científico há certos indícios de que, antes de nos tornarmos humanos,
passamos por etapas de seres alados.
Doutor Pacheco Fernandes organizara um fichário completo para
aquele caso. Eram centenas de fichas com anotações curiosas. Nas
horas de cansaço, elas lhes serviam de distração.
Acendia um cigarro, abria o arquivo, começava a repassar:
Minotauro — Monstro com cabeça de touro e corpo de homem.
Polifeno — Gigante de um olho só no meio da testa.
Quimera — Monstro com três cabeças, corpo meio cabra meio leão, cauda de
dragão, que vomitava chamas. Foi morto por Belerofonte, cavalgando Pégaso, o
cavalo de asas.
Seguia em frente, o cigarro evolando-se no cinzeiro, as fichas
sucedendo-se entre as mãos, recordando quantos seres fabulosos
fingira a fantasia dos séculos ou impregnara a memória dos povos:
esfinges, sátiros, faunos, unicórnios, hidras, pássaros metálicos de
Estinfália, grifos, hipogrifos, centauros. . . Seres humanos raros como
os blemeyes, com cabeça na barriga; os cinocéfalos, com cabeça de
cachorro; os unípodos, de um pé, apenas, mas gigantesco. Seguiam-se
as teogonias de deuses híbridos, legião inumerável; o abundante
marulho alado — anjos, arcanjos, querubins, serafins; e animais
simbólicos de que nos falam patriarcas, profetas e evangelistas.
Doutor Pacheco Fernandes cansava-se, acendia outro cigarro,
mudava de posição na cadeira. Mas pouco depois, de Bíblia em
punho, reduzia a fichas de cartolina azul as visões do profeta Isaías
sobre os misteriosos seres que escureciam a Terra antiga com a
sombra de suas asas poderosas. Fisgava uma alusão, declamava-a em
voz alta:
Os serafins estavam acima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobriam
seus rostos, e com duas cobriam seus pés e com duas voavam.
Menino de Asas armava uma hipótese, brincalhão:
— Essa visão do profeta Isaías não seria o primeiro anúncio dos
aviões de seis motores?
Doutor Pacheco Fernandes soltava uma praga, Menino de Asas
consolava-o com outra hipótese mais conciliadora.