre
semprepordesatençãoouporalgumacasofatal,nuncapro­
positalmente.
Pormaisirracionaisqueessasprescriçõespossampa­
receremsimesmas,suanãoobservaçãodesencadeiaarea­
çãocomalógicaeainvariabilidadedeumaleidanatureza.
Estesseresmeio-humanosrepresentamapróprianatureza
enãopossuemaliberdadedeescolhaqueédadaaohomem
equepermitequeeleàsvezessecomportedemaneiradi­
versadaquelaquecorrespondeàleinatural.Elepode,por
exemplo,deixar-sedeterminarporidéiasousentimentosque
ocolocamacimadocomportamentopuramentenatural.
Astrêsocasiõesemqueafadaaquáticarecebeaspan­
cadasemnossahistóriasãoelucidativas:

sejaprecisotãopoucoparaqueissoocorramostracomotais
conteúdossãovoláteisefrágeis.
Fazpartedomesmocontextoofatodeosseresélfi­
cossevingaremquandodesprezadosouofendidos.Elessão
extremamentesensíveisegostamdeguardarumressenti­
mentoquenãoéatenuadopornenhumaespéciedecompreen­
sãohumana.Estaspropriedadesvalemtambémparaaanima,
paraoanimuseparaasrespectivasfunçõesnãodiferencia­
das;poroutrolado,asensibilidadedesmedidadehomens
bastanterobustos,queseencontracomfreqüência,éum
sinalclarodequeaanimaestáatuando.Airregularidade,
astravessurasemuitasvezesamaldadedeclaradadosespí­
ritoselementares,queformamooutroladodesuabeleza
fascinante,podemserconstatadastambémnaanima.Enfim,
estascriaturassãoirracionais,boasemás,prestativaseper­
niciosas,curativasedestrutivascomoapróprianaturezade
quesão
parte.36
Aqui,entretanto,deve-sedizerquenãoéapenasaani­
ma,comooinconscientefemininonohomem,queapresen­
taasqualidadesmencionadas;asmesmastambémpodem
serconstatadasemmuitasmulheres.Devido
àsuatarefabio­
lógica,amulheremgeralémaisnaturalqueohomemepor
issofreqüentementedemonstrademodomaisoumenoscla­
roumcomportamentocorrespondente.Então,debomgra­
do,aimagemdaanimaéprojetadanessasmulheres,porque
elascorrespondemtãoexatamenteàfeminilidadeinconscien­
tedohomem.
Porissoessesserestambémaparecememsonhos,fanta­
siaseimagensdemulheres,depreferêncianinfas.Estaspo­
demrepresentarouafeminilidadenãodesenvolvida,ainda
naturaldamulheremquestão,ousuafunçãoinferior,mas
comfreqüênciasãotambémformasiniciaisdapersonalida­
desuperioroudo
se/f.
Nanossalenda,encontramosaindaumoutrotraçoca­
racterístico:trata-sedofatodeavirgemaquáticapentearos
cabelos-comoaLoreley-etersuaimagemrefletidano
lagoenquantoofaz.Pentearoscabelospoderiaserreconhe-
76
cidosemdificuldadecomoummeiodeatraçãoeróticaque
éutilizadoatéhoje.Oespelhofazpartedessaatividade,e
osdoisjuntossãoatributosdafiguradaanimafreqüente­
menteutilizadosnaliteraturaeemilustrações.
37
Oespelhocomoatributodafiguradaanimatemainda
umoutrosignificado.Naverdade,fazpartedoseuserque
elasejaequivalenteaumespelhoparaohomem,istoé,que
comotalreflitaseuspensamentos,desejoseemoções,oquejáfoimencionadonocontextodasValquírias.Ejustamen­
teporissoqueelasetornatãoimportanteparaohomem,
sejacomofigurainterioroucomoumamulherreal,exterior,
namedidaemqueelepodetomarconhecimentodecoisas
queparasimesmoaindanãosãoconscientes.Muitasvezes,
noentanto,estafunçãodaanimalevanãoaumamaiorcons­
ciênciaeautoconhecimento,nãosósimplesmenteaumes­
pelhamentodesimesmo,oqualadulaavaidadedohomem,
mastambémaumaautocompaixãosentimental.Ambosna­
turalmenteaumentamopoderdaanimaenãodeixampor
issodeserperigosos.Fazpartedanaturezadamulherseres­
pelhodohomem,easurpreendentehabilidadequeelafre­
qüentementeexibeaofazê-Iofazcomqueelasejaespecial­
menteapropriadaparaserportadoradeumaprojeçãode
anima.
AbelaMelusina38tambémpertenceàraçadasMerfeias.
Emboraalendatecidaemtornodelasejabemconhecida,
euamencionoaqui'deformaabreviada,poiselacontémal­
gunspontosimportantes.Oconteúdoéoseguinte:39Raymond,
filhoadotivodocondedePoitiers,matouaesteporuma
fatalidadeduranteumacaçada.Inconsolável,elequerempreen­
derafuga.Nocaminho,elechegaaumaclareiranaflores­
taelávêtrêsmulheressentadasjuntoaumafonte.Umade­
laséMelusina,aquemelelamentaseusofrimentoequelhe
dábonsconselhos.Eleardedeamorporela,queestádis­
postaatornar-sesuamulhercomacondiçãodequeelelhe
permitarecolher-setodosossábadossemqueninguémaes­
preite.Raymondconcordaeelesdurantelongosanosvivem
felizesjuntos;Melusinadá
àluzmuitosfilhos,queentretan-
77

tosempretêmalgodeanormal,emandaconstruirummag­
níficopalácio,queela,segundoseupróprionome,batiza
de"Lusinia",oquemaistardeseráLusignan.Inquieto,en­
tretanto,comosrumoresquecorremarespeitodeMelusi­
na,seumaridoumdiaaespia;eleaencontranumquarto
debanhoevêcomhorrorqueelatemumacaudadepeixe
oudeserpente.Aprincípioestadescobertaparecenãoter
conseqüênciaalguma,atéquealgumtempodepoischegaa
notíciadequeumfilhodeMelusinaateoufogoaummos­
teirofundadoporela,ocasiãoemqueumdeseusirmãos,
queeramongelá,morreu.Quandoelaquisconsolaroma­
rido,eleaafastoudesicomaspalavras:"Váembora,sua
serpentemonstruosa,quedegenerouminhanobrelinhagem!",
oqueafezcairdesmaiadaaochão.Apósvoltarasi,elase
despediudomaridoemlágrimas,deixandoascriançasaseus
cuidadose,flutuandoatravésdeumajanela,desapareceu.
Maistardeelaapareciaocasionalmenteduranteanoitepa­
raveralgunsdeseusfilhosqueaindaerampequenos,ealen­
dacontinuaaindadizendoqueelacaminhapelasproximi­
dadesdopaláciolamentando-secadavezqueummembro
dacasadeLusignan,cujamatriarcaMelusinaéconsiderada
atéhoje,vaimorrer.
AcondiçãoimpostaporMelusinanestecasoconsiste
emqueelatodasassemanaspossaretomarporumdiaaseu
elementoeassumiraformadeninfa.Esteéoseusegredo,
quenãodeveserdivulgado.Onãohumano,ligadoànatu­
reza,nestecasoorabodepeixe,nãodeveservisto.Nãoes­
tamoslongedepresumirqueobanhosemanalcomoretor­
noaoestadonaturalaeleligadoequivaleauma
renovação
davida.Afinal,aáguaéumelementovitalporexcelência.
Elaéimprescindívelparaamanutençãodavida,efontese
banhosdecuraqueprovocamseurestabelecimentoereno­
vaçãosempreforamconsideradosnuminososemuitasve­
zesforamobjetodecultoreligioso.40Segundoumdecreto
doConcíliodeAvignondoanode442,ocultodeárvores,
pedrasefonteseofazerfogueirasouacenderluzesjunto
àsmesmasfoiproibidocomopráticas
pagãs.41Emvezdis-
78
so,emmuitoslugares,empaísescatólicos,imagensdaVirgem
adornadascomfloresevelassãoatéhojelevadasàsfontes
comoexpressãocristãdeumsentimentoprimordialainda
vivo.UmdosapelidosdeMariaé
pégé=afonte.Aquali­
dadenuminosadaáguaexpressa-setambémnaantiquíssi­
maidéiadeuma"águadavida"quepossuiumaenergiaso­
brenatural,ouna
aquapermanens dosalquimistas.Asnin­
fasoufadasquehabitamasfontesousuasproximidadespos­
suemumparentescoespecialcomoelementovital,sendo
aáguaconsideradacomotale,comoosurgimentodavida
éummistérioindecifrável,aninfatambémseprestaaalgo
misteriosoquedevepermaneceroculto.Estesseressão,em
certamedida,protetoresdasfontes;aindahojedetermina­
dosbanhosdecurapossuemumapadroeira,comoemBaden
SantaVerena,quesubstituiuaninfapagãeque,aliás,éparen­
tedeVênus.
Cabeàanimaumafunçãosemelhante;seuseranimado
jáestáexpressoemseupróprionome.Porissoelaaparece
comfreqüênciaemsonhosoufantasiassobaformadeum
dessesseresfeéricos.Assim,porexemplo,umhomemjovem
cujamenteéexcessivamenteracionalequeporissocorreo
riscodetornar-serígidotemoseguintesonho:
"Caminhoporumaflorestadensa,eentãoumamulher
cobertaporumvéunegrovemaomeuencontro,metoma
pelamãoedizquevaimelevaratéafontedavida."
OescritoringlêsWilliam
Sharp42(1855-1905)narra
umacontecimentodeinfânciaemqueumavezumabela
mulherbrancadaflorestaapareceuparaelenumpequeno
lagocercadodeplátanos,eele,criançaqueera,abatizou
deOlhosdeEstrelaemaistardedeladyoftheseae,portanto,
elediz:"Aelaeureconhecicomoamulherqueexisteno
coraçãodetodasasmulheres."Comissoelaestánitidamen­
tecaracterizadacomoimagemprimordialdafeminilidade
e,portanto,comoformadaanima.
Aanimarepresentaaligaçãocomafontedavidaque
estánoinconsciente.Quandonãoexistenenhumaligação
dessetipo,ouquandoelaéinterrompida,instaura-seumes-
79

tadodeestagnaçãooudeendurecimentoquemuitasvezes
ésentidocomotãopeI:turbadorqueapessoaatingidasevê
levadaaprocurarumpsicoterapeuta.GottfriedKellerdes­
creveuesteestadodemaneiramuitoimpressionanteemsua
poesia:
NoitedeInverno
Nemmesmoumrumordeasaspassavapelomundo,
Anevebrancacontinuavaquietaeofuscante.
Nemumanuvenzinhanodosseldeestrelas,
Nemumaondanolagocongelado.
Dofundoergueu-seaárvoredolago,
Atéquenogeloacopacongelou;
Porseusramossubiuaninfa,
Olhandoatravésdogeloverde.
Euestavaempésobreogelofino,
Quemeseparavadanegraprofundeza;
Bemembaixosobmeuspéseuvi
Abelezabrancadeseusmembros.
Comlamentossufocadoselaapalpava
Aduracoberta,aquieali;
Jamaisesqueçoorostotriste,
Queficarácomigoparasempre!
Aninfapresanogelocorrespondeàprincesaencanta­
danamontanhadevidroquefoimencionadaacima;tanto
ogelocomoovidroconstituemigualmenteumacouraça
friaeduraqueaprisionaoqueestávivoequedelaprecisa
serlibertado.
Umoutrotraçoimportantedenossalendadeveainda
sermencionadoaqui:quandoofilhodeMelusinaateiafogo
aomosteiromantidoporela,ojámencionadoantagonismo
entrearaçadoselfoseacristandadeexpressa-sedemaneira
80
evidente.Poroutrolado,essesseres,segundováriasnarra­
tivas,parecemalimentarodesejodeserlibertados.
Paracelsus,43queescreveutodoumtratadosobreos
espíritoselementares,taiscomoninfas,sílfides,pigmeuse
salamandras,dizaseurespeitoqueelessãoextremamente
semelhantesàspessoas,masnãodescendemdeAdãoenão
têmalma.Opovodaáguaéoquemaisseparececomaspes­
soasequasesempreseesforçamparaestabelecerligações
comelas.Elessão"vistosnãoapenascomosolhos,mastam­
bémsecasam(?),enascemcomocrianças"edepois:"Ora,
comofoiditoarespeitodasninfas,queelasvêmanósdaágua,
esentam-seàsmargensdosriachos,ondeelasentãotêmsua
morada,eondeelasportantosãovistasetambémapanha­
das,agarradas,esecasam,comofoiditoacima."44Dessa
maneira,ligando-seaumhomem,elasobtêmumaalma,e
tambémascriançasnascidasdessasligaçõestêmuma."Se­
guedaíqueelasserelacionamcomoshomens,porelesse
esforçamesetornamcaseiras.Damesmamaneiracomoum
pagãoquepedeobatismoeoconsegue,comoqueelecon­
quistasuaalmaetorna-sevivoemCristo."
Maistarde,F.deIaMotteFouqué45retiroudestesescritos
deParacelsusomaterialparasuaUndine,quesurgiunoinício
doséculoXIX,portantonoperíodoromântico,quandofoi
revividaaidéiadaanimaçãodanaturezaequandoaomesmo
tempopelaprimeiravezsefaloudoinconsciente.46
Nessanarrativa,afaltadealmadaninfaconstituiomo­
tivocentral.
Undineéafilhadeumreidomarquetemseusdomí­
niosnoMediterrâneo.Segundoodesejodorei,eparaque
sejapossívelaelaconseguirumaalma,demaneiramisterio­
saelaélevadaaumcasaldepescadoresqueacreditavamque
suaprópriafilhatinhaseafogadoequeadotamapequena
abandonada.Undinecresceesetornaumamoçaadorável,
masseuspaisdecriaçãomuitasvezesestranhavamsuana­
turezanotavelmenteinfantil,sempredadaatravessuras.
Numanoitedetormenta,umcavaleiroqueviajavapro­
curouabrigonacabanadopescador.Asempretãotímida
81

Undineaproxima-sedelemeigamente,eleficafascinadocom
seuencantoecomseujeitoinfantil,ecomoumpadretam­
bémforalevadoaesselocalpelatempestade,esteosune
emcasamento.MasquandoUndineconfessaaomaridoque
nãotemalma,auniãotorna-sesinistraparaestee,apesar
detodooseuamor,eleéatormentadopelopensamentode
que,nofim,haviasecasadocomumserélfico.Elalhesu­
plicaquenãoarepudie,poisosseressemelhantesaelaso­
menteconseguiamumaalmaatravésdeumaligaçãoamo­
rosacomumapessoa,esomenteestipulaacondiçãodeque
elenuncalhedigapalavrasríspidas,sobretudoquandona
águaounassuasproximidades,poisentãoelaserialevada
devoltapeloshabitantesdesseelementopreocupadoscom
seubem-estar."-
Ocavaleiroentãoalevaconsigoparaoseucastelo,até
queafatalidadesurgenafiguradeumadonzela,Berthalda,
quetinhaesperançasdetornar-sesuamulher.Undineaaco­
lheamigavelmente,masparaseumaridoUndinetorna-se
cadavezmaissinistra.Finalmente,duranteumpasseiopelo
Danúbio,eleexpressaessesentimentoeaxingadebruxa
echarlatãquandoela,emvezderetirardaáguaocolarde
Berthalda,recolheumacorrentedecoral.Apósestaofen­
sa,lavadaemlágrimas,elaatira-sepelaamuradadobarco
edesaparecenacorrenteza,eaofazê-Ioaindaadverteseu
maridoparapermanecer-lhefiel,casocontrárioosespíri­
tosdaáguasevingariam.
Apesardesseaviso,apósalgumtempodeveocorrero
casamentodocavaleirocomBerthalda.Nodiadocasamen­
to,anoivaordenaquesebusqueáguaparaoseubanhode
belezanafontedocastelo,queUndineselaraparaimpedir
oacessodosespíritosaquáticos.Quandoapedraéretirada,
ergue-sedafonteafiguradeUndinecobertaporumvéubran­
co,queseaproximadocastelochorandoemansamenteba­
teàjaneladeseumarido.Peloespelhoelevêcomoelavem
nasuadireçãoecomaspalavras:"Elesabriramafonte,ago­
raeuestouaqui,evocêtemdemorrer",entraemseusapo­
sentos.Tirandoovéu,elaoabraçaeelemorrecomessebei-
82
jo.Omesmomaterialfoiutilizadorecentementepor J.Gi­
raudouxemseudramaOndine,deondesedepreendeque
eleaindanãoenvelheceu.
Oquedesencadeiaacatástrofenessasversõeséocon­
tlitoentreaanima-naturezaeamulherhumana,quejána
lendadeSiegfrieddesempenhaumpapelimportantenalu­
taentreBrünhilde,aValquíriaeChriemhilde,emuitasve­
zestambémprovocagrandesdificuldadesnavida.Nofun­
do,expressa-seaíaoposiçãoentredoismundos,oexterno
eointerno,ouentreaconsciênciaeoinconsciente,efazer
aponteentreosdoispareceseratarefaespecialdanossa
época.
Umoutrotipodeumatalvivênciadaanimaérepre­
sentadopelaCançãodeLanval,47quefazpartedociclode
lendasbretãs.
OcavaleirodessenomepertenceaocírculodoreiAr­
thur,maslásente-sepreteridoporsermenosabastadoenão
poderexibirnenhumtipodeluxo.Umdiaeleencontra,tam­
bémnumafonte,umabeladonzelaqueoleva
àsuasenho­
ra,maisbonitaainda,queorecebemaravilhosamenteelhe
dedicaseuamorcomacondiçãodequeelenuncadigauma
palavraarespeito.Alémdisso,elaconcedeaeleodomde
satisfazerdesejos.graçasaoqualelaaparecejuntoaeleassim
queeleadeseja.Tudooquedesejatambémserealiza,defor­
maqueelepassaaexibircadavezmaisopulênciaeassim
ganhacadavezmaisreputação.Elepassaainteressar
àrai­
nhaquelheofereceseuamor.Quandoeleorecusa,elase
ofendeeopressionatantoqueelefinalmenteadmiteteruma
amadaqueéaindamaisbeladoqueela.Deódio.arainha
exigequeoreireúnaumacortedejustiçaperanteaqualLan­
vaitemdejustificar-seporterinsultadoarainha.Paraisso
eleleriaqueapresentaraprovadequesuaamadarealmen­
teeratãobelaquantoelehaviadito.Elesevêentãoemapu­
ros.pu1"nãopodemaisapelaràquelapoistraiuosegredodo
seuamor.Parecejánãohavermaisesperançaquando,acompa­
nhadadequatromoçasencantadoras,surgesuaamadacom
umvestidobrancoeummantopúrpuramontadanumcavalo
83

brancomagnificamenteajaezado:abelezaempessoa.Faz-se
entãojustiçaaLanval,poistodostêmdeadmitirqueelenão
haviaexagerado.Acançãoterminacomafadatomandoseu
amadoemseucavaloelevando-oparaoseureino.48
O
desterronoreinodasFadas éummotivosignificati­
votambémdopontodevistapsicológico.Nastradiçõescel­
tas,essereinonãotemocaráteramedrontadoreangustian­
tequepossuiemoutroslugares.Elenãoéoreinodosmor­
tos,massechama"TerradosVivos"ou"Paíssobasondas",
eéimaginadocomo"ilhasverdes"que,habitadasporbelos
seresfemininos,tambémsãochamadasde"ilhasdasmoças".49
Eternamentejovensebelos,seushabitantesusufruemdas
alegriasdamúsica,dadançaedoamor,deumaexistência
semsofrimentos.Láasfadasestãoemcasa,láestátambém
afamosaMorgana(fataMorgana),cujonomequerdizeral­
gocomo"nascidanomar",eparaláelaslevamseusaman­
teshumanos.EssesCamposElísioscomparáveisaosJardins
dasHespérideséentendidopsicologicamentecomoumater­
radesonhos,eestarnelaérealmenteatraenteeagradável,
masnãoéisentodeperigos.Sabe-sequeaanimaimperanes­
sereino,elevaatéele.Operigodesemergulharnessemun­
do,istoé,noinconsciente,parecejátersidosentido,pois
emincontáveispoemasdescreve-secomoumcavaleiro,cati­
vadopeloslaçosdoamor,esquece50suasatividadesmascu­
lino-cavaleirescasesealheiadomundoedarealidadenuma
auto-suficientevidaadoiscomsuadama.
Umexemploespecialmentedrásticodessetipoéofe­
recidopelalendade
Merlin,omago,cujaamada,afadaVi­
viane,graçasàmagiadelequeescutouàsescondidas,oamar­
racomlaçosinvisíveiseobaneparaumespinheirodoqual
elenãoconseguemaisselibertar.
Estahistóriaéespecialmenteelucidativaporqueafigu­
radeMerlinincorporacommuitapropriedadeaconsciência
eopensarquefaltamaomundohumanoqueocerca.Eleé
umserluciferino,semelhanteaMefistófeles,ecomotalre­
presentantedointelecto
instatunascendi, istoé,numafor­
maaindaprimitiva.Eledeveissoaoseupodermágico;mas
84
comoosexofemininonãofazcasodisso,vaibuscá-lona
formadeEroseaprisionaoqueseidentificacomoprincí­
piodologos,ànatureza.
A
lendadeTannhiiuser, revividaporRichardWagner.
pertenceaumperíodoposterior;provavelmenteelasurgiu
noséculoXVenoséculoXVIestavalargamentedifundida
naSuíça,naAlemanhaenosPaísesBaixoscomocançãopo­
pular.
51
Masagoraeuvoucomeçar
AcantarsobreDanheuser
Easmaravilhasquefez
Comsuamulher
Venusina.52
Danheusererabomcavaleiro
Quandoqueriaverprodígios
QueriairàmontanhadeVênus
Estarcombelasmulheres.
Assimcomeçaamaioriadasversõesdacanção.Numa
versãosuíça(St.Gallen),umadasmaisantigas,éassim:
Danheusererabomcavaleiro
Grandesprodígioselefoiver
Subiuàmontanhade
Vênus53
Paraestarcomtrêsbelasdonzelas.
Elassãobelastodaasemana
Enfeitadascomouroeseda,
Ejóiasecoroasdeflores,
Aosdomingosst1'oogresecobras!,
comoqueashabitantesdamontanhadeVênuscaracteri­
zam-secomoparentesdaMelusina.
Eucreiopoderpresumirqueoconteúdodalendaéco­
nhecido,masgostaria,noentanto,delembrarqueapóster
permanecidoporlongotemponamontanhadeVênus,Tan-
85

nhãuser,atormentadopelopesodesuaconsciência,vaiaté
opapaemRomaparaconseguiraabsolvição.Masestalhe
énegada.eapontam-lheumbastãoseco:assimcomoeste
nãosetornaverJL',assimtambémelenãoseráabsolvidode
seuspecados.EleentãoretomaàmontanhadeVênuselá
permanece.aindaquandoopapalhemandaumamensagem
comunicandoquehaviaacontecidoummilagreequeobas­
tãotornara-senovamenteverde.Aconclusãodacançãoem
muitasversões
éaseguinte:
Eassimelevoltouàmontanha
Eládesfrutouseuamor
EassimoquartoPapaUrbano
Tambémseperdeuparasempre.
ComosedepreendedadesignaçãomontanhadeVênus.
dá-seaentenderumlugardealegriaeprazeramoroso.onde
Vênuslevaocetro.
S4Elacorrespondeexatamenteàsilhas
dasmoçasoucavernadasfadasmencionadasacima,easlen­
dasaelasligadassãobastantesemelhantesumasàsoutras.
emquesemprefalamdeumhomematraídoaesseslugares
ondeémantidoporumamulherencantadora;eleounão
podeencontrarnovamenteocaminhodevoltaousóofaz
comgrandedificuldade.
UmexemplodaAntiguidadeéCalipso,queimpediu
queUlissessaíssedesuaIlhaL'sóolibertouquandoosdeu­
sesordenaramqueofizesse.AfeiticeiraCircetambémtem
seulugaraqui,emboraelatenhaumcarátermuitomaisbru­
xesco,jáquetransformasuasvítimas,oscompanheirosde
Ulisses,emporcos.
NalendadeTannhãuservemàluzoantagonismoen­
treopaganismoeaL:ristandade,aquejásefezalusãono
contodeMelusina.Opaganismo,talcomoseapre~(3ntava
naépocadoRcnascímento,nãoeraentretantoaquclLdos
povosnórdicos,masodaAntiguidade.Umexemplodessa
épocaqueseencaixanonLJSSOtema
éafamosaIpncrotomaclzia
deFrancescoColonna,emportuguês
OSonhodeAmorde
86
Polifilo,55ondeummongedescrevecomoaamadadeseus
sonhos,aninfaPolia,mostra-lheumasériedeimagensece­
nassimbolicamentesignificativasdaAntiguidadeclássica,
deixandoqueeleasvivencie,efinalmenteolevaparaKythera
(?),ondeVênusabençoaocasal.
Umtrabalhoimportanteasermencionadoaquieque
foipreservadoemdoismanuscritosdoséculoXVepubli­
cadoem1521,éLeParadisde
IaReyneSibylledeAntoine
deIa
Sale.56Segundoumatradiçãoitaliana,esteParaísoes­
tarianoMontedellaSibilla,quefazpartedacadeiadosApe­
ninos.Oautorinformasobreaslocalidadesporelevisitadas
esobreastradiçõesligadasàsmesmas.Umacavernaquese
encontranamontanhaeraconsideradaaentradadopalácio
darainhaSibila,cujoreinocorrespondeinteiramenteàmonta­
nhadeVênus.AlendaéigualàdeTannhãuser,comadiferença
dequeaquiospecadosdocavaleiroarrependidosãoperdoados.
Seuescudeiro,noentanto,fazcomqueeleacreditequeopapa
nãopretenderealmenteperdoá-lo,equercolocá-lonaprisão;
paraescapardisso,osdoisretomamaoparaísodaSibila.
Quearainhaesuasdonzelasàssextas-feirasàmeia-noi­
teserecolhamaseusaposentoseláassumamaformadeser­
penteséumtraçoqueconhecemosdalendadaMelusina.In­
felizmente,oespaçodequedisponhonãomepermiteestu­
darestelivromaisdetalhadamente.Comoalgointeressante
àluzdoquefoiditoantes,eugostariaapenasdedestacarque
nestatradiçãoamontanhadeVênuséidênticaàdaSibila.
SegundoDesonay,elaserefereàSibiladeCumae,amesma
queindicouaEnéiasocaminhoparaomundosubterrâneo,
oTártaro,aodizer-lheondepoderiaserencontradooRa­
moDouradoquelheabririaasportasparalápenetrar.
57Por
último,pensou-seemumacavernalocalizadanasproximi­
dadesdolagoAvemo;aindahojemostra-senassuasproxi­
midadesumagrotadaSibila.Evidentemente,estatradição
misturou-secomadeumacavernanoMontedellaSibilla,
tambémlocalizadanasproximidadesdeumlago,equepas­
savacomosendoaentradaparaoparaísodarainhaSibila.
58Há
aindamaisalgumacoisaalémdisso:
87

DesonayS9expressaasuposiçãodequeessagrotateria
sidoumdiadedicadaàdeusa-mãeCibele,cujoculto,origi­
nadoatravésdeumversículodoslivrossibilinos,foiintro­
duzidoemRomaporvoltadoano204a.C.esedifundiu
atéonortedaItáliaeaGália.60Comodoadoradevidae
deusadafertilidade,Cibelereinasobreaságuas;comomãe
damontanhaesenhoradosanimaiselaamaedominaana­
turezasilvestre.Elaconcedeodomdaprofecia,mastam­
bémprovocaaloucura,eseucultoorgiásticoestáaparen­
tadoaodeDioniso.61ElaéconhecidacomomãedeAtis,
masseriademasiadoentraraquiemmaioresdetalhessobre
essemito.Euapenasgostariaaindadelembraraesserespei­
toquefaziapartedocultodessadeusaqueseussacerdotes
seemasculassem.Comovimos,asexperiênciasporquepas­
samosquesãomantidosnoreinodasfadas62equivaleauma
castração,jáqueelesperdemsuamasculinidadeesetornam
femininoseefeminados.Agrandediferença,entretanto,con­
sisteemqueelessucumbemaumaseduçãoesãovencidos
pelamagiadofeminino,enquanto,nocasodossacerdotes
deCibele,trata-sedeumsacrifíciooferecidoàdeusa.
OcaráterdadeusaCibelepodemuitobemsercompa­
radoaodaReyneSibylleaindaqueahipótesedeDesonay
mencionadaacimanãotenhasidoprovadaarqueologicamente.
NoparaísodaSibila,quasetodososaspectosquefo­
ramapresentadosnasváriaslendasdasmulheres-cisne,nin­
fasefadasestãocombinados.Queumtalcomplexodere­
presentaçõesdifundidasuniversalmentedesde,épocasremo­
tíssimassempreretome,ousemantenhavivonamesmacom­
binação,depõecomtodaaclarezaemfavordequesetrata
deumarealidadearquetípicabásica.
AGrandeMãe,aVidente,aDeusadoAmorsãoaspec­
tosdofemininoprimordiale,portanto,tambémdoarqué­
tipoanima.
EmseuensaioDieGottinNatur[ADeusaNatureza],
K.Kerényi63expõeaidéiadequeaofimeaocaboCibele
eAfroditesãoumaeamesma,eambaspodemserequipa­
radasàDeusaNatureza.Trata-sedessagrandefiguradivina
88
queserefletenossereselementaresenaslendasaelesliga­
dasquedescrevemosedecujostraçosaanimatambémé
portadora.
Mulheres-cisneeninfasnãosãoentretantoasumcas
formasemqueosernaturalfemininosefazrepresentar.Me­
lusinaéacusadadeseruma"serpente"pelomarido,ede
fatoestatambémpodepersonificarofemininoprimordial.
Elarepresentaumafeminilidadeaindamaisprimitivaemais
telúricaque,porexemplo,opeixeouatémesmoaave;ao
mesmotempo,noentanto,atribui-seaelaespertezaeaté
mesmosabedoria.Queelaéperigosa,porquesuapicadaé
venenosaeseuabraçoparalisante,éumfatohámuitoco­
nhecido,64comoodeque,apesardoperigoquerepresen­
ta,elaexerceumefeitofascinante.
Aserpenteapareceeminumeráveismitosecontosde
fadas,masnemsemprenumpapeldeCIaradamentefemini­
no.Elatambémaparececomfreqüênciaemsonhosefan­
tasiasmodernos,tantodehomenscomodemulheres,co­
moumaimagemdelibidopré-humana,indiferenciada,enão
tantocomoumcomponenteanímicoconscienteoucapaz
deconsciência.6s
Entretantohá·tambémexemplosondeelapossuium
caráterdeanimadeclarado.AssimJung,emseuescrito
Zum
psychologischenAspektderKorefigur66[Doaspectopsico­
lógicodafiguradeCora],mencionaosonhodeumhomem
jovememqueumaserpentefemininacomporta-sedema­
neira"ternaeinsinuante"econversacomelecomvozhu­
mana.
Umoutrohomem,emcujojardimapareciaocasional­
menteumacobrad'água,achaqueestaolhaparaelecom
olhosnotavelmentehumanos,comosequisesseestabelecer
relaçõescomele.
Comoserpente,respectivamentecomoa"pequenina
serpenteverdeeouro",osernaturalaparecetambémno
contodeE.T.A.HoffmannOCaldeirão
Dourado.67Esta
pequenaserpente,queolhaparaoheróidahistóriacom"inex­
primívelsaudade",torna-seumaverdadeirafiguradeanima,
89

queestánapossedocaldeirãodourado,umrecipienteno
qualsereflete"omaravilhosopaísdaAtlântida",que,ten­
doafundadonomar,representaoinconsciente.Aotrans­
mitiraAnselmusavisãodessasimagens,Serpentinacumpre
umafunçãotípicadaanima.Alémdisso,elaoajudaadeci­
frarumescritoenigmático,queseencontranumafolhaver­
de-esmeralda,quepodeserfacilmentereconhecidacomo
umafolhadolivrodanatureza.
Apericulosidadedaanimaédestacadaquandoelaapa­
rececomoanimalderapina,oqueocorrecomfreqüência
emsonhosefantasias.Umhomem,porexemplo,sonhaque
umaleoaquesaiudesuajaulavemnasuadireçãoecami­
nhaàsuavoltadeformalisonjeira.Elasetransformanuma
mulher,torna-seameaçadoraeoquerdevorar.Tigres,pan­
teras,leopardos,todotipodeanimalderapinasurgecom
freqüênciaemsonhosdessetipo.Araposadesempenhaum
grandepapelnaChina;elaaparececomfreqüênciacomo
umabelamoça,maspodeserreconhecidapelasuacauda.
Muitasvezeselatemalgodefantásticoeévistacomoaper­
sonificaçãodoespíritodeummorto.Asmulherestambém
têmsonhossemelhantes;nessescasos,oanimal,sendofe­
minino,representaasombradaquelaquesonhaousuafe­
minilidadeprimitiva.
Umafiguradaliteraturamodernaquemostraocará­
terdeserpenteeaomesmotempodeanimalderapinada
formamaisimpressionanteéAntinéia,noromanceL'Atlan­
tide68deP.Benoit.ElafascinaatravésdabelezadeVênus,
daespertezadaserpenteedacrueldadedeumanimaldera­
pina,eexerceumamagiairresistívelsobretodososhomens
quesecolocamaoseualcance.Todos,entretanto,sucum­
bemdeamorporela,eseuscadáveresmumificadosenfeitam
comoestátuasummausoléuerguidocomessepropósito.
AntinéiaafirmadescenderdeNetunoedasubmersaAtlântida,
sendoportantoumacriaturadomarcomoMorganaouAfrodi­
te.Elaéumafiguradeanimadeclaradamentedestrutiva;aque­
lesquesedeixamencantarporelaperdemsuasqualidadese
virtudesmasculinase,finalmente,encontramamorte.
90
Comosepodedepreenderdosexemploscitados,cair
empoderdaanimasempreproduzomesmoefeitofatal,que
numcertosentidoécomparávelàemasculaçãodossacerdo­
tesde,Cibele.
EpsicologicamentesignificativoqueAntinéiaexplique
seuefeitonefastocomovingançaemrelaçãoaohomem,que
duranteséculosusoueabusoudamulher.Atéondeelaper­
sonificaoladonegativodofeminino-arquetípico,seriaavin­
gançadoprincípiofemininopeladesvalorizaçãoaquefoi
submetido.
Quando,comoocorreemmuitaslendas,umserdana­
turezaseesforçaparaligar-seaumapessoaeseramadopor
ela,issoquerdizerqueumcomponentedapersonalidadein­
conscienteenãodesenvolvidoambicionaagregar-se
àcons­
ciênciae,assim,tornar-seanimado.Esteesforçoseexpres­
sademaneirasemelhantetambémnossonhos.Assim,por
exemplo,C.G.Jungmencionaumdeles,69emqueumho­
memjovemsonhaqueumpássarobrancoentraemseuquar­
topelajanela.Estesetornaumameninadecercadesete
anosdeidadequesesentacomeleàmesa,transformando-se
entãonovamentenumpássaroque,entretanto,falacomvoz
humana.Nestecasoestárepresentadocomoumserfemini­
nogostariadeserrecebidonacasadoquesonha;entretan­
to,eleéaindaumacriança,istoé,aindanãoestádesenvol­
vido,oqueéexpressopelofatodeelenovamentesetrans­
formarempássaro.Trata-sedeumaprimeiraapariçãodafi­
guradaanima,queemergenolimiardaconsciênciaeéaprin­
cípioapenasmeio-humana.
Oinconsciente,naverdade,nãotemapenasatendên­
ciadepersistirnumestadoprimitivooudetornaraassimi­
larouapagartudooqueéconsciente,70mastambémmos­
traumanítidaatividadeemoutradireção.Háconteúdosin­
conscientesquepressionamparatornar-seconscientesafim
de,comooselfos,vingar-sequandonãosãolevadosemcon­
sideração.Aparentemente,oimpulsoparatornar-secons­
cientesaidosarquétipos,comoseneleshouvesse,porassim
dizer,uminstintoquevisaaumobjetivo.Nãosabemosde
91

ondevemoímpetoinicialparatalequalanaturezadosfun­
damentosdinâmicosqueodesencadeiam.Issofazpartedos
segredosnãopesquisadosdapsiqueedavida.
Nomaterialdequetratamosaqui,atendênciadetor­
nar-seconscienteexpressa-senofatodequeaprincípiose­
resmeio-humanos,aindapresosànatureza,seaproximam
equeremseraceitospela
pessoa,ouseja,pela consciência.
Alémdisso,háentretantomaisumpontoaserlevadoem
consideraçãoquenãofoimencionadoatéagora,ouseja,a
circunstânciadeque,emmuitoscasos,osseresnaturaisdis­
cutidospossuemum
pai(maisoumenosoculto).AsValquí­
riassãofilhasdeOdin,eOdinéumdeusdoventoe
does­
pírito.
Nocontodefadasdocaçadoredamulher-cisneque
precisaserlibertadadamontanhadevidro,seupaiencon­
tra-selámesmoeélibertadojuntocomela.Aninfagalesa
éentregueaohomempelopai,assimcomoUndineéenvia­
daaomundodoshomenspelopai,oreidomar,paraque
elaconsigaumaalma.
Nossonhosmodernosenaimaginaçãoativa,afigura
daanimatambémsurgecomfreqüênciaacompanhadapela
figuradopai.Issopoderiaserentendidocomoumaindica­
çãodequeháumfatormasculino-espiritualnabasedona­
tural-femininonapsiqueinconscienteaquetalvezsedeva
atribuiroconhecimentodoocultoqueosseresdanatureza
citadospossuem.Jungchamaaessafigurade"ovelhosá­
bio"ouo"arquétipodosentido",enquantodesignaaani­
made"arquétipodavida".71
Éofatorsignificantequeexistenoinconscienteque
permiteaconscientização.Segundodeterminadopontode
vista,estefatorpodesercomparadocomaidéiado
"lumen
naturae",
queParacelsodizserumaluzinvisívelquese"apren­
depelossonhos"."Comoaluzdanaturezanãopodefalar,
elaentãodispõedopoderdapalavra(deDeus)duranteo
sono."72
Quandoolhamosumasegundavezoquefoiexposto
acima,torna-sepatentequeosseresnaturaisdiscutidosapre­
sentampropriedadessemelhanteseumcomportamentoem
92
suamaiorpartecoincidente.Estespodemmuitobemser
comparadoscomocaráterdaanimaeseusefeitos:
ambos
representam
oprincípiodeEros; osernaturaltransmiteco­
nhecimentooculto,assimcomoaanimatransmiteoconhe­
cimentodosconteúdosdoinconsciente.
Ambosexercem
um
efeitofascinante, emuitasvezespossuemumpoderde
domínioquepodeserdestruidor,nestecasoespecialmente,
quandodeterminadascondiçõesàsquaisarelaçãoentreo
homemeosernaturalouentreoeuconscienteeaanima
estãoassociadasnãosãocumpridas.Estaúltimaé,emmui­
taslendas,acausadeestasmuitasvezesterminaremdema­
neirainsatisfatória,istoé,dearelaçãoserrompidaouim­
possibilitada.Conclui-sedaíquesemelhanteligaçãoéalgo
melindroso,eissovaletambémparaarelaçãocomaanima.
Comoensinaaexperiência,elatambémfazdeterminadas
exigênciasaohomem.Elaéumfatorpsíquicoaserlevado
emconsideraçãoequenãopodeser'desprezado,oqueem
geralconsistenatendênciadeohomemnaturalmentegos­
tardeseidentificarcomsuamasculinidade.
Masnãosetrataabsolutamentedequeeleacoloquetotal­
menteaserviçodaSenhoraAnima,comoqueeleaperde,mas
apenasqueeletambémconcedaumdeterminadoespaçoao
feminino,quedequalquerformafazpartedoseuser.Issoeleo
fazaoreconhecererealizarEros,istoé,oprincípiodorelacio­
namento.Fazpartedissoofatodeelenãosóperceberseus
sentimentosmasofatodetambémosutilizar,poisparao
estabelecimento,eespecialmentetambémparaamanutençãode
umarelação,umjulgamentodevalor,queosentimentoé,é
indispensável.Pornatureza,ohomemestámaisinclinadoa
relacionar-secomcoisas,porexemplo,comseutrabalhooucom
algumaoutraáreadeinteresse.Amulher,porsuavez,liga-se
maisàsrelaçõespessoais,eesteétambémocasodaanima.Por
issoelagostadeenvolverohomemnelas,maspodetambém
prestar-lhebonsserviçosnaformaçãoderelacionamentos.No
entanto,issosóacontecequandoesteelementofemininoé
incorporadoàconsciência.Enquantoagedemaneiraautônoma,
eleperturbaouimpossibilitaosrelacionamentos.
93

Osresultadosdepesquisaseexperiênciasdapsicologia
profundatêmmostradoque,paraohomemmoderno(ou
paramuitosdentreeles)énecessárioater-seaosconteúdos
doinconsciente.Paraisso,arelaçãodohomemcomaani­
maédeespecialimportância;paraamulher,orelacionamen­
tocomoanimus,poiselesigualmenteestabelecemaligação
comoinconscienteaoconstruirumaespéciedeponteaté
ele.Usualmente,aanimaaprincípioéprojetadanumamu­
lherreal;issopodedisporohomemaentraremrelaçãocom
ela,oquetalveznãolhefosseabsolutamentepossíveldeou­
tramaneira.Masissotambémpodeterporconseqüência
queelesetomeextremamentedependentedamulherem
questão,comosresultadosfataisdescritosacima.
Enquantoessaprojeçãoperdura,énaturalmentedifí­
cilencontrararelaçãocomaanimainterior,istoé,coma
própriafeminilidade.Freqüentemente,entretanto,surgem
emsonhosfigurasdemulheresquenãopodemseridentifi­
cadascomumapessoareal.Estasaparecemusualmenteco­
mo"aestranha","adesconhecida"ou"amulhervelada",
ouentão-éocasodanossalenda-comoumsernãopro­
priamentehumano.Sonhosdessetiposãousualmenteim­
pressionanteseacentuadamenteemocionais,eénaturala
suposiçãodequesetratadeumagrandezaanímicainterna
comaqualelesestabelecemumaligação.
T<LSfiguraseascircunstânciaseefeitosqueasacom­
panhamsãotratadascommuitafreqüêncianaliteratura,e
sãorarasasobrasemqueosrelacionamentosentreapessoa
eosernaturalchegamaumaconclusãosatisfatória.Ara­
zãoparaissopoderiaserprocuradanofatooefaltaràspri­
meirasanecessáriaconsciência.Paraestabelecerumarelação
com·oinconsciente,éimprescindívelqueapersonalidade
estejasuficientementedeterminadaefirme,deformaque
elanãopossaserdominadaeapagadapeloinconsciente,que
éoperigoexistentequandoselidacomo
mesmo.73Uma
personalidadeconscientetambéménecessáriaparamanter
acontinuidadedetalrelação,poisasfigurasdoinconscien­
te,emboragostassemdeserrecebidaspelaspessoas,istoé,
94
naconsciência,sãodenaturezavolátiletomamadesaparecer
comfacilidadeparaolugardeondevieram("Eusoufugaz
comoaauroraedifícildeagarrarcomoovento",dizUrvasi).
Asoluçãodesseproblemapareceserhojeespecialmen­
teurgente,comopodemcomprovarpsicoterapeutasepsi­
cólogos;comométododaassimchamadaimaginaçãoati­
va,C.G.Jungmostrouum
caminho.74Atravésdaconfron­
taçãoentreapersonalidadedoeueasfigurasdoinconscien­
teedadiscussãocomelas,estasporumladodiferenciam-se
doeu,eporoutroestabelecemumarelaçãocomele,ocor­
rendoumareaçãoparaosdoislados.
Umexemplomuitobonitoeapropriadoparaissoen­
contra-senocontodefadasLibussa,75cujooriginalétcheco
equeganhouumanovaadaptaçãodeMusaus.Nósocita­
mosaquideformaabreviada:trata-sedaninfadeumaár­
voreque,aoverseucarvalhoameaçado,pedeproteçãoaum
jovemescudeirochamadoKrokus.Comopagamentopelos
seusserviços,elepoderiaexpressarumdesejo:famaehon­
ra,riquezaoufelicidadenoamor.Maselenãoescolheuna­
dadisso,ambicionando"descansaràsombradocarvalho
dasfadigasdacampanha"e,dabocadaninfa,"ouvirosen­
sinamentosdasabedoriaparadesvendarossegredosdofu­
turo".Seudesejofoiatendido;acadafimdetarde,elao
visitavanolusco-fuscoepasseavacomelepelasmargenscheias
dejuncosdotanque."Elainstruiuseuatentoalunoquan­
toaossegredosdanatureza,ensinou-lheaorigemeanatu­
rezadascoisas,deu-lheaulassobreaspropriedadesnaturais
emágicasdasmesmasetransfoqnouorudeguerreironum
pensador,numsábiouniversal.
Amedidaque,atravésdos
passeioscomabelasombra,assensaçõeseossentimentos
dojovemseaprimoravam,aformadoelfopareciaconden­
sar-seeganharmaisconsistência.
Seubustosentiacalore
vida,seusolhoscastanhossoltavamfogoeelepareciater
aceito,juntocomafiguradeumajovemmeretriz,também
ossentimentosdameninaemflor."
Aquiaaçãoeareaçãoqueocorremduranteorelacio­
namentocomafiguradaanimaestãodescritosdeformaex-
95

tremamenteapropriada.Estaganhamaisconsistência,torna-se
maisrealemaisviva,enquanto,poroutrolado,osentimen­
todohomemsetornabastantedIferenteaele,alémdisso,
éeducadoparatornar-se"umpensadoresábio",conseguin­
doassimrenome.Ocontotemumaconclusãonatural,76quan­
do,apósumalongaconvivênciaaninfaumdiasedespede
deseuesposojáqueprevêofiminevitáveldoseucarvalho.
Estefoiatingidoporumraioeaninfa,cujavida,apesarda
humanidade,estavaligadaàdaárvore,desapareceparasempre.
OescritoringlêsWilliamSharp,77jámencionado,encon­
trouumaformaderelacionamentocomaanimanotávele,
creioeu,única.Seupai,umcomerciante,queriaqueelees­
tudassedireito,paraoqueelenãotinhaaptidão.Emuito
menososatisfaziapassartrêsanostrabalhandonumbanco
londrino.Depoisdeabandonaresteúltimo,elepassouase
dedicaràliteraturaeàcríticadearte,tendopublicadotam­
bémalgumapoesia.Issoolevoualigar-seaocírculodees­
critoreseartistaslondrinos.Eleeraespecialmenteamigode
DanteGabrielRossetti.Porproblemasdesaúde,eletevede
renunciaralecionaremuniversidades,oquelhefoiofereci­
domuitasvezes.Suaesposa,aautoradabiografiadeonde
tireiestesdados,erasuaprima.Alémdasuamentalidade
crítico-intelectualeletinhaumavidadefantasiasesonhos
muitointensa,queelechamavade"vidaverde",poiselaes­
tavaintimamenteligadaànatureza,pelaqualelenutriaum
grandeamor.Elesatisfaziaessafacedoseusercomestadas
anuaisnolitoral,principalmentenaEscócia.Umababáes­
cocesajáhaviafamiliarizadoomeninocomlendasgalesas,
deformaque,paraele,aEscóciaeraumaespéciedepátria
anímica.Duranteumadessastemporadas,elecomeçoulá
mesmoaescreverum"romancecelta"intitulado"Pharai's".
Nessaocasião,ficouclaroparaele"quantooelementofe­
mininoeradominantenele,equeolivrodeviasuacriação
aoladofeminino,subjetivodasuanatureza".Ele,portan­
to,decidiupublicá-IocomopseudônimodeFionaMcLeod,
quelheveioàmente
readymade. Eleescreveuvárioslivros
comessepseudônimo,nosquaisanaturezapeculiardaEs-
96
cóciaedeseushabitantesestárepresentadaemimpressio­
nantesdescrições.78Estasobrasforammuitoapreciadas,es­
pecialmenteporquenessaépocahaviasurgidoumnovoin­
teressepelaculturacelta.W.B.Yeats,porexemplo,escre­
veuarespeito:"Dogrupodenovasvozes,nenhumaémais
significativaqueavoznotavelmentemisteriosaquesema­
nifestanasnarrativasdeFionaMacLeod.Elasetornouavoz
dessaspessoasprimitivasedascoisaselementares,nãoape­
nasatravésdaobservaçãodasmesmas,masapartirdeuma
identidadecomanatureza.Suaarteédaquelegrandetipo
queestábaseadanarevelaçãoequetemavercomcoisas
invisíveiseinapreensíveis."Perguntadosobrecomotinha
passadoaescrevercomumnomedemulher,Sharprespondeu:
"Comomulher,possousardasinceridadequeéimpossívelusar
como\illiamSharp...Essesentimentoembriagantedeserum
comanatureza,esteêxtaseeelevaçãocósmicos,esteperam­
bularpelasfronteirasmaisexternasdomundousual,tudo
issoestátãoentrelaçadocomoromantismodavidaqueeu
nãopoderiameexpressarcommeuEusuperiorexternousual."
ElemantinhasuaidentificaçãocomFionaMacLeodrigoro­
samenteemsegredo,emesmoseusamigossóvieramato­
marconhecimentodeladepoisdemuitotempo.Aoladoda
correspondênciadopróprioWilliamSharp,Fionamantinha
asuacomseusleitores.Eleescreveuumaveznumacartaa
suamulher:"W.S.eF.M.tornam-secadavezmaisdecla­
radamenteduaspessoas,àsvezesunidasemespíritoe,jun­
tas,umapersonalidade,àsvezesnitidamentediferentesuma
daoutra."Eleassinaestacartacom"Wilfion"(contração
deWilliameFiona).Emseuaniversário,elecostumavasem­
pretrocarcartascomFiona,emqueexpressavasuagratidão
enquantoelalhefaziaadvertências.
Temosaquiumcasoemqueaanimainternaatingiu
umgrauraroderealidade.Talvezissoestejabaseadonuma
disposiçãoespecialdeW.Sharp;emprincípio,noentanto,
correspondeaoquesequerdizercomorelacionamentocom
aanimaoucomaintegraçãodamesma,oqueépossívela
cadaumemdeterminadamedida.
97

Aintegraçãodaanima,istoé,aincorporaçãodoele­
mentofemininonapersonalidadeconscientedohomem,
fazpartedoprocessodeindividuação.Aíháumpontode
especialimportânciaaserlevadoemconsideração:oelemen­
tofemininoquedeveserintegradocomoumcomponente
dapersonalidadeéapenasumapartedaanima,asaber,seu
aspectopessoal.Maselaaomesmotemporepresentaoar­
quétipodofeminino,eesteédenaturezasuprapessoal,e
porissonãopodeserintegrado.
Nossaobservaçãomostrouque,portrásdosseresele­
mentaresdescritos,encontram-seasfigurasdivinasdeCibe­
le,deAfroditee,porfim,dadeusaNatureza.Apartirdes­
sepanodefundoarquetípico,esclarece-seaviolênciairre­
sistívelquepodeemanardeumadessasfigurasdeanima.
Quandoéapróprianaturezaqueseopõeaalguém,écom­
preensívelquesesejadominadoevencidoporela.Issoocor­
reentãoespecialmentequandooaspectoarquetípicodaani­
manãosediferenciadopessoal.Aanimaconsegueexercer
suaprepotênciaquandoosdoisaspectossemisturam;por
isso,acimadetudo,éimportantediferenciaroqueperten­
ceaopessoaldoqueésuprapessoal.Emsonhosefantasias,
estadivisãoàsvezesérepresentadadetalformaqueafigu­
radaanimasuprapessoalmorre.Conheçoumahistóriafan­
tásticaemqueestavaiparaocéurestandoumamulherco­
mum.NoSonhodeAmordePoUfilojácitado,osonhoter­
minacomaninfaPoliadesaparecendonoar,"comouma
imagemceleste,divinizada".79
C.G.Jungmencionaosonhodeumhomemnoqual
aanima,umafigurafemininadetamanhomaiorqueona­
tural,encontra-se,comorostovelado,empénolugardoal­
tar.Comoarquétipo,aanimaédenaturezasobre-humana
evivenumlugarceleste,comoasidéiasplatônicas.Diferen­
tedoscomponentesanímicosfeminino-pessoais,elaainda
assimestáportrásdelescomoimagemprimordialeosfor­
madeacordocomasuafigura.Devemosiraoencontrode­
la,aGrandeMãeeDeusadoAmor,aSenhora,oucomoquer
quesechame,comveneração.Ohomemdevediscutircom
98
suaanimapessoal,comafeminilidadequelhepertence,que
podeacompanhá-Ioecompletá-Io,masquenãodevedomi­
ná-Io.
Nestetrabalho,tenteirepresentaraanimacomoserna­
tural,enãoleveiemconsideraçãosuasformasdeaparição
maiselevadas,comoporexemploadaSophia.Parece-me
importanteevidenciaroladonaturaldamesma,jáqueeste
fazpartedanaturezadofemininodeformatãopronunciada.
Comoreconhecimentoeaintegraçãodaanima,cria-se
umposicionamentototalmentemodificadoemrelaçãoao
feminino.Anovaavaliaçãodoprincípiofemininoexigeque
anaturezatambémrecebaaveneraçãoquelheédevidaapós
opontodevistadointelectodominantenaeradaciênciae
datecnologiaterlevadomaisàsuautilização,eatémesmo
exploração,queàsuaveneração.Mashoje,felizmente,po­
de-seobservarsinaisqueapontamparaadireçãodaúltima.
Omaisimportanteeomaissignificativoéonovodogmada
AssumptioMariaeeainterpretaçãodamesmacomosenho­
radacriação.Nanossaépoca,emquepoderesdissociativos
estãoativosdeformatãoameaçadora,dividindopovos,pes­
soaseátomos,éduplamentenecessárioqueospoderesde
ligaçãoeuniãotambémpossamentraremação;poisavida
estábaseadanacombinaçãoharmônicadasenergiasmascu­
linasefemininastambémnointeriordoindivíduo.Produzir
auniãodessescontrárioséumadastarefasmaisimportantes
dapsicoterapiaatual.
99

Notas
UMACONTRIBUIÇÃO AOPROBLEMA DOANIMUS
1.VerFrazer,TabooandthePerilso[theSoul;Crawley,TheIdeao[the
Soul;Lévy-Bruhl,DieGeistigeWeltderPrimitiveneDieSeelederPrimitiven.
2.Romanos7,19.
3.PsychologischeTypen,p.689s(ObrasCompletasVI,527);comparartam­
bémcomDieBeziehungenzwischendemIchunddemUnbewussten,p.l1ss(Ob.
Comp.VII,p.139s).
4.VerPsychologischeTypen,p.597s(Ob.Comp.VI,p.453)eDieBezie­
hungenzwischendemIchunddemUnbewussten,p.30(Ob.Comp.VII,p.151).
5.VerPsychologischeTypen,p.661se670ss(Ob.Comp.VI,p.503sse
51Oss)eDieBeziehungenzwischendemIchunddemUnbewussten,p.117ss(Ob.
Comp.VII,p.207ss).
6.Noqueserefereaoconceitoderealidadepsíquica,eumeremetoaoses­
critosdeC.G.Jung,especialmentePsychologischeTypen,p.17ss(Ob.Comp.VI,
p.7ss).
7.EumerefuoaquiaovaliosolivrodeE.Harding,TheWayo[aliWomen.
8.J.Grimm,DeutscheMythologieI,p.115ss.
9.IdemI,p.110.
10.Idem11,p.725.
11.Lévy-Bruhl,DiegeistigeWeltderPrimitiveneDieSeelederPrimitiven.
12.CompararcomC.G.Jung,PsychologischenTypen,p.646s(Ob.Comp.
VI,p.491s).
13.Exemplosnotáveisdefigurasdeanimuspodemserencontradosnalite­
ratura,porexemploem:Fraser,TheFlyingDrapereRoseAnstey;Hay,TheEvü
Vineyard;edamesmaformaem:Flournoy,DesIndes
àIaplan~teMars.Etudesur
uncasdesomnambulismeavecglossolalie.
14.DieGeheimlehredesVeda.AusgewiihlteTextederUpanishad's,organi­
zadoporDeussen.
101

15.AusführlichesLexikondergriechischenundromischenMythologie,or­
ganizadoporRoscher,
I,verbete"Dioniso".
16.VerC.G.Jung,PsychologischeTypen,p.596(Ob.Comp.VI,p.4515)
eDieBeziehungenzwischendemIchunddemUnbewussten,p.30(Ob.Comp.
VlI,p.151).
AANIMACOMOSERNATURAL
1.CançõesdoRg-Veda,X,95,p.142ss.
2.TheSatapabrâhmana,accordingtothetextoftheMâhyandinaschool.
3.AsApsaras
(=quesemovemnaágua)sãoninfasaquáticascelestesde
grandebelezaquesededicamaocantoeàdança.Seuscompanheirosmasculinos
sãoosgandarvos,ig.ualmenteamantesdamúsica.(EncyclopediaofReligionand
Ethics,organizadaporHastings,I,verbete"Apsaras".)
4.Apuleius,DieMetamorphosenoderDergoldeneEsel.VertambémNeu­
mann,EinBeitragzurseelischenEntwicklungdesWeiblichen(Comentáriosobre:
Apuleius,AmorundPsyche).[Cr.AmorePsiquê,EditoraCultrix,SãoPaulo,1990.]
5.VeralémdissoKuhn,MythologischeStudienI:DieHerabkunjtdesFeuers
unddesGottertranks,ondeestefilhoéinterpretadocomosendoofogo.
6.SegundoACelticMiscellany.TranslationsfromtheCelticLiterature.Com­
parartambémcomD'ArboisdeJubainville,LeCyclemythologiqueirÚlndaisetÚl
mythologieceltique.
7.1.Grimm,DeutscheMythologie
I,p.346.
8.J.Grimm,idemp.347.
9.J.Grimm,idemp.354.
10.Edda,I:Heldendichtung,Wólundlied,p.17s.
11.Istoé,comoValquírias,elastecemofiodavitóriaedafama.
12.ParaissovertambémM.-L.vonFranz,ArchetypalpatternsinFairy
Tales,59capo[PadrõesarquetÍpicosnoscontosdefadas.]
13.Segundo1.Grimm,op.cit.,p.354,ocisneeraumaavequepreviaofu­
turo:apalavracisneemalemão,schwanen,estariarelllcionadacomahnen,prever.
A"gralhadavitória"(Badb)damitologiairlandesa,umaantigadeusadaguer­
ra,estáaparentadacomaValquíria,mastemmaisocarátersinistrodeumaanun­
ciadoradedesgraças.(Macculloch,TheReligionoftheancientCelts,p.71sedis­
persopelotexto.)
14.Sobreaanimacomotecelã,verJung,Aion,p.27s.(Ob.Comp.IX,2~
parte).
15.fatum
=dito,vaticínio(verWalde,LateinischesetymologischesWarter­
buch).
16.ACançãodosNibelungos,lI,259Aventura,p.122s.
17.Emalemãomoderno:
"SieschwammenwiedieVogelschwebendaufderFlut.
Dadaucht'ihnihrWissenvondenDingengut:
102
SogÚlubt'erumsolieber'wassieihmwolltensagen."
Nooriginal:
"Sieswebtensamdievogele'vorimüfdervluot.
desdühteninirsinne'starcundeguot:
swazsiimsagenwolden'ergeloubteindesterbaz.••
18.Germania,8,citadoporJ.Grimm,op.cito
I,p.78.
19."quesuasmãesdefamília,atravésdeadivinhaçõeseprevisõesinformam
seéaconselháveldarounãoumabatalha...",citadoemop.citoI,p.78.
20.op.citoI,p.361.
21.Aquisgranum.
22."umamagaoufadaquecomoutrosnomeséchamadatambémdeninfa
oudeusaoudrÍade."
23.EscritocomemorativoAlbertOeriparao
21desetembrode1945.
24.VerJung,PsychologischeAspektedesMutterarchetypus(Ob.Comp.IX,
1~Parte).
25.ObrasCompletaslI.
26.VerporexemploDerJiigerunddieSchwannenjungfrau,em:Deutsche
MiirchenseitGrimm
I,p.133ss.:DieweisseunddieschwarzeBraut,em:Brüder
Grimm,Kinder-undHausmiirchen,
I,N948,eDieRabe,op.citolI,N987;Die
Entenjungfrau,em:RussischeMarchen,N932.DieGeschichtevonHasan,dem
Bassoriten,em:DieErziihlungenaus1001Nacht,IX.
27.Segundofontesgermânicasenórdicas,pensava-sequesobaMontanha
deVidrohaviaumlugardoAlém,ondeficavamosmortosouosbem-aventurados;
segundooutraconcepção,lávivemmulheres-cisne,fadas,bruxas,anõeseseresse­
melhantes.Emmuitoscontosdefadas,pessoassãolevadasparaláporumespírito
oudemônioeprecisamserlibertadas.(ComparecomHandworterbuchdesdeutschen
AbergÚlubens
m,verbete"Glasberg".)EstelugardoAlémpodemuitobemsercom­
paradocomoinconsciente.
28.Musaus,VolksmiirchenderDeutschenlI.
29.Oeditorintroduzaquiumcomentárioengraçado,quealocalidadederiva
seunomedeumacertaSchwanhildiseseupaiCygnus,"pertencendoosdoisàraça
dasfadas,descendendoprovavelmentedosovosdeLeda"!
30.VerarespeitoJung,ZumpsychologischenAspektderKorefigur(Ob.
Comp.IX,
Hparte).
31.VeropoemadeGoetheDerFischer[OPescador],(Obras,
I,p.171),
Winternacht[NoitedeInverno],(Obras,IX/I,p.74)eNixeimGrundquell[Ninfa
naFonte],(IX/I,p.87),deGottfriedKeller,etambémDieversunkeneGlocke
[Orelógiosubmerso]deGerhardtHauptmanneOndinedeJeanGiraudoux.
32.J.Grimm,op.cito
I,p.360.SegundoKluge,EtymologischesWorterbuch
derdeutschenSprache,osignificadooriginaldapalavraMinne(amor)equivalia
arecordação,mem6ria,lembrança.Elaestáaparentadaàpalavrainglesamind(men­
te)ederivadaraizindogermânicamenouman
=pensar,julgar.J.Grimmusa,para
man
=homem(op.cit.).
33.Ver,porexemplo,ointeressanteestudodeBezzolasobreGuillaumeIX
103

elesoriginesdeI'amourcourtois.
34.Rhys,CelticFolklore.WelshandMame
35.Atribuía-seaoferroopoderderepelirseresélficos.
36.Istoédescritodemaneirabastantedrásticanumcontodefadasnórdi­
co,DieWaldfrau[AMulherdaFloresta)(lVordischeVolksmiirchen,Nl?34),que
contacomoumlenhadorfoiencantadoporumabeladonzelaqueeleencontrou
nafloresta.Todasasnoiteselaolevavaconsigoparasuamontanha,ondetudo
eratãosuntuosocomoelenuncahaviavistoantes.Umdia,quandoeleestavacor­
tandolenha,amulherlhetrouxeacomidanumabelabandejadeprata.Quando
elasesentousobreotronco,eleviu,decepcionado,queelatinhaumrabodevaca
quecaíranafendadaárvore.Rapidamenteeleretirouacunha,deformaqueo
raboficoupresoefoicortado.EleentãoescreveuonomedeJesusnabandeja.
Imediatamenteamulherdesapareceueabandejadecomidanãopassavadeum
pedaçodecascadeárvorecomesterco.
37.Nasuperstiçãopopular,oespelhoéconhecidocomouminstrumento
demagia;eletemumefeitonuminoso,emquesevêneleasombraouduplode
simesmo.Umespelhomágicomostratudooqueacontecenomundo,ouanuncia
ofuturoerevelaabsolutamentetudooquehádesecretoouoculto.(VerBand­
w6rterbuchdesdeutschenAberglaubens,IX,verbete"Spiegel".)
38.VerJung,Paracelsica,p.157ss.edispersonotexto,ondealendaécon­
tadaporextensoeafiguradeMelusinaéinterpretadacomoanimanocontexto
dosimbolismoalquírnicoedaconcepçãoparacélsicadasMelusinascomoalmas
quehabitamosangue.
39.SegundoBaring-Gould,CuriousMythsoftheMiddleAges,lI,p.206ss.
40.Como,porexemplo,Lourdes.
41.SegundoMaury,CroyancesetlégendesduMoyen-Age.
42.Sharp,WilliamSharp(FionaMacLeod).AMemoir,compüedbyhiswife
ElizabethA.Sharp.
43.LiberdeNymphis,Sylphis,PygmaeisetSalamandris,etdecaeterisspi-
ritibus,p.60.
44.op.cit.,pp.63e62.
45.delaMotte-Fouqué,Undine.
46.Carus,Psyche.
47.MariedeFrance,LesLais.NaAlemanhapelaHertz,Spielmannsbuch.
48.UmalendaalemãsemelhanteérelatadaporParacelsusnoensaiomen­
cionadoacima,p.60s.,bemcomopelosirmãosGrimmem:DeutschenSagenlI,
p.202ss.ElescontamahistóriadeumcavaleirodeStaufenbergqueumdia,ao
cavalgaracaminhodaigreja,encontrouumabelíssimajovemqueestavasentada
completamentesóàentradadeumafloresta.Comoseconstatou,elaoestavaes­
perandoali.Elalheconfessoutambémqueoamavadesdesempreequeestivera
aseuladoprotegendo-oeajudando-o,apósoqueelessetornaramnoivos.Elatam­
béméumafadaqueseapresentasemprequedesejadaequeoabastecededinhei­
roebensdesdequeelenuncaseligueaoutramulher.Quando,forçadopelafamí­
lia,elesedispõeafazê-loapesardetudo,ela,apósavisá-lo,demaneiramisteriosa
104
leva-oàmortenoespaçodetrêsdias.Nestadonzela,quesempreamouocavalei­
ro,nãoédifícilreconhecerofemininoquelhepertence;suaexigênciadeexclusi­
vidadeéumtraçocaracterísticodaanima,quefreqüentementelevaadifíceiscom­
plicaçõeseconflitos.
49.Macculloch,op.cit.,p.362ss.
50.Estemotivodesempenhaumpapelimportante,porexemplo,emChrétien
deTroyes,nospoemasYwaineEreceEnide,tendosidoestaúltimaobratrata­
daporR.Bezzolanumestudomuitosutil(Lesensde['aventureetde['amour
[ChrétiendeTroyes).Ofeitomaisdifícildoheróiperdidamenteapaixonadocon­
sisteemqueeletemdelutarcomumadversáriodessetipo,emcertamedida,por­
tanto,oseuduplo.Asuperaçãodomesmosignificaqueeleconseguelivrar-sedo
laçodeamorqueoisolavae,comamulher,novamentededicar-seàsociedadee
aomundo.
51.VerBarto,TannhiiuserandtheMountainofVenus.Astudyinthelegend
oftheGermanicParadise,deondetambémforamretiradasascitações.
52.Emalgumasversõesestá:"VênusdaDUvelinne(?)".
53.AquiaSenhoraVênustornou-seaVerenasuíça.
54.VertambémJ.Grimm,DeutscheMythologielI,p.780.NabaixaIdade
Média,aMontanhadeVênusfoiidentificadacomoGraalnaAlemanha,jáqueesse
nomepossuíanaépocaumsignificadodefesta,defestividade.Hertz(DieSagevon
ParsifalunddemGral,p.36)citaumcronistaqueescreve:"Oshistoriadoresque­
remdizerqueestejovem,ocavaleirodocisne,veiodamontanhaondeVênusestá
noGraa!."
55.VeradetalhadapesquisapsicológicadestaobraporL.Fierz-David,Der
LiebestraumdesPoliphilo.
56.AntoinedeIaSale,LeParadisdeIareineSibylle;organizadoporDesonay.
57.AusfiihrlichesLexikondergriechischenundromischenMythologie,or-
ganizadoporRoscher,IV,verbete"Sibylla".
58.Op.cito
59.AntoinedelaSale,LeParadis.
60.Aimagemdadeusa,umapedrasagrada,foiapanhadanaépocaporPessi­
nuselevadaparaRoma.
61.Emumhinoórfico,elaéinvocadacomo"Mantenedoradavidaeamiga
dapaixãofuriosa".(Orpheus.AltgriechischeMysteriengesõ'nge)
62.Poder-se-iatambémcaracterizá-Iocomo"ReinodasMães",maseuesco­
lhiaoutraexpressãoporque,nanarrativamencionada,nãoestádestacadooaspecto
matemo,massimaqueledeEros.
63.EranosJahrbuchXIV(1946).
64.C.G.Jung,SymbolederWandlung:verporexemplopp.513e610(Ob.
Comp.V).
65.C.G.Jung,SymbolederWandlung(Ob.Comp.V),eNeumann,Ur­
sprunggeschichtedesBewusstseisns.
66.EmJungeKerényi,EinführungindasWesenderMythologie(Ob.Comp.
IX,
HParte).
105

67.EumerefIroaonotávelestudoBi/derundSymboleausE.T.A.Hof.
fmannsMiirchen"DerGoldneTopf"deA.Jaffé.EmC.G.Jung,Gestaltungendes
Unbewussten.
68.Benoit,L'Atlantide.Romance.
69.VerarespeitoJung,ZumpsychologischenAspektderKorefigur(Ob.
Comp.IX,1~Parte).
70.VerC.G.Jung,SymbolederWandlung(Ob.Comp.V)eNeumann,
UrsprungsgeschichtedesBewusstseins.
71.VerC.G.Jung,VondenWurzelndesBewusstseins:"úberdieArchetypen
deskollektivenUnbewussten,pp.44e51(Ob.Comp.IX,1~Parte),bemcomo
C.G.Jung,SymbolikdesGeistes:ZurPhiinomenologiedesGeistesimMiirchen,
p.17ss.(Ob.Comp.IX,HParte).
72.Ver,alémdisso,C.G.Jung,Psychologie-undAlchemie(Ob.Comp.XII)
eParacelsica(Ob.Comp.XV).
73.VerC.G.Jung,DieBeziehungenzwischendemlchunddemUnbewussten
(Ob.Comp.VII),eNeumann,UrsprungsgeschischtedesBewusstseins.
74.VerarespeitoJung,ZumpsychologischenAspektderKorejigur(Ob.
Comp.IX,HParte).
75.VolksmiirchenderDeutschen
lI.
76.Ocontodescrevetambémosdestinosdastrêsfilhasdocasal,queeunão
abordoaqui.
77.E.A.Sharp,op.cit.,p.26.
78.OprimeirolivropublicadocomestenomefoiPharai"s.Emalemão,apa­
receramDasReichderTriiume[OReinodosSonhos]eWindundWoge[Ventos
eVagas].
79.VerL.Fierz-David,op.cit.,p.226s.
106
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derWurzelndesBewusstseins.
StudienüberdenArchetypus(Psy­
chologischeAbhandlungenIX).Rascher,Zurique,1954(Obras
CompletasIX/I)).
*
Nestevolume,aspáginasdasnotasdasobrascitadasestãoemordemcrono­
lógicaesereferemàprimeiraedição.Namedidaemqueforempublicadas,também
asreediçõesdasObrasCompletasserãoapresentadasemordemcronológica.
109

DiepsychologischenAspektedesMutter-Archetypus.In:Eranos
JahrbuchVI(1938).RheinV.,Zurique,1939.Reediçãoem:Von
denWurzelndesBewusstseins.Vejaacima.
ZumpsychologischenAspektderKore-Figur.In:JUNGUND
KÉRENYI,EinführungindasWesenderMythologie,AlbaeVigiliae
VI/VIIeVIII/IX,Pantheon,AmsterdameLeipzig,1941.Reedição
RheinV.,Zurique,1951(ObrasCompletasIX/I).
Paracelsica.DuaspalestrassobreomédicoefJlósofoTheophrastus.
Rascher,Zurique,1942(ObrasCompletasXV).
PsychologieundAlchemie(PsychologischeAbhandlungenV).
Rascher,Zurique,1944.Reediçãoem1952(ObrasCompletas
Xli).
DasRiitselvonBologna.In:ObracomemorativadeAlbertOeri.
Veracima.
ZurPhá'nomenologiedesGeistesimMarchen.
In:Symbolikdes
Geistes,StudienüberpsychischePhanomenologie(Psychologische
AbhandlungenVI).Rascher,Zurique,1948.Reediçãoem1953
(ObrasCompletasIX/I).
GestaltungendasUnbewussten(PsychologischeAbhandlungen
VII);Rascher,Zurique,1950(ObrasCompletasIX/IeXV).
Aion.UntersuchungenzurSymbolgeschichte(Psychologische
Abhandlungen,VIII).Rascher,Zurique,1951(ObrasCompletas
IX/2).
SymbolederWandlung.AnalysedesVorspielszueinerSchizophre­
nie.(Reediçãode:WandlungenundSymbolederLibido.EinBeitrag
zurEntwicklunsgeschichtedesDenkens,LeipzigeViena,1912)
Rascher,1952(ObrasCompletasV).
VonderWurzelndesBewusstseins.StudienüberdenArchetypus
(PsychologischeAbhandlungenIX)Rascher,Zurique,1954(Obras
CompletasVIII,IX,XleXlII).
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org.porWendelinFoerster,2'!-ed.,reorganizadaeampliada.Halle
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2'!-ed.,Gütersloh,1886e1912.
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1910(3~ed.revista);3vols.KarlWinter'sUniversitiitbuchhandlung,
1938-1956).
Dasobrasmaismodernas(de1920emdiante)tambémémencionadaaedi­
tora,semprequepossível.
112
ASPROPRIEDADES CURATIVAS DOS
CRISTAISEDASPEDRASPRECIOSAS
K(/trinaRnjJhneLL
Manualdefácilcompreensãosobreousodecristaisepedras
preciosasparaocrescimentointerior,acuraeoequilibriona
vidacotidiana,estelivrodeKatrinaRapbaelIensinacomo
ampliarapercepçãopessoalecomocentralizá-Ia,harmonizan­
do-acomasenergiasdaspedraspreciosas.Amagnitudeeo
potencialdosaistaisedaspedraspreciosas,eoimpactopositivo
quepodemcausaremnossavidapessoalenaevoluçãodo
planetaemquevivemossãosignificativos.
Eisalgunsdostópicosanalisadosnesteli\To:
•Oquesãooscristaisdopontodevistafísicoeesotérico
•Ousodoscristaisnaautocura
•AproteçãopsíquicaproporcÍonadapeloscristais
•Aantigaartededisporaspedraspreciosas
•Asmaisimportantespedrascurativaseseususos
•Meditaçõesinspiradaspeloscristais
•AspedrasdaNovaEra
Aspropriedadescurativasdoscristaisedaspedraspreciosas
éumlivrodestinadoatodososqueseinteressampeloconheci­
mentobásiconecessárioparausaraspropriedadescurativas
inerentesaoreinomineral,nointuitodemelhoraraqualidade
denossavidainterioreexterior.
EDITORA PENSAMENTO
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