Modernismo geração de 45: Clarice Lispector e Guimarães Rosa

TamaraRoza1 349 views 5 slides Sep 13, 2021
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About This Presentation

A hora da estrela, Clarice Lispector
A terceira margem do rio, Guimarães Rosa


Slide Content

A prosa brasileira do Modernismo
Após a renovação modernista de 1922, que impunha à arte um progresso no sentido de
valorizar a espontaneidade e os traços genuinamente brasileiros, o modernismo amadureceu com a
geração de 30 e já aí encaminhava-se para o cultivo de temáticas de cunho social e político. Foram
essas as características mais fortes da literatura da geração de 45, mais amadurecida e mais reflexiva
sobre os maiores problemas do Brasil naquele tempo. A prosa, em especial, retratou muito bem o
cenário brasileiro, tomando como enfoque a paisagem rural, agreste e seca do sertão, bem como a
figura do sertanejo, do jagunço e do imigrante nordestino.

A hora da estrela, Clarice Lispector
A hora da estrela, publicado em 1977, é o último romance de Clarice Lispector. Nele, a
metalinguagem, o questionamento sobre a criação literária, as indagações sobre o ato de existir (a
questão filosófica da existência, sintetizada na questão “Quem sou?”) e a existência de um ser
absolutamente alienado da própria vida constituem os temas centrais da narrativa. O livro possui três
narrativas que confluem: o drama de Rodrigo S. M., um escritor limitado que deseja narrar a história
de Macabéa; a narrativa da vida de Macabéa e a história da própria composição da narrativa
(metalinguagem). É importante saber que não ocorre o predomínio de uma história sobre a outra. Elas
acontecem simultaneamente. A autora, juntamente com Guimarães Rosa, empreende uma revolução
na ficção brasileira.
Principais obras Linguagem
Perto do Coração Selvagem (1944)
A paixão segundo G.H. (1961)
A hora da estrela (1977)
Laços de Família (1960)
A Legião Estrangeira (1964)
Felicidade Clandestina (1971)
Escreveu também crônicas e literatura infantil
Face chocante do óbvio;
Preferência por jogos metafóricos;
Trabalho na clave do “como” ou do “como se” - “as
coisas revivendo cheias de pressa como uma
chaleira a ferver”. A repetição é assumida como
uma técnica e como um gosto pessoal:
Repetição binária: “Tudo de repente era muito e
muito…” (p. 90)
Características da obra Um instante de epifania e a náusea
Emprego dos fluxos de consciência.
Sondagem psicológica (analisa profundamente a
alma das personagens).
Emprego do monólogo interior: (o narrador
conversa consigo mesmo).
Emprego da metalinguagem.
Epifania (Revelação).
Relato de uma experiência que a princípio se mostra
simples e rotineira, mas que acaba por mostrar toda
a força de uma inusitada revelação. É a percepção de
uma realidade atordoante quando os objetos mais
simples, os gestos mais banais e as situ- ações mais
cotidianas comportam iluminação súbita da
consciência dos figurantes, e a grandiosidade do
êxtase pouco tem a ver com o elemento prosaico em
que se inscreve o personagem. Em A hora da estrela
tal instante epifânico surge quando Macabéa
descobre que possui um futuro.

Narrador → O romance é narrado por Rodrigo S.M., um narrador interposto, que reflete a sua vida
ao personagem ao projetar-se na protagonista. Narrador onisciente e onipotente (ele está presente em
tudo: apresenta-se como autor da obra, funciona como uma transfiguração da verdadeira autora). O

narrador projeta seus pensamentos sobre literatura, desejos e decisões a respeito do destino da
protagonista.
Tempo →A época retratada é dos anos posteriores a 1950, percebendo aí a paixão da protagonista
(Macabéa) pelas atrizes mais famosas de Hollywood, como Greta Garbo e Marylin Monrou. O tempo
da narrativa está voltado mais para o psicológico.
Espaço → A ação se passa no Rio de Janeiro, por umas poucas referências externas de ruas e locais
característicos.
Ação → O enredo não segue propriamente uma narrativa linear. Existem três polos que podem ser
formados de certa forma como estruturas narrativas e que se misturam todo o tempo para formar
narrativa.
1- Rodrigo conta a história de Macabéa.
2- Rodrigo conta sua própria história.
3- Rodrigo tece as artimanhas da própria narrativa para explicar criação,
montagem e apresentação do próprio texto.

Personagens → As personagens de Clarice Lispector são seres em busca da revelação de mundos
desconhecidos dentro de si mesmos. Macabéa: É a protagonista do romance, moça nordestina e
humilde que enfrenta a vida na cidade grande – Rio de janeiro – Orgulha-se de ser datilógrafa (embora
medíocre); virgem, semianalfabeta, gosta de goiabada com queijo e coca cola. Quer ser estrela de
cinema. Ouve notícias da Rádio – Relógio e não sabe empregá-las na conversação.
Trecho da obra:
“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a
vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da
pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve.
Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
[…]
Enquanto eu tiver perguntas e não houver
respostas continuarei a escrever.
Como começar pelo início, se as coisas acontecem
antes de acontecer? Se antes da pré-história já havia os
monstros apocalípticos? Se esta história não existe,
passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os
dois juntos — sou eu que escrevo o que estou
escrevendo. […] Felicidade? Nunca vi palavra mais
doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos
montes
Como eu irei dizer agora, esta história será o
resultado de uma visão gradual — há dois anos e meio
venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da
iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei.
Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou
lido. Só não início pelo fim que justificaria o começo —
como a morte parece dizer sobre a vida — porque preciso registrar os fatos antecedentes.”
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. (Fragmento.)

A terceira margem do rio, Guimarães Rosa
Principais Obras Linguagem
Sagarana (1946)
Corpo de baile e Grande sertão: veredas (1956)
Primeiras estórias (1962)
Tutaméia: terceiras estórias (1967)
Estas estórias (1969)
A obra Corpo de baile é publicada, atualmente, em
três partes: Manuelzão e Miguilim, No
Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão.
▪ Neologismo;
▪ Arcaísmos;
▪ Regionalismos.
Aspectos gerais A reinvenção do regionalismo
Foco narrativo de 1ª pessoa; Narrador personagem;
Narrativa de memória; Margem-limites, não
ultrapassar, a lei Rio- água corrente, em curso,
movimento. As margens limitam o rio. (Riobaldo-
rio grande, em curso, as memórias em curso)
Família ribeirinha. Todos vivem e trabalham. A vida
segue. O pai constrói uma canoa, mas o
estranhamento é justamente porque o pai resolve
viver dentro da canoa. Se afasta da margem, vai para
o meio do rio e lá fica.
Transgressão (assim como a linguagem de
Guimarães Rosa); A canoa é a margem no meio do
rio, o pai faz a morada em algo que se move. Aí a
estranheza. O pai sai e não sai de casa. Ir e o não ir.
“Cê vai o cê fica. Cê nunca volte”. Todos tentam
entender o motivo. Entender o motivo é explicar,
racionalizar, trazer para a margem. Ninguém
entende, somente o filho. Guarda o pai no coração,
entende a postura do pai. O pai é e não é. Paradoxo?
Conto de silêncios. O filho que guarda o pai, em
silêncio. O Rio em silêncio. O pai em silêncio. O
filho troca de lugar com o pai. A história do pai
continua com o filho.

▪ Associou a temática filosófica e metafísica a
experimentações formais, atribuindo à sua
obra uma conotação universalista.
▪ Incorporou aos seus textos diversas
tradições:
• O pensamento de Heráclito e Platão;
• Os Vedas e a Bíblia;
• Os “causos” dos sertanejos, a mitologia
grega;
A divina comédia de Dante, a Ilíada e a
Odisseia de Homero, as fábulas de La
Fontaine.
CATEGORIAS DA NARRATIVA
Tempo → Neste conto o tempo cronológico é de um longo período, porém existe partes do texto em
que o tempo é psicológico.

Discurso → O discurso é direto, isto é, transcrição literal da fala dos personagens. O narrador pode
utilizar os travessões ou as aspas para delimitar a fala dos personagens além de caracterizá-las por
meio de verbos de e locução.

Narrador → A narrativa de "A Terceira Margem Do Rio" retrata a história de um pai que tem três
filhos e uma esposa, que vivem no sertão a beira de um rio. No início do conto, este homem se separa
de sua esposa, abandona sua família e parte para o rio sobre uma canoa, sem nenhum motivo aparente,
como uma tentativa de se retirar da vida social e exilar-se do mundo.

PERSONAGENS → O conto apresenta como personagens principais e secundários o pai, o filho, a
mãe e a irmã, entre outros; o enredo gira em torno da decisão do pai de viver no meio do rio; o narrador
é testemunha; o tempo, predominante, é cronológico, mas apresenta o tempo psicológico; e o espaço
é físico, porém, apresenta trechos com espaço psicológico. Conclui-se que o texto aborda a linha tênue
entre a lucidez e a loucura.
Os personagens são: filho (narrador-personagem), pai, mãe, irmã, irmão, tio (irmão da mãe), mestre,
Padre, dois soldados e jornalistas. Esses personagens, sem nomes, acabam se caracterizando como
tipos sociais, por suas funções na história. A observação desse aspecto já mostra, no pai, a tendência
ao isolamento. Sempre fora a mãe a responsável pelo comando prático da família. O pai, sempre
quieto. O filho e narrador não foi aceito na infância para companheiro do pai no seu desafio. Na
maturidade, quando tem a oportunidade, acha não estar preparado para ir rumo ao desconhecido, ao
"inominável".
Espaço → O espaço é delimitado pela presença concreta do rio, caracterizando a paisagem rural de
sempre (físico), entretanto, há o espaço psicológico. Desse espaço, como foi comentado
anteriormente, emanam magia e transcendentalismo aos olhos do leitor, no ir e vir do rio e da vida.
ESTRUTURA
Introdução: O narrador apresenta as características do pai (homem cumpridor, ordeiro, quieto e
positivo) e coloca que a mãe era quem regia a casa e os filhos.
Complicação: O pai manda construir uma canoa, pequena, porém forte, isso preocupa sua esposa que
fica sem entender nada. Ele se despede da família e entra na canoa sem dar nenhuma explicação, isso
preocupa a todos, inclusive quem não é da família e surge algumas hipóteses para a sua partida, como
loucura, pagamento de promessa e até existe uma intertextualidade com a passagem bíblica da Arca
de Noé; o filho passou a deixar alimentos para o pai, que facilitado pela mãe.
Clímax: O momento de maior tensão é quando o filho pede para ficar no lugar do pai na canoa.
Desfecho: O desfecho ocorre quando o filho, ao perceber que o pai aceitou a oferta, foge por medo
do desconhecido. Após isso, nunca mais teve notícias do pai. O narrador adoeceu e se arrependeu por
ter deixado o pai.
"Só executava a invenção de permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da
canoa, para dela não saltar, nunca mais."
Trecho da obra:
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo
que testemunharam as diversas pessoas sensatas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo
me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só
quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e
eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de
pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da
popa, como para caber justo o remador. Mas teve de
ser toda fabricada, escolhida forte e arquejada em rijo,
própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta
anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que,
ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora
para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia.
Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio,
obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo
grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se
poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso,
do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o
chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou
outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez
nenhuma recomendação. Nossa mãe, a gente achou
que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de
pálida, mascou o beiço e bramou: “— Cê vai, ocê
fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a
resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir
também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me
animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele
só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim,
mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E
a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Guimarães Rosa, J. Ficção completa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1994. p. 409.