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racionais contra a perseguição do Império Romano, que perseguiam os cristãos com o
pretexto de propagarem o ateísmo, a impiedade e a violência pública. Neste sentido, muitos
foram os esforços para se “obter dos imperadores romanos o reconhecimento do direito
legal dos cristãos à existência num império oficialmente pagão”
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, ainda que muitos destes
Padres tenham sofrido diretamente com o martírio e outras formas de repreensão por parte
do Império. Apenas no ano de 313 com o Edito de Milão os cristãos obtiveram, enfim, a
liberdade de culto, propiciando, deste modo, maior desenvolvimento do pensamento
teológico. Todavia, tal liberdade só foi alcançada graças aos incessantes esforços dos
Padres dos primeiros séculos que, ainda sob a severa perseguição, zelaram por defenderem
arduamente a fé cristã.
3.1. Apologetas gregos e latinos
Neste contexto, podemos observar uma divisão dos Padres em dois principais
grupos: os Padres gregos e os Padres latinos. Dentre os gregos, temos figuras importantes
como São Justino, Taciano e Atenágoras e dentre os latinos podemos identificar Minúcio
Félix e Tertuliano. Um importante distinção entre estes Padres surgiu acerca da posição
destes diante da sabedoria mundana ( como a filosofia grega). Para os gregos, sobretudo
para Justino, a filosofia contém verdades que são consideradas como que “sementes” de
Cristo, portanto, ainda que incompleta e imperfeita, contém traços que podem ser
identificados com a doutrina cristã. Não obstante, para os Padres latinos, sobretudo para
Tertuliano, toda a sabedoria mundana é obra do pecado, é essencialmente má e deve ser
rejeitada por aquele que se converteu ao cristianismo. A relação entre fé e filosofia foi,
deste modo, uma das questões mais importantes surgidas neste período.
Dentre os gregos, São Justino foi, sem dúvida, o mais notório. Nascido em Flávia
Neápolis, na Palestina e de pais pagãos, Justino converteu-se ao cristianismo antes do ano
132 e foi martirizado em Roma, em torno de 165, sob o prefeito Junius Rusticus. Entre
seus escritos que chegaram até nós, destacam-se a Primeira Apologia, endereçada ao
imperador Adriano, e também uma Segunda Apologia, endereçada, desta vez, ao
imperador Marco Aurélio, além de seu Diálogo com Trífon.
A vida de Justino foi uma constante busca pela verdade, na qual ele
incessantemente buscou. Por primeiro, recorreu à filosofia, tendo contato com o
estoicismo, o aristotelismo e o pitagorismo. Todavia, nenhuma destas escolas lhe deu as
respostas que tanto pesquisava. Recorreu, por último, ao platonismo, onde, por um
instante, pensou ter encontrando a grande verdade, através da contemplação das ideias,
contudo, aos poucos começou a perceber que estava sendo insensato ao tentar ver Deus
através da filosofia platônica, pois esta carecia da verdade.
Apenas ao entrar em contato com o Evangelho Justino encontrou a fonte que
saciara sua sede pelo verdadeiro saber, pois percebeu que é apenas em Cristo que a verdade
faz-se plena, tendo em vista que Ele é o Logos, ou seja, a “sabedoria” de Deus.
No que tange respeito aos padres latinos, existe uma característica em comum entre
boa parte deles: o pouco crédito e, por vezes, a hostilidade, para com a filosofia grega.
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GILSON, Étienne. A filosofia na idade média. Trad. E. Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 2.